domingo, 22 de dezembro de 2013

Turismo e ideologia

Turismo não é mera válvula de escape de elites entorpecidas pelo tédio. Turismo, de tour, giro, volta, refere-se ao movimento de deslocamento voluntário, por um período de tempo limitado (ida e volta) com o desenvolvimento de atividades no lugar ao qual se destina por meio de viagem. Tais atividades podem ser a participação em eventos (turismo de eventos), assinatura de um contrato (negócios), visita a museus, etc. Segundo Fiorenza Tarozzi, “a história do viajar é tão antiga quanto aquela do ser humano”, mas “o viajar, que nos séculos passados era uma experiência excepcional, é para nós, hoje, ao contrário, um fato de rotina, uma experiência ordinária” (Il tempo libero. Turim: Paravia, 1999, p.49).

Viajavam em caravanas mercadores, militares, missionários, exploradores, conquistadores, colonizadores, diplomatas, peregrinos. Hoje, eles continuam viajando, mas em maior quantidade pela qualificação dos meios de deslocamento pelo território e dos meios de acolhida dos viajantes. Das antigas caravanas, passando pela organização do Grand Tour aristocrático, chega-se à popularização do turismo. Tempo livre e popularização do turismo foram conquistas da classe trabalhadora. Lutou-se pela redução da jornada de trabalho, dia de descanso semanal, férias remuneradas. Lá onde houve transformação dos pobres em classe média, passou-se do Grand Tour aristocrático ao Grand Tour mais democrático.

No seu artigo Toward a Sociology of International Tourism, de 1972, Erik Cohen identificou o turismo como “viagem de prazer” (Social Research, n.1, p.164). Porém, a rígida distinção entre viagem de prazer, para passeio, e viagem de trabalho, para negócios, não parece caber na modalidade turismo de evento. A pergunta típica de aulas de inglês para principiantes: “Are you here on holiday or on business?” ficou com essa rígida diferenciação relativizada pelo turismo internacional de eventos profissionais: congressos de psicologia, medicina, relações internacionais, ciência política, etc. O que ocorre também nos “almoços de trabalho”, mistura de negócios e prazer; passeio e trabalho. O útil unido ao agradável no turismo internacional de eventos.

As próprias “missões de governo” a outros países, ou as “missões empresariais”, além dos congressos internacionais profissionais, são mistura de trabalho com passeio, prazer, turismo de evento, profissional, com a distinção para fins de prestação de contas do que foi pago pela fonte financiadora e o que deve ser pago pelo participante.

Além disso, assim como tantas outras palavras e experiências, o turismo também não é neutro. Ele é ideológico em suas metas, realizações, sujeitos envolvidos e relações entre sujeitos coletivos. A escolha de destinos, roteiros, eventos, em Cuba ou Miami, na Disney, ou em Robben Island (uma das prisões do Mandela), manifesta os pressupostos ideológicos do sujeito que viaja. 

Pode-se viajar para a Bolívia para conhecer os caminhos percorridos pelo Che, numa espécie de peregrinação socialista, ou viajar para Meca (peregrino muçulmano), para Roma, romaria (peregrino católico), ou para conhecer, em El Salvador, a igreja onde Dom Romero foi assassinado. Os diferentes eventos, roteiros, destinos de viagem manifestam os pressupostos axiológicos e ideológicos diferentes contidos na escolha dos sujeitos que viajam.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Opção pelos Pobres e Teologia da Libertação nas Relações Internacionais

Na fila do banco conversei com uma senhora, faxineira. Trabalha tantas horas por dia, sustenta tantos filhos, não tem marido, nem seus filhos têm pai. Fiz o que tinha de fazer no banco e, voltando para casa, pensei: “A sociologia não tem sentido se não for uma sociologia para superar a exclusão social, ou, ao menos, para diminuí-la, e muito”.

A direita católica, conservadora, não gostava da expressão, mas ela continua atual: Opção Preferencial pelos Pobres. O amor universal começa pelos pobres e neles encontra sua preferência. Opção Preferencial pelos Pobres. Uma teologia que tenha nesse amor seu lugar central de reflexão. Uma teologia que tenha nas práticas desse amor seu lugar central de reflexão. Afinal, Deus gosta de quem ama o irmão abandonado.

