terça-feira, 10 de maio de 2016

Trindade, marxismo e fraternidade socialista

Trindade, marxismo e fraternidade socialista
 “Não há lugar para o capitalismo em um mundo unido

Em A Ideologia Alemã (1846), Karl Marx e Friedrich Engels afirmaram que o comunismo não é um ideal, metafísico, fora da humanidade, mas um movimento que se encontra dentro da história, um movimento intrafísico libertador situado na história de uma humanidade dividida por sistemas de dominação de seres humanos por seres humanos:
O comunismo não é para nós um estado de coisas que deve ser instaurado, um Ideal para o qual a realidade deverá se direcionar. Chamamos de comunismo o movimento real que supera o estado de coisas atual[1].

Em outra publicação, Marx destacou que nas sociedades velhas, opressoras, já se encontra o bebê da sociedade nova, em gestação no ventre dessa sociedade dominadora[2]. Senhores de escravos e escravos, senhores feudais e servos da gleba, burgueses e proletários. Mas no ventre da sociedade de dominação burguesa está em gestação o bebê da nova sociedade. Dessa forma, para Marx, o comunismo - onde existiria diversidade de profissões, mas não a dominação de uma classe sobre a outra - é um projeto intrafísico, contido na barriga da sociedade burguesa e não um ideal filosófico extrínseco. O proletariado, como síntese da classe dominada na sociedade burguesa, seria os braços desse bebê da democracia popular já em gestação na barriga da sociedade velha.
Ora, com o passar dos anos, porém, ao proletariado foram acrescentados outros sujeitos-chave nesse processo intrafísico de emancipação dos oprimidos: camponeses, indígenas, negros. As experiências das revoluções chinesa e cubana, as lutas contra o Apartheid, não somente na África do Sul, a vitória eleitoral de Evo Morales na Bolívia destacaram que as mulheres e homens proletários vivem o mesmo processo de emancipação popular das mulheres e homens camponeses, indígenas, negros.
Para Marx, portanto, o comunismo não está nos livros, nas ideias, mas no ventre da sociedade velha caracterizada pela dominação de classes. Trata-se de um movimento intrafísico de emancipação popular. E tal gestação não é de apenas alguns meses, mas um processo que envolve gerações. Não se trata de luta conjuntural, com os tempos típicos das lutas conjunturais, mas de luta estrutural, com os tempos típicos das lutas estruturais. Ora, assim como um burguês europeu foi considerado louco em 1350 por imaginar que um dia a hegemonia monárquica seria substituída pela hegemonia burguesa, um comunista de 2016 sabe que o destino final da humanidade é a hegemonia da democracia popular, mas sabe também que os tempos de superação da hegemonia burguesa são longos, assim como foram seculares os tempos de duração da já defunta hegemonia monárquica.
Comunismo, portanto, como destino final da humanidade, sua vocação teleológica intrafísica. O que coincide, também, com o retorno transformado da humanidade à sua identidade comunitarista primordial, quando ainda não havia a propriedade privada dos meios de produção. Mas qual relação existe entre esse dado típico do socialismo científico (e laico) e a teologia das repercussões societárias da hermenêutica política da Trindade?
Vejamos uma música popular que manifesta uma profunda convicção cristã:
“De ti saímos, a ti é que voltamos, na caminhada que nesse mundo damos”.
Para a fé cristã, a humanidade saiu de Deus e a Deus voltará durante e após a trajetória histórica no tempo e no espaço. Mas quem é Deus para a fé cristã? O Deus cristão não é o deus individualismo exaltado pelo sistema burguês, nem o deus dinheiro, lucro. O Deus cristão é a Trindade, “a melhor comunidade”[3]. O Deus cristão não é solidão, mas gratuidade de comunhão-comunidade, unidade sem subordinacionismo na diversidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Assim, quando se diz que Deus criou homem e mulher à sua imagem e semelhança, não se deve pensar num Deus individualista, mas no Deus Trindade que inventa os seres humanos de forma constitutivamente comunitária. E aqui há sintonia de interpretação entre o dado teológico-trinitário e o dado filosófico-aristotélico: “O ser humano é um ser social”. Ou seja, o social não se refere ao fazer do ser humano, mas ao seu ser; não lhe é extrínseco, mas intrínseco, constitutivo, intrafísico. É a identidade humana que é coletiva mesmo na singularidade de cada mulher e homem. O nós precede o eu (fomos gerados em uma comunidade, que nos precede); o nós é constitutivo do eu, ou seja, o eu é nós mesmo quando está sozinho, e encontra sua identidade, significado, realização na unidade da comunidade, naquele processo relacional de personalização que chamaremos de comunitarismo personalizante, invertendo a expressão de Emmanuel Mounier (personalismo comunitário).
