segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Médicos e equipamentos

Muito tempo faz, fui namorado de uma dentista por quase um ano. Como não residíamos na mesma cidade nem no mesmo estado, durante o ano de namoro passava alguns dias em sua casa, com seus pais, irmãos. Durante a semana, ela trabalhava no seu consultório, privado, e atendia algumas vezes, também, num consultório da prefeitura.

Voltava feliz de seu consultório e voltava chorando do consultório da prefeitura porque, dizia, não havia equipamentos, materiais. Depois da terceira vez que chorou, sugeri-lhe que fosse à prefeitura reivindicar material. “Mas eu sou dentista, não sou política”, respondeu-me. Ora, aqui estava e está um problema no problema. Muitos profissionais da área da saúde estudam de forma apenas técnica, preparando-se apenas para a execução de tarefas e não para a preparação das condições aptas à execução de tarefas.

Nesse debate entre médicos e equipamentos, se precisamos de médicos no interior ou de equipamentos no interior é lógico que responderemos que precisamos dos dois. Mas se tivermos de escolher por onde começar eu digo que estou entre os que afirmam que precisamos começar pelos médicos com sentido de gestão pública da saúde. O médico gestor público da saúde é aquele movido pelo objetivo de construir estruturas de saúde pública. Em tal construção ele já está sendo médico, já está tratando da saúde pública, pela pressão política, pela organização popular, pela articulação entre município, estado e união.

Melhor seria que tudo já estivesse pronto, mas o Brasil é um país em construção. Então, na construção das estruturas de saúde pública lá onde elas ainda não existem, não serão os engenheiros os artífices dessa construção, mas os profissionais da saúde. São eles que entendem de estruturas e equipamentos de saúde pública. É desse tipo de médico intelectual orgânico que o Brasil precisa. Sobretudo o Brasil do interior.

Um amigo médico, já de idade avançada, pediatra, contou-me que o que havia de estrutura de saúde em sua cidade fora construção dele e outros médicos pioneiros na região. Agora, a região é excelente em termos de estrutura médica, e os novos médicos querem atuar lá. O Brasil, porém, ainda precisa de pioneiros, é um país onde há muitas comunidades sem o mínimo de estrutura de saúde, também nas regiões de fronteira, sobretudo no norte, onde a presença de médicos é aquela dos amigos e amigas militares, que atuam nos PEFs, nossos sete Pelotões Especiais de Fronteira (fronteiras na Amazônia).

O Brasil é um país em construção cuja população precisa de médicos “políticos” no sentido cidadão da palavra. Nesse sentido, os cursos de medicina das universidades federais deveriam ser revistos em seus objetivos, orientados para o deslocamento dos egressos pelo território nacional segundo as necessidades do povo brasileiro e não segundo os comandos de mercado e o desejo de consumo de egressos cujos anos de estudos foram pagos pelo povo brasileiro que agora precisa deles.