Os pobres ensinam que a luta inteligente, organizada contra a exclusão continua viva dentro e fora das fronteiras nacionais. Na ciência das Relações Internacionais, Opção Preferencial pelos Pobres implica, sobretudo, orientar os estudos, as pesquisas para a compreensão da (des) igualdade entre os Estados, optando pelo trabalho intelectual e por outras ações voltadas para a superação da exclusão dos Estados que “não contam”, segundo a ótica dos países que tratam o mundo como se fosse quintal da casa deles.

No âmbito internacional, Opção Preferencial pelos Pobres significa optar pelo Sul (político, econômico, e não apenas geográfico) do mundo como lugar a partir do qual as mudanças devem ser compreendidas e atuadas. Lutar pela igualdade entre os Estados compreendendo as razões de tal desigualdade. Trabalhar por uma integração internacional que seja inclusiva, paritária, em vez de subordinacionista, exclusiva. Superar a pseudointegração internacional colonialista e neocolonialista.

Passados os anos do calorão sectário do final da guerra fria, onde vigorou a publicidade liberal e neoliberal contra os valores da esquerda nacional e internacional, leiga e cristã, agora que a poeira reacionária começa a baixar, cabe retomar o que continua atual. Os problemas gerados pelo capitalismo continuam atuais. Os meios hermenêuticos de luta pela transformação intra e internacional continuam válidos, assim como a sensibilidade e ação em relação às vítimas do sistema, os pobres, excluídos, os Estados esquecidos depois de serem saqueados pelo colonialismo.

A hermenêutica cognitiva e axiológica da Teologia da Libertação e da Opção pelos Pobres continua atual porque os fenômenos de exclusão organizada, nacional e internacional, continuam vivos na sua dramaticidade. Opção pelos Pobres e Teologia da Libertação nas relações nacionais de exclusão e nas relações internacionais de exclusão. Teologia política da libertação a partir do sul do mundo. Todos os Estados são Estados dignos, com seres humanos dignos.

Ora, um cristão não deveria ficar fora desse amor político, local e internacional, desse amor mundi, dessa luta pela igualdade intra e internacional que privilegia a ótica austral na luta contra a exclusão internacional. Um cristão deveria preferir os Estados mais pobres, excluídos, inspirado na Trindade, onde não existe subordinacionismo, mas integração paritária, inclusiva, unidade na distinção entre sujeitos de igual valor.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Médicos e equipamentos

Muito tempo faz, fui namorado de uma dentista por quase um ano. Como não residíamos na mesma cidade nem no mesmo estado, durante o ano de namoro passava alguns dias em sua casa, com seus pais, irmãos. Durante a semana, ela trabalhava no seu consultório, privado, e atendia algumas vezes, também, num consultório da prefeitura.

Voltava feliz de seu consultório e voltava chorando do consultório da prefeitura porque, dizia, não havia equipamentos, materiais. Depois da terceira vez que chorou, sugeri-lhe que fosse à prefeitura reivindicar material. “Mas eu sou dentista, não sou política”, respondeu-me. Ora, aqui estava e está um problema no problema. Muitos profissionais da área da saúde estudam de forma apenas técnica, preparando-se apenas para a execução de tarefas e não para a preparação das condições aptas à execução de tarefas.

Nesse debate entre médicos e equipamentos, se precisamos de médicos no interior ou de equipamentos no interior é lógico que responderemos que precisamos dos dois. Mas se tivermos de escolher por onde começar eu digo que estou entre os que afirmam que precisamos começar pelos médicos com sentido de gestão pública da saúde. O médico gestor público da saúde é aquele movido pelo objetivo de construir estruturas de saúde pública. Em tal construção ele já está sendo médico, já está tratando da saúde pública, pela pressão política, pela organização popular, pela articulação entre município, estado e união.

Melhor seria que tudo já estivesse pronto, mas o Brasil é um país em construção. Então, na construção das estruturas de saúde pública lá onde elas ainda não existem, não serão os engenheiros os artífices dessa construção, mas os profissionais da saúde. São eles que entendem de estruturas e equipamentos de saúde pública. É desse tipo de médico intelectual orgânico que o Brasil precisa. Sobretudo o Brasil do interior.

Um amigo médico, já de idade avançada, pediatra, contou-me que o que havia de estrutura de saúde em sua cidade fora construção dele e outros médicos pioneiros na região. Agora, a região é excelente em termos de estrutura médica, e os novos médicos querem atuar lá. O Brasil, porém, ainda precisa de pioneiros, é um país onde há muitas comunidades sem o mínimo de estrutura de saúde, também nas regiões de fronteira, sobretudo no norte, onde a presença de médicos é aquela dos amigos e amigas militares, que atuam nos PEFs, nossos sete Pelotões Especiais de Fronteira (fronteiras na Amazônia).