Da Trindade, portanto, para a Trindade: de ti saímos, a ti é que voltamos. A Trindade não é apenas identidade, mas, também, destino final. Antropologia teológica e escatologia cristã são trinitárias, comunidade-comunhão como origem e destino final da humanidade.
“De ti saímos, a ti é que voltamos, na caminhada que nesse mundo damos”.
Como é interpretada essa caminhada no tempo e no espaço? Por certo tempo, tal caminhada foi interpretada como exercício de fuga do mundo, entendido como lugar impossível de ser transformado.
Karl Marx, pensador laico, mesmo considerando o mundo contraditório, caótico (dominação de uma classe sobre a outra), não adotou a fuga do mundo como ideologia, mas a esperança na transformação desse mundo num lugar melhor para todos pelo caminho da superação da dominação de classe.
Marx não adotou aquele pessimismo político em relação à transformação do mundo que foi adotado pelos cristãos da hermenêutica da fuga do mundo, cujas ações sociais eram no máximo assistenciais, para amenizar os males sociais, mas sem colocar em xeque as estruturas de dominação de classes e Estados. Assim, talvez, tenha até colaborado involuntariamente nesse processo de passagem da fuga mundi à responsabilidade dos cristãos católicos pela transformação estrutural do mundo moderno, capitalista, por meio de seu pensamento laico carregado de críticas à dominação de classe, mas carregado, também, de esperança na transformação desse mundo social dominado pelo senhorio de classe.
De fato, quando o papa Leão XIII publicou sua encíclica social Rerum Novarum, em maio de 1891, sobre a questão operária, o Manifesto Comunista de Marx e Engels (fevereiro 1848) já era um adulto com 43 anos de idade. Nessa encíclica, identificamos uma mudança significativa de pensamento no catolicismo social, com a passagem da assistência social (questão de caridade) para a reforma social (questão de justiça), ou seja, são identificados os problemas sociais como problemas estruturais, mesmo se com a indicação de soluções reformadoras para esses problemas.
Leão XIII, com essa sua encíclica reformadora, expressão de pressões internas dentro do catolicismo social, abre estrada para o diálogo político com o mundo do trabalho, diálogo esse que será ulteriormente desenvolvido no âmbito católico com o Concílio Vaticano II, na década de 1960, e que adquirirá um tom mais radical (em relação aos sistemas de opressão) com o movimento da Teologia da Libertação na América do Sul e Central, quando teremos a passagem de uma abordagem reformadora em relação às relações de produção à estratégia da mudança de sistema.
Tal posição antissistêmica adotada pelos cristãos do movimento internacional da Teologia da Libertação foi combatida pelo papa João Paulo II, que desenvolveu cruzadas contra os revolucionários leigos e cristãos por meio de suas inúmeras viagens políticas, onde combatia inimigos e exaltava amigos (como Ronald Reagan) de sua ideologia anticomunista.
Posteriormente, para a surpresa de tantos, o papa argentino, Francisco, adota um discurso antissistêmico em relação ao capitalismo, destacando o risco desse sistema levar o planeta até mesmo ao apocalipse ambiental. Francisco solidariza-se com Estados do sul político do mundo, saindo da rota internacional conservadora traçada por João Paulo II. O vento gerado por essa mudança de rota chega às brasas do cristianismo antissistêmico, que estava sob as cinzas das cruzadas católicas conservadoras, locais e internacionais, dando assim novo alento ao cristianismo da libertação.
No âmbito evangélico, a preocupação com o mundo moderno possui uma trajetória diferente, uma vez que ela coincidiu com o abraço ideológico entre protestantismo (sobretudo calvinista) e capitalismo, analisadas na obra clássica de Weber sobre a afinidade eletiva entre protestantismo e capitalismo. Posteriormente, até a versão consumista do capitalismo, distante da fase ascética estudada por Weber, será abraçada por ideologias neoprotestantes por meio de uma criação ideológica ad hoc conhecida como teologia da prosperidade.