O Brasil é um país em construção cuja população precisa de médicos “políticos” no sentido cidadão da palavra. Nesse sentido, os cursos de medicina das universidades federais deveriam ser revistos em seus objetivos, orientados para o deslocamento dos egressos pelo território nacional segundo as necessidades do povo brasileiro e não segundo os comandos de mercado e o desejo de consumo de egressos cujos anos de estudos foram pagos pelo povo brasileiro que agora precisa deles.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cheiro de alecrim

A casa estava com cheiro de alecrim. Batatas ao forno com alecrim e óleo de oliva. Lembrei-me dos anos vividos na Itália, lembrei de Loppiano, Toscana, onde procuramos trocar o isolamento pela comunidade. Alecrim tem cheiro de família alargada, comunidade, diferente da família filosoficamente burguesa, fechada, sufocada no solipsismo.

Ultimamente, temos aberto mais as portas de nossa casa para os amigos e amigas. Comunidade família. Inventamos de cantar, fazer um coral. Cantamos, ensaiamos em casa, cantamos juntos. Abrir a casa para quem está longe de sua casa... Bom para quem chega e mais ainda para quem recebe.
Em julho passamos uma semana na casa de um casal de amigos em Santa Catarina. Na cidade de Tubarão, Miguel e Erly, gente de casa aberta e mesa posta para os amigos e amigas. Café passado todas as tardes. Café de uma família alargada que muito mais do que de sangue é de coração.

Café passado, alecrim com batatas no forno. Água, vinho, óleo de oliva, pão fresco assado para os amigos e amigas. Família alargada, liberada das barreiras de sangue, sem as barreiras entre as gerações.
No início do mês, tive minha primeira conversa de igual para igual com minha filha mais nova. Diferença de 36 anos entre nós, mas somos todos iguais, de igual valor. “Puxa, ela cresceu e eu nem me dei conta”, pensei feliz da vida enquanto ela apontava, com amor e sinceridade, alguns entre os meus defeitos a serem corrigidos na relação com ela. As possibilidades de mudança nos são dadas pelos outros, e ai de nós se desperdiçamos essas preciosas ocasiões. Na maioria das vezes, fui eu quem disse como ela deveria fazer. Agora, pela primeira vez, ela me tratou como se fosse meu pai e eu me comportei como se fosse seu filho. Acolhi suas boas observações, sugestões, decidi me emendar, como faz um filho quando escuta seu pai.
O bom de viver uma relação de igualdade, pelo diálogo sincero, também com os filhos menores, é que a autoridade, em vez de enfraquecida sai fortalecida... A autoridade do amor, a única que merece ser obedecida.


Tenho perdido algumas certezas, não pelo mero passar dos anos. Calendário não é livro de sabedoria e idade não é virtude. Não troquei, porém, certezas por dúvidas. Ando meio assim, sem certezas e sem dúvidas. Troquei certezas pela confiança em quem consegue nos ver melhor, os amigos e amigas. Continuo sendo como sou, desconfiado. Mas um desconfiando confiante. Apesar dos tantos e evidentes males que vejo, que me fazem ser um sociólogo desencantado, confio sempre mais no que podemos chamar de força cósmica do bem. Para participar dessa confiança, basta, para isso, jogar-se nessa corrente do bem que perpassa nossas vidas. Fazer como fez Marlin, o peixinho pai do Nemo que encontrou o seu filhinho jogando-se e deixando-se levar pela corrente cósmica intrafísica do bem, da unidade (na diversidade) que já somos e à qual somos destinados a ser.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

19 de agosto de 2013

A data de hoje é muito importante para mim, por dois motivos.
Há 10 anos, em 19 de agosto de 2003, Sérgio Vieira de Mello viveu seu martírio leigo em Bagdá, Iraque, vítima de um atentado contra a sede da ONU. Ele foi funcionário da Organização das Nações Unidas durante 34 anos e Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos desde 2002.

No título de seu livro sobre Sérgio, “O homem que queria salvar o mundo”, Samantha Power resume sua vida dedicada ao amor mundi. Participou de várias missões complexas, em regiões de graves conflitos. Viveu de forma leiga a parábola do Bom Samaritano, procurando cuidar das feridas desse mundo, agredido, assaltado aqui e ali. Um brasileiro, carioca, que admiro muito...

19 de agosto é também data do primeiro aniversário de minha decisão, tomada em 19 de agosto de 2012, motivada pela ajuda de amigos e amigas, de abandonar a crença política na força da violência e viver radicalmente o amor como método de busca da verdade e de realização da justiça, sobretudo, em situações de conflito. 
Nesse primeiro ano, algumas quedas, vários recomeços, mas em nenhum momento diminuiu a convicção de que se trata de uma decisão sábia, cuja sabedoria não veio de mim, mas da colaboração de amigos e amigas por meio dos quais a Sabedoria se revelou.

sábado, 3 de agosto de 2013

Marco de fronteira (Brasil Uruguai)

É muito mais que um marco
É símbolo quase sagrado
Da unidade na diversidade
Na catedral da fronteira

domingo, 7 de julho de 2013

Nas praças da vida e do Face

Nas praças da vida e do Face
Uns são contra o ato médico, outros são a favor.
Uns são contra o estatuto do nascituro, outros são a favor.
Uns são contra a Dilma e o Lula, outros são a favor.
Uns são contra a Unasul, outros são a favor.
Uns são contra as manifestações de rua, outros são a favor.

Ser contra ou a favor é normal.
Acontece que as polêmicas se acalmam...
Com o tempo, pouco tempo
Os conflitos da vida e do Face se acalmam...
A polêmica de ontem, que prometia ser longa,
Também já se acalmou...
Depois ela volta, e de novo se acalma...
Passada a polêmica,
Agora na calma,
Pode ficar a vergonha, pelas amizades desfeitas.
Um motivo a mais para já ir vivendo na calma
A nova polêmica de hoje
Que amanhã também se acalmará.

Opinar com calma,
Pela constatação de que o debate quente de hoje
Será água morna ou fria amanhã
Na nova agenda dos fatos, polêmicos como sempre.

Desapegar-se dos valores contidos nos fatos
Para entendê-los melhor...
Regra antiga, do velho e sábio Émile Durkheim.
Regra de 1895 (As regras do método sociológico)
Regra antiga e sempre atual
Também nesses nossos dias de Face...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Macho que é macho...

“Macho que é macho” faz isso ou não faz aquilo Cresci ouvindo isso. Coisa de gaúcho? No nordeste, meus amigos de lá usam a expressão “cabra macho”.

“Macho que é macho protege a fêmea, a prole e o território”. Isso deve ter entrado em mim, ou sempre esteve lá dentro, pois toda vez que alguma ameaça real ou imaginária rondava minha esposa, eu rosnava, mostrava os dentes. Com as filhas, o mesmo. Com o território, também. “Macho que é macho” e lá estava eu rosnando e, algumas vezes, mordendo mesmo, sem o consentimento de esposa e filhas. Esse dever de garantir a segurança da fêmea, prole e território está no pacote do “macho que é macho”.

Ano passado, quando estava estudando inglês na costa índica da África do Sul, perto de Durban, sem minhas filhas e a esposa, enquanto fazia minha caminhada diária acompanhada da oração do Rosário, experimentei um convite interior a mudar de vida: “Livra-te desse sentimento de proteção. Você não é capaz nem de se proteger, quanto mais de proteger esposa e filhas. Deixa que elas se protejam, e me deixa proteger vocês”.

Foi um momento forte para mim de oração, com marcadas consequências em minha vida psicológica, familiar, política, social. Pequena nota sobre a oração. Santa Teresa afirmou que Deus vive em nós. Ou seja, Deus está no céu, mas está em nós. Eu penso no vulcão: sua irrupção prova que há fogo no centro da terra. Da mesma forma, alguns momentos particulares de oração são como a irrupção do Deus que vive dentro de nós em forma de comunicação forte de amor.

Bueno, naquela tarde, a irrupção deu um chute no pau da barraca do “macho que é macho”. Chega de asfixiar com esse desejo de proteção, primo-irmão do maldito sentimento de posse, inimigo mortal do amor, inimigo mortal da liberdade. Confiar, então, na proteção de Deus.

Quase um ano depois, lá estava eu caminhando de novo, agora no mar verde do pampa, perto de Livramento, quando outra pequena irrupção aconteceu. Em resumo, entendi que a ideia do “macho que é macho”, na expressão dessas três proteções: fêmea (desculpem a linguagem primitiva, mas o macho que é macho é primitivo mesmo), prole e território, esconde uma virtude.