Marxismo e catolicismo social antissistêmico são, evidentemente, realidades diferentes, mas cabe separar as diferenças reais das diferenças fictícias criadas pela propaganda católica anticomunista.
Vejamos algumas acusações recorrentes na panfletagem reacionária católica e evangélica contra o marxismo:
1.“O marxismo é ateísta”. Na verdade, Marx era ateu, mas o marxismo não é crente nem ateu. O marxismo é uma metodologia laica de análise, sociológica. Para a metodologia marxista, as religiões são ideologias confessionais que podem ser conservadoras, legitimadoras da hegemonia burguesa, ou revolucionárias, quando combatem também do ponto de vista teológico o sistema internacional capitalista, como na experiência citada do movimento da Teologia da Libertação.
2.“O marxismo prega o ódio de classe”. O marxismo não inventou a luta de classes nem o ódio de classes, apenas descreveu esse triste cenário sistemático de morte. O marxismo quer superar o ódio institucionalizado contido na estrutura da dominação de classe, quer superar a violência institucionalizada contida na exploração fratricida sistemática do trabalho assalariado. O marxismo quer a fraternidade social pela transformação das relações fratricidas de produção em relações fraternais de produção. Dessa forma, o marxismo é uma metodologia de amor social, amor pela emancipação das classes e Estados oprimidos pelo sistema capitalista internacional. E aqui pode-se argumentar que muitos erros foram cometidos por Estados que fizeram revoluções sociais inspiradas no socialismo científico marxista. Ora, cabe lembrar, porém, que cometer erros não é monopólio dos marxistas. A Igreja Católica, por exemplo, cujo fundamento explícito é Cristo, cometeu erros como a Inquisição, a exploração internacional com o uso da cruz para justificar a espada dos colonizadores na matança de negros e indígenas. Mais recentemente, sabe-se até da prática de exploração sexual de crianças em paróquias católicas, mostrando que quem estava de fato “comendo criancinhas” não eram os comunistas. Ora, se até pessoas que rezam várias vezes por dia praticam coisas desse tipo, exigir santidade constitutiva da esquerda revolucionária é mais uma manobra de propaganda reacionária do que exigência de pureza. Os erros da esquerda revolucionária devem ser corrigidos, mas não por meio da propaganda demagógica dos reacionários.
No que diz respeito à revolução social, recordemos que ela significa superação da hegemonia burguesa e não mera luta armada contra essa hegemonia. A luta armada de emancipação social é mais uma condição imposta pelos opressores do que uma opção dos oprimidos. Ela emergiu e emerge em alguns cenários como necessidade quando a burguesia e seus aliados (no judiciário, polícia, meios de comunicação) não respeitam na prática a via parlamentar que sustentam apenas com palavras. Uma revolução social pela via eleitoral é o melhor caminho. Infelizmente, porém, o golpismo pisoteia vitórias eleitorais quando elas tocam no núcleo duro da hegemonia burguesa.
3.“O marxismo é materialista”. Ora, materialista mesmo, no sentido pejorativo da palavra, é o capitalismo, pois substituiu a fé em Deus pela fé no lucro, dinheiro, capital, consumo. O marxismo é materialista no sentido laico, metodológico-sociológico da palavra: busca compreender os conflitos reais, a dominação real de classes, analisa e entra nos conflitos sociais contidos nas relações materiais de produção. O materialismo do marxismo não é teológico nem filosófico, mas metodológico-sociológico. Se um marxista quiser ser materialista em sentido teológico, isso é problema dele, não do materialismo marxista, que é laico, ou seja, não é crente nem ateu.
4.“Os Estados marxistas combatem as religiões”. Alguns erros foram cometidos pela influência nefasta da metafísica ateísta entre marxistas incautos, mas o motivo substancial da luta entre alguns Estados de inspiração marxista e religião não foi religioso, mas político. Como tratar, por exemplo, bispos e padres católicos aliados das potências invasoras, como os padres e bispos amigos dos invasores franceses e estadunidenses no Vietnã? A prisão de religiosos em várias circunstâncias não foi por motivo religioso, mas por motivo político, quando tais religiosos utilizavam seus espaços de atuação para a prática de ações contrarrevolucionárias. Além disso, cabe lembrar que na Revolução Sandinista havia quatro sacerdotes católicos ocupando cargos de ministro de Estado no governo revolucionário, e eles não foram perseguidos pelos marxistas leigos da Frente Sandinista, mas por João Paulo II e clérigos conservadores locais da contrarrevolução. Podemos lembrar, também, que a China revolucionária permitiu a existência dos católicos, desde que não permanecessem vinculados a Estados (europeus) tradicionalmente racistas e imperialistas em relação aos chineses.