Homem que é homem deve assumir suas responsabilidades com a família, esposa e filhas, com o trabalho, território. Isso é coisa boa e justa. Homem que não assume suas responsabilidades não é homem. É menos que verme quem não paga nem os alimentos aos filhos. Assumir suas responsabilidades é coisa de homem. Dessa vez, o que a “irrupção” (pequena revelação desde baixo) me disse foi outra coisa, completando a anterior: “Não basta ser homem, é preciso aprender a ser cristão”. Assumir responsabilidades, e desapegar-se delas. Desapegar-se da esposa, filhas, território. Desapegar-se para seguir com exclusividade o Deus da irrupção, confiando em sua proteção. Deixar de ser marido e pai para ser amigo e companheiro de viagem nessa relação que agora é muito mais de igualdade, liberdade e fraternidade do que de posse. Desapegar-se dos próprios territórios para viajar pelos territórios de Deus.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Militancia fronteriza - Del Mercosur al Pueblosur

Publicado en Ciudad Nueva – Uruguay-Paraguay – Junio 2013, p.04


La población en las ciudades fronterizas vivió durante años abandonada por sus Estados. La frontera era el lugar de la marginalidad nacional, y los gobiernos se preocupaban por las ciudades del litoral y por los centros urbanos centrales.

Aquí, en la frontera entre Brasil y Uruguay, la gente, olvidada por sus gobiernos centrales, fue creciendo en el camino de la integración real, de hecho, la integración para la supervivencia, identificando las ventajas y desventajas de este y de aquel lado de la frontera de acuerdo a las crisis políticas y económicas del “lado de allá” y del “lado de acá”.
Integración de necesidades e intereses: comprar acá para utilizar allá, o comprar allá para usar o vender acá, era una forma de supervivencia económica de estas dos poblaciones que crecieron juntas, con diferentes identidades nacionales, pero en un mismo círculo real de identidad compartida, binacional, fronteriza.

Hoy en día, la “cabeza ideológica” de los Estados está cambiando en relación a las fronteras. El mundo bipolar terminó, y en esta etapa multipolar de nuestra historia internacional, algunos Estados se van agrupando. Los gobiernos de Brasil y Uruguay están dejando de ver las fronteras como espacios de separación territorial, de división nacional, y comienzan a verlas como posibilidades privilegiadas de cualificación de la integración.
Las ciudades fronterizas de Brasil y Uruguay ya son integracionistas, desde hace décadas. Antes de que los Estados descubrieran la integración, en estas ciudades se vivía la integración de hecho. Integración del pueblo, sin el apoyo de los Estados.

Ahora que los Estados “despiertan” a la integración, podrían hacer más por las poblaciones de la frontera, que todavía viven presas de los obstáculos jurídicos que impiden la cooperación de municipios e intendencias binacionales en las áreas de salud, educación, transporte, seguridad, cultura, asistencia social, ya que las leyes están hechas para los que viven en las ciudades centrales y no para los que viven en ciudades integradas y binacionales de la frontera.

La paradoja de la integración regional es que la gente necesita una herramienta para la integración, pero no la tiene, y los gobiernos gastan en una estructura que debería ser integradora y no lo es. El problema del Mercosur es que comenzó por el lado equivocado de la integración: por el mercado de las grandes empresas. No inició ni por el pueblo ni por el mercado del pueblo, sino por el gran mercado. En lugar de comenzar por ser un Pueblosur o Povosul, tuvo ese mal comienzo, enfocado en el mercado de las grandes empresas. El pueblo precisa un instrumento al menos binacional de integración, y no lo tiene, porque el Mercosur está lejos de la frontera, no sólo desde el punto de vista físico, sino también político.

Así como el pueblo de las ciudades de la frontera Brasil-Uruguay, yo también soy integracionista, al estilo fronterizo: integración de hecho, material y no mera metafísica de la integración. Militancia fronteriza también significa apoyar, ser “hincha” y trabajar para que un día podamos tener instrumentos útiles de integración regional, enfocados en los problemas reales de la gente. Podríamos quizás comenzar por ocupar la sede del Mercosur y cambiar su nombre y su identidad en Pueblosur o Povosul.

Fábio Régio Bento*
* El autor es sociólogo e investigador en la Universidade do Pampa en Santana do Livramento (Rio Grande do Sur, Brasil).

domingo, 26 de maio de 2013

Há luz no fim do túnel

Ficar sem rumo,
Como se o horizonte tivesse caído
Ficar sem uma utopia, mesmo pequena
Ficar sem esperança, coletiva...
Crise política, espiritual.

Vai-se caminhando, aos poucos
Não parar...
Não tentar achar consolo onde não há
O consumo não é consolo
Continuar caminhando

A turbulência interior fortalece a esperança
Amadurece, fortalece
Passar pelo caminho do medo, do vazio

Depois, as luzes voltam
A luz expulsa o medo
A força dá coragem ao medroso
O rumo volta, melhor
O horizonte se mostra luminoso

O caminho se faz alegre
De alegria sóbria, focada no rumo
Focada em quem sustenta a esperança
Que não decepciona
Focada no céu
Que é quem sustenta a terra.

domingo, 19 de maio de 2013

Viajar

Melhor que ter uma casa
É ter uma mala
Viajar, conhecer outras pessoas, outros lugares
Rever outras pessoas, outros lugares
A única forma de consumo que me atrai
É viajar
Carro, TV, celular, computador?
Não vejo poesia neles
São apenas eletrodomésticos
Não despertam sonhos
Viajar é o que mais me realiza
Pois viajar é o que mais manifesta aqui
A vida futura, dali

O céu é feito de encontros e reencontros
Entre uma infinidade de pessoas diferentes
Uma infinidade de lugares diferentes
O infinito que se encontra sem parar
Com solenidade em cada encontro
Isso é o céu, a vida futura da Trindade
Na Trindade

Melhor que ter uma casa
É ter uma mala

No céu não há tédio
Porque não há obstáculos aos encontros
Aqui, se chove, se não temos dinheiro,
Se não temos tempo, não nos encontramos
E não encontrar-se, reencontrar-se, é o inferno.
“Mas na família nos vemos sempre, dentro de casa”
Quem pensa assim se confunde
Família fechada é família burguesa
Família boa é a que viaja junto
Movimenta-se, encontra-se, reencontra-se
Família aberta ao mundo,
Em vez de tentar fechar o mundo
No seu mini mundinho.

Por isso, melhor que ter uma casa
É ter uma mala, e uma casa, de pouso, pousada
Para guardar a mala
Na sala.

domingo, 12 de maio de 2013

Militância fronteiriça – do MERCOSUL ao POVOSUL

As populações das cidades de fronteira viveram por anos abandonadas pelos seus Estados, quando fronteira era o lugar da marginalidade nacional, e os Estados se preocupavam com as cidades do litoral e as dos seus miolos, centrais.

Aqui na fronteira Brasil-Uruguai, as populações, esquecidas por seus governos, foram crescendo pelo caminho da integração de fato, integração para a sobrevivência, identificando vantagens e desvantagens nesse e naquele lado da fronteira de acordo com as crises políticas e econômicas do lado de lá e do lado de cá.

Integração de necessidades e interesses: comprar aqui para usar ali, ou comprar ali para usar ou vender aqui, foi uma forma de sobrevivência econômica desses dois povos que cresceram juntos, com identidades nacionais diferentes, mas em um mesmo círculo real de identidade compartilhada, binacional, fronteiriça.

Hoje, a “cabeça ideológica” dos Estados está mudando em relação às fronteiras. O mundo bipolar terminou e, nessa etapa multipolar de nossa história internacional, alguns Estados vão se agrupando nesse cenário multipolar. Governos de Brasil e Uruguai vão deixando de ver as fronteiras como lugares de separação territorial, de divisão nacional, passando a vê-las como possibilidade privilegiada de qualificação da integração.

As cidades de fronteira do Brasil e Uruguai já são integracionistas há décadas. Antes dos Estados descobrirem a integração, nas cidades de fronteira do Brasil e Uruguai já se vivia a integração de fato. Integração de povo, sem apoio dos Estados.

Agora, porém, que os Estados “despertaram” para a integração, eles poderiam fazer mais pelo povo fronteiriço, que ainda vive preso aos gargalos jurídicos que impedem a colaboração de municípios e intendências binacionais nas áreas da saúde, educação, transporte, segurança, cultura, assistência social, já que as leis são feitas para quem vive no miolo dos Estados e não para os que vivem em cidades integradas, binacionais de fronteira.

O paradoxo da integração regional é que as populações precisam de um instrumento de integração, mas não o têm, e os Estados gastam com uma estrutura que deveria ser integradora, e não o é. O problema do MERCOSUL é que ele começou pelo lado errado da integração, pelo mercado das grandes empresas. Não começou nem pelo povo nem pelo mercado do povo, mas pelo mercado dos grandes. Em vez de um POVOSUL, ou PUEBLOSUR, tivemos esse início errado, focado no mercado para grandes empresas. O povo precisa de um instrumento ao menos binacional de integração, e não o tem, já que o MERCOSUL está distante da fronteira não somente do ponto de vista físico, mas político.