Unidade no mundo pela unidade do mundo
Não há lugar para o capitalismo em um mundo unido. Fraternidade social e dominação de classes não são conciliáveis. O que não significa, porém, odiar o burguês, mas o sistema da acumulação incessante de capital. Para os cristãos trinitaristas, a construção da fraternidade social não pode ser somente espiritual, numa reunião de domingo. É preciso que ela entre também nas relações materiais de produção para fraternizá-las, superando o sistema fratricida e talvez apocalíptico do ponto de vista ambiental que é o sistema capitalista, caracterizado por relações de subordinação econômica e política entre classes e Estados.
Para os cristãos trinitaristas, a Unidade da Trindade é identidade e destino final da humanidade. Unidade de amor na distinção das três pessoas. Unidade sem subordinacionismo, pois na Trindade há distinção, mas não senhorio de uma pessoa sobre a outra. Unidade paritária que afirma a distinção na igualdade de valor entre as três pessoas. O que temos no sistema capitalista internacional, ao contrário, é a negação radical dessa unidade trinitária, com a dominação de Estados e de classes, a negação sistemática do pedido que se faz na oração do Pai Nosso: seja feita tua vontade, assim na terra como no céu, como na Trindade.
A unidade trinitária, portanto, representa a contestação da divisão sistêmica da humanidade, a contestação do sistema social e internacional fratricida da burguesia.
Especialista em unidade trinitária e sociedade internacional, do ponto de vista prático e teórico, a italiana Chiara Lubich dedicou sua vida à construção da unidade de amor-comunhão no mundo pela unidade do mundo. Para ela, não obstante os tantos e visíveis conflitos locais e internacionais, “o mundo tende à unidade”[4]. Mas como seria essa unidade do mundo do ponto de vista sociopolítico e econômico?
Chiara Lubich criou várias iniciativas de unidade internacional, inclusive no âmbito econômico, com um projeto voltado para a construção de uma Economia de Comunhão (EdC). Chiara não era marxista, mas fica claro em seus pronunciamentos que ela nunca abençoou o sistema capitalista. Indicou a comunhão livremente aceita de bens espirituais e econômicos como caminho de superação planetária do atual modelo econômico internacional. Um de seus colaboradores, Luigino Bruni, no livro Il prezzo della gratuità, identificando as origens remotas da EdC no pensamento e experiência de Chiara Lubich, constatou que no “DNA da EdC” há também “carismas civis” e não apenas religiosos. E em referência a isso citou o fato de Chiara ser “filha de um socialista, Luigi, e irmã de Gino, ativo no movimento comunista e jornalista de ‘L’Unità’”, concluindo sua observação afirmando que “o anseio por um mundo mais justo, equitativo e fraterno estava registrado na história de sua família e de sua terra”[5].
Cristão e marxista, em uma entrevista de 1997 o pedagogo brasileiro Paulo Freire após explicar que se situa “entre os que creem na transcendentalidade” e, “entre aqueles que, crendo na transcendentalidade não dicotomizam a transcendentalidade da mundanidade”, destacou:
Foi a realidade dura deles (camponeses, favelados) que me remeteu a Marx, e eu fui a Marx... Quanto mais eu li Marx, tanto mais eu encontrei uma certa fundamentação objetiva para continuar camarada de Cristo... Então, as leituras que eu fiz de Marx não me sugeriram jamais que eu deixasse de encontrar Cristo na esquina das próprias favelas. Eu fiquei com Marx na mundanidade à procura de Cristo na transcendentalidade[6].
Marx também foi filho de Deus, da Trindade e com sua forma leiga de pensar talvez tenha colhido na sua análise histórica elementos substanciais da vocação trinitária intrafísica da humanidade à unidade paritária.