Assim como o povo fronteiriço das cidades da fronteira Brasil e Uruguai, também sou integracionista, no estilo da fronteira: integração de fato, material, e não mera metafísica da integração. Militância fronteiriça significa também torcer e trabalhar para que um dia possamos ter um instrumento útil de integração regional, focado nos problemas reais dos povos, quem sabe ocupando a sede do MERCOSUL e mudando seu nome e sua identidade para POVOSUL, ou PUEBLOSUR.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Descendo para o sucesso



Humildade, criatividade
Olhar para baixo, a própria terra, húmus
Fazer algo de bom com ela
Como o João-De-Barro que, bicando no chão
Fez sua casa de terra,
Bela

domingo, 21 de abril de 2013

Família, amigos, ideologia

Família está acima de ideologia.
É bom manter o respeito, a calma
Debates políticos passam
O chimarrão com a família continua

O mundo é um lugar polêmico, contraditório.
Não ser polêmico não significa fugir da polêmica do mundo
Mas entrar nela com respeito pelo adversário.
Ainda mais quando ele for teu amigo, ou parente.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Chimarrão, meditação

Quando nos damos conta estamos correndo, debatendo, opinando e atropelando o tempo, as pessoas, nós mesmos. Viver engajado na vida, com nossas ideias sobre o presente, o futuro e o passado político do mundo, mas sem atropelar o tempo, o amor.

Chega um momento em que paro, com o chimarrão, em meditação, e volto ao amor. “Te acalma tchê, não atropela o tempo”, comanda minha consciência. Estico as pernas, olho para as coisas que amo e para as que não amo... A água desce lentamente na cuia e forma a espuma quente, verde do chimarrão. Olho para ela e me acalmo, rindo da hipocrisia política do mundo, rindo de minha pressa inútil. Volto, então, a viver engajado no tempo, na militância eterna do vento.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Bruno Brunello

Bruno Brunello, grande ser humano que tive o prazer de conhecer, um mestre, mestre em educação, humanismo, políticas públicas. Homem competente, dedicado, sério no trabalho e um doce de pessoa nas suas relações. Vou procurar seguir algumas de suas tantas lições. Para ele, turismo não é mera "válvula de escape" pequeno-burguesa, mas um instrumento de transformação social. 
O turismo tem uma função política, transformadora da realidade, deve ser orientado para a qualificação dos jovens, dos pobres, da sociedade. Orientado para a diminuição das desigualdades sociais, para a diminuição da pobreza. Em sua biblioteca, na Itália, livros de autores católicos, e as obras completas de Marx e Lênin.
Morreu no final de fevereiro, na Itália. Ultimamente sentia sua doce presença, forte, bela, ao meu lado. Hoje um amigo me disse que ele faleceu há menos de dois meses. Bruno continua agora vivo na Cidade de Deus, e sua luz permanece indicando o trabalho social como caminho de amor político que, por ser amor verdadeiro pelos pobres, pelos excluídos, é amor eterno.

domingo, 7 de abril de 2013

Revisão de vida

A minha chegou entre os 49 e 50
Trocar a grosseria pelo respeito
Trocar a crença na própria força pelo reconhecimento da própria fragilidade
Trocar o excesso de projetos, de desejos políticos, pela humildade,
Pequenas coisas, deixar de ser escravo das próprias ambições altruístas.
O meu esgotamento é político,
Excesso de desejos,
De melhorar muitas coisas
Por meio do que pesquiso e publico

Excesso de desejos, projetos, frustrações
Trocar, então o verbo desejar
Pelo verbo amar, nas pequenas coisas
Depois dos 50, voltar a ser menino
Para viver, ou mesmo sobreviver...

sábado, 6 de abril de 2013

Fiz 50

Fiz 50 e não fiz nada, ou pouco
Trabalhei numa favela, por anos
Voltei à favela, que continua favela
Li muito,
Escrevi muito, mas não escrevi nada
Nada de relevante.
Não fiz uma revolução, como queria
Nem armada nem a do amor

Fiz 50, e não fiz nada, ou pouco
Duas filhas, lindas
Cresceram bem, estão crescendo bem
Com minha esposa vai bem
Desde o ano passado, melhor ainda
A felicidade não está no alto
Está aqui, no baixo
A felicidade não está no alto
Está embaixo, aqui no baixo
Nos meus pés, lava-pés
A felicidade está na casca da laranja
Na casca da banana
Não sou famoso não tenho sucesso
Nunca saí em rede nacional, nem estadual
No ônibus, ninguém sabia quem sou.
Não fiz nada nem acho que vou fazer
Vou ser assim, como sou, nada
Bonito, porém, como a casca da laranja
Que meus amigos comeram.