Para ser libertadora a fraternidade precisa ser popular, antissistêmica, socialista, situada no horizonte dos pobres e dos Estados do sul político do mundo. A nosso aviso, a contradição fundamental contida no modelo de fraternidade promovido pelos católicos situados no horizonte hermenêutico da ideologia da burguesia reside justamente no conservadorismo contido nessa tentativa de acomodação do amor, um vinho novo, no odre velho que é o capitalismo, um sistema de divisão permanente que despersonaliza, produz anomia, alienação, estresse, tristeza, com seu modelo de democracia também esgotado, porque criado ad hoc para a manutenção política e jurídica desse sistema econômico intrinsecamente fratricida e apocalíptico do ponto de vista ambiental.
Os católicos situados no horizonte ideológico burguês-reformador classificam seu modelo de fraternidade como sendo “liberal, democrata, republicano”, o que para eles significa virtude e não vício político, e propõem tal modelo ideológico, classista de fraternidade como se fosse neutro e universal. A ideologia do universalismo, porém, é uma farsa política antiga quanto o universalismo burguês da Revolução Francesa, reproduzida com ares de religião nesse modelo de fraternidade que tolera as desigualdades estruturais em nome de um amor conservador, feito à imagem e semelhança do ajuste político-jurídico do cristianismo à falácia do “republicanismo” burguês. Dessa forma, a fraternidade dos católicos burgueses, termina por aguar em teoria e na prática a unidade trinitária, eliminando sua carga semântica e política libertadoras.
A fraternidade socialista, ao contrário, quer entrar nos porões lúgubres das estruturas capitalistas produtoras de desigualdade e abrir suas janelas para a luz libertadora da Trindade. A fraternidade socialista quer a unidade no mundo, pela unidade paritária, inclusiva do mundo.
“Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40). Praticar esse mandamento de amor sem legitimar a esmola daquela burguesia católica ou leiga que com uma mão extrai mais-valia e com a outra devolve em forma de assistência “fraternal” uma ínfima parte dessa mais-valia extraída. Sem legitimar, também, aquele modelo de acolhida dos refugiados pobres internacionais que não se questiona sobre as causas estruturais dos conflitos internacionais colonialistas e neocolonialistas. Às vezes é o mesmo navio que agora recolhe corpos e refugiados pobres sobreviventes nos mares da Europa o que trabalha ordinariamente com o transporte de armas para o sistema internacional neocolonialista que os mata. Acolhida, assistência e reformas sociais também são manifestações do amor cristão, mas caridade política significa, sobretudo, entrar na história dos vencidos (quando não se faz parte dela), denunciar a hipocrisia subordinacionista tolerada pelo modelo burguês de fraternidade, adotar o ponto de vista das “vítimas permanentes dos sistemas de dominação”[7] e, desse lugar, que é político e teológico, construir a fraternidade socialista, popular, antissistêmica, internacional e local, por meio do trabalho político pela transformação das estruturas fratricidas do capitalismo internacional e local em estruturas agápicas, libertadoras, trinitárias nesse “vaivém de relações de classes e nações”[8] no qual nos encontramos.

Fábio Régio Bento[9]
Fronteira Brasil-Uruguai, 09 de maio de 2016.



[1] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p.38.
[2] Cf. Capítulo 24 de O Capital
[3] BOFF, Leonardo. A Trindade é a melhor comunidade. Petrópolis: Vozes, 2009.
[4] LUBICH, Chiara. L’unità e Gesù abbandonato. Roma: Città Nuova, 1984, p.25.
[5] Roma: Città Nuova, 2008, p.16.
[6] Paulo Freire. Entrevista. 17 de abril de 1997. II Parte. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=fBXFV4Jx6Y8&app=desktop. Acesso em 25/04/2016.
[7] Michael Löwy. O ponto de vista dos vencidos na história da América Latina: reflexões metodológicas a partir de Walter Benjamin. Anexo livro As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen. São Paulo: Cortez, 2013, p.266.
[8] Silviu Brucan. La disolución del poder – Sociología de las relaciones internacionales y políticas. México: Siglo XXI, 1974, p.82.
[9] O autor dessa breve manifestação de convicções é doutor em Ciências Sociais pela PUC San Tommaso (Roma, 1996) e mestre em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana (Roma, 1992). Leciona Religião, Política e Relações Internacionais no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa. frbento@hotmail.com

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reforma do quarto poder

Claro que, para viver, um jornal precisa de dinheiro. O problema é quando busca-se dinheiro a qualquer custo. Ora, o certo é usar a criatividade do bem, da boa concorrência para buscar dinheiro para a sobrevivência de um jornal, inventando, inovando. A liberdade, criatividade deve navegar nesse mar de águas turbulentas e não no esgoto subterrâneo da indecência.

Para que um pai digno não fique triste ao ver seu filho, ou filha, jornalista, trabalhar em um jornal, duas regras são certamente importantes: uma política e outra econômica. Política. Praticar a regra da par conditio, ou seja, tratamento igualitário, condições pares, o que significa permitir o mesmo espaço no veículo de comunicação para os grupos envolvidos em disputas eleitorais. O contrário disso é a morte do quarto poder, quando um veículo de comunicação trabalha de forma golpista, oportunista, apoiando candidatos, direta ou indiretamente, de acordo com as possibilidades econômicas que a vitória ou derrota de x ou y possa assegurar ao jornal. Ora, há meios de comunicação e telecomunicação com sérios problemas, sobretudo no âmbito nacional, nesse quesito. 

Uma universidade inventou até o “manchetômetro”, um medidor de manchetes negativas ou positivas sobre política e verificou que em um dado telejornal não há par conditio. Regra econômica. A regra econômica é simples, mesmo se de difícil aplicação: o departamento editorial não deve ser condicionado pelo departamento comercial, ou seja, não se pode proibir um jornalista de apresentar uma denúncia fundada sobre uma empresa porque tal empresa paga tantos por cento da publicidade do jornal. Sem a regra da isenção econômica e política a alma de um jornal vira pano de chão.

Uma amiga, jovem, disse amar o jornalismo, mas não querer seguir na profissão porque, segundo ela, “os meios de comunicação viraram um bordel onde os proprietários trabalham como gigolôs, selecionando o trabalho de repórteres, redatores conforme o interesse em beneficiar ou prejudicar esse ou aquele grupo político e econômico, e quem desgarra, vai para o olho da rua. Temos liberdade somente para fazer matérias sobre frio, calor e outras amenidades do tipo”. Triste, muito triste.

O maior desafio do jornalismo, e telejornalismo, hoje, não é técnico, mas ético. Para que as novas gerações recuperem a confiança perdida no jornalismo crítico, independente, isento, imparcial, o quarto poder também precisa ser profundamente reformado.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Gastronomia, identidade e relações internacionais

Se pensarmos no contraste entre o modelo fast food e o modelo slow food, citando apenas um exemplo, podemos afirmar que assim como em tantas profissões, gastronomia e gastrônomos também não são neutros, mas condicionados por ideologias. Gastronomia popular significa não entender a gastronomia como privilégio de elites que frequentam restaurantes caros pelo mundo, mas ciência e arte geradas pela necessidade, produção cultural de povos geograficamente situados. Além do idioma próprio, cada povo tem sua identidade gastronômica, constitutiva de sua identidade cultural, em um dado território.

Ao viajar, o turista retira-se temporariamente de seu universo gastronômico específico e ingressa em outro. Com a mudança de idioma ocorre também a mudança gastronômica. Determinados produtos, típicos de determinados territórios e povos, usados artesanalmente pelos povos desses territórios, formam a cultura gastronômica de um lugar, elemento constitutivo de sua identidade cultural específica. A cultura gastronômica, porém, refere-se não apenas ao que se come, mas, também, ao como se prepara os alimentos, como se come, onde e com quem se come.

Gastronomia é símbolo de identidade e pertencimento a uma dada comunidade e não apenas nutrição corporal. Ao viajar, o turista reencontra-se com sua cultura de pertencimento em um restaurante com gastronomia típica de sua comunidade de origem. Como é óbvio, aquilo que é definido como exótico em um lugar, não o é em outro.

A diversidade gastronômica é uma das manifestações do pluralismo cultural internacional, e o retorno às especificidades gastronômicas, em pátrias diferentes da própria, significa, também, afirmação de identidade. Aromas, sabores e cores de ingredientes de gastronomia são símbolos de pertencimento a comunidades diferentes dos cinco continentes.

Para o sociólogo Ulderico Bernardi, “pesquisas empíricas realizadas entre imigrantes confirmam que a identidade alimentar é um componente essencial do sentido de pertencimento. Diante das pressões assimiladoras, para que os grupos se uniformizem, segundo o estilo de vida e valores de referência do modelo cultural dominante, justamente a alimentação demonstra maior resistência. Se a língua cede, o costume nutricional e a relacionalidade a ele vinculada duram mais no tempo” (Del viaggiare. Milão: FrancoAngeli, 1997, p.116).

Bernardi cita uma pesquisa feita com imigrantes coreanos nos EUA, indicando que houve adaptação ao estilo estadunidense de alimentação, mas com a preservação da alimentação coreana nas festas e finais de semana, quando há mais tempo para dedicar à preparação dos alimentos, e possibilidade de convívio. Nestas situações, as refeições são interpretadas como “ocasiões de reconstrução da identidade, com o uso de pratos típicos, tradicionais” (p.116).

Em algumas situações, perde-se o idioma, mas não a tradição gastronômica de origem. A identidade cultural preservada à mesa, como ocorre entre aqueles netos de imigrantes italianos do sul do Brasil que já não falam mais o idioma de Dante, mas sentem-se italianos praticando a linguagem slow food da polenta e suas circunstâncias.

terça-feira, 11 de março de 2014

Quietas ruas

A calma de depois do carnaval...
Silêncio e já frio na fronteira...
Agora, os poetas do pampa,
Falecidos eternamente vivos,
Voltam calmamente para alegrar nossas quietas ruas
Que esperam pelo perfume gaúcho de lenha queimada que,
Felizmente, em breve voltará
Para completar esse abraço de amor...

terça-feira, 4 de março de 2014

A luta pela igualdade é sagrada

Final de janeiro 2014, quinta-feira dia 23, lá estava eu fazendo leituras de trabalho sobre a história da luta contra as desigualdades na América Central, especificamente, em El Salvador, onde leigos e cristãos, reformadores e revolucionários caíram lutando por um El Salvador melhor. “Muitos morreram e, entre os que sobreviveram, tantos foram derrubados pelo desencanto, pela tristeza política”, pensei, identificando-me um pouco com esses guerreiros cansados. Bem, no momento dessa reflexão emergiu uma conclusão, intelectual: “Mas a luta pela igualdade é sagrada...”.

“A luta pela igualdade é sagrada...”. Essa frase ficou girando dentro de mim como caramelo em boca de criança. Depois, por um convite vindo de dentro, passei da leitura de estudo à oração: “Aquele pouco que você fez pela diminuição das desigualdades é ação sagrada, ficou tudo registrado para a eternidade, na eternidade”. Comovido, entreguei-me a essa relação de amor com essa presença que em alguns momentos conversa comigo, me comove, me corrige, me consola. Pensei naquelas pequenas ações que desenvolvi na minha juventude de estudante universitário na periferia pobre de Pelotas (RS), na Vila da Balsa. Pensei nos meus estudos de sociologia, sempre motivados por essa intenção política. Pensei na minha atividade de professor, de cidadão, sempre movido por esse amor pela igualdade social que não temos, mas que poderíamos ter. “Acompanho tua vida, tua história, te sigo...”.

No mundo de hoje, por cima da injustiça social, da desigualdade socioeconômica injusta acrescenta-se o deboche, a ironia contra os que ainda sentem o dever de lutar contra as desigualdades. Além de injusto, o nosso mundo é conservador, reacionário, elitismo politicamente soberbo, arrogante. Estrutura social conservadora alimentada por uma cultura reacionária. Assim, a gente vai meio que murchando, desencantando, transformando a vida nessa coisinha pequeno-burguesa onde a felicidade se resume ao churrasquinho com os amigos. Para Deus, não. Para Deus a luta pela igualdade é sagrada.

A luta pela igualdade é valor político e, também, teológico, luta sagrada. Muitos companheiros centro e sul-americanos morreram por essa boa causa, combatendo como podiam. A luta de resistência, às vezes armada, em algumas situações mais do que uma escolha foi uma imposição das oligarquias conservadoras que consideram o mundo como lugar exclusivo delas, para elas. Mas não é assim, o mundo é casa de todos.
Os inimigos da igualdade justa são hereges que, mesmo frequentando igrejas combatem a regra das regras do cristianismo: um Pai, de muitos filhos, filhas, diferentes culturalmente, biologicamente, mas todos de igual valor. 

A luta pela igualdade é sagrada. Continuar, portanto, contribuindo como se pode, trabalhando como se pode pela diminuição das desigualdades, superando contradições interiores e exteriores por esse valor real contido no ideal político e espiritual da fraternidade social, internacional, universal.