Em comum com os grandes homens
Terei a morte
Getúlio Vargas, morreu
Prestes, morreu
Gumercindo Saraiva, morreu
Che, morreu
Gramsci, morreu
Garibaldi, morreu
Neruda, morreu
Gardel, morreu
Em comum com os grandes homens
Terei a morte, a última viagem
Sem conhecer o avião
Nem a aeromoça
Sem conhecer a comida da viagem
Sem saber aonde chegarei
Se chegarei
O céu não é para mim
Na melhor sorte, ficarei para sempre esquecido
Como já vivo agora
Esquecido de mim mesmo, melhor
Descobrindo a vida, no baixo
Vou ser assim, como sou, nada
Bonito, porém, como a casca da laranja
Que meus amigos comeram.

terça-feira, 26 de março de 2013

Em Pelotas, empurrado pelo vento

Nasci em Piratini em 1963, mas meu segundo nascimento foi em Pelotas. Não lembro o dia, mas foi em abril de 1980, Rua Professor Araújo. Numa tarde daquele abril, escutava música e faltou luz. Fui pegar um livro. Abri um Novo testamento que ganhara no Colégio Gonzaga, onde estudava. Fazia anos que ele estava lá em casa. Levantar da poltrona e abrir esse livro marcou um antes e depois em minha vida.
Minha relação com a religião não era boa, ou ao menos com as aulas de religião. De fato, eu fora dispensado das aulas de religião fazia quase dois anos. Aos 17 anos eu me perguntava sobre o sentido da vida, como tantos dos meus amigos e amigas. Queria estudar oceanologia. No início da tarde comecei a ler o livro. Em uma semana li e reli o Novo Testamento. Li um livro, mas fiquei com a impressão de ter sido lido por ele. Gostei da figura de Jesus, sempre pelas ruas, com lições de amor e humildade. Gostei do que li, mas gostei muito mais do que vi e senti. As coisas que antes eram opacas passaram a ter brilho. Tudo brilhava mais, até mesmo quando eu fechava os olhos. Senti paz, alegria. Comecei a entrar em conexão com outros sentimentos, pela meditação. Nem sabia que estava fazendo meditação. Nem sabia com que mundo eu me comunicava, pelo coração, quando fechava os olhos. Mas percebi que há mais vida do que a vida antes e depois da certidão de nascimento e óbito. Saía do tempo e entrava em outro tempo, um tempo sem tempo, mesmo estando no tempo. Comecei a me relacionar com o vento que me amava, soprando dentro de mim, que me dava alegria, paz, vontade de viver, lutar. Depois, chamei esse vento de Deus, amor, pai, amigo.
Em vez de oceanologia, resolvi estudar direito. Em março de 1981 ingressei no curso de direito da Universidade Federal de Pelotas. O vento de amor que descobri dentro de mim, mas que era muito maior do que o meu pobre eu, sugeria sempre que eu devia amar: amar os pobres, amar a todos. Nem sempre eu amava, pois tinha me acostumado a odiar, e até hoje estou aprendendo a amar, mas nestes 33 anos de segundo nascimento nunca perdi minha relação com o vento vivo de amor que sopra fora e dentro de nós, também de mim. Um vento que atravessa os dois mundos, o daqui e o eterno, de lá, com o qual entramos em contato mesmo estando aqui. Empurrado pelos carinhos do vento, tornei-me católico. Já o era por tradição, mas tornei-me, então, por convicção. Crismado por opção. Empurrado pelo vento fui aprendendo a amar as pessoas de todas as religiões, inclusive os ateus.
Em março de 1981, descobri a política, uma forma de amor pelos pobres. Ingressei no movimento estudantil, feliz. No final de março de 1981, depois da aula, voltando para casa entrei na capelinha do Abrigo dos Velhinhos. Oração, paixão. Consagrei-me a Deus. Nem sabia o que era isso, mas entreguei-me ao vento que me amava. Oração, paixão, decisão.
Certa vez, voltando de Brasília, sentou ao meu lado, no avião, um político que lera meu primeiro livro (Igreja Católica e Socialdemocracia. São Paulo: AM, 1999). “Não consigo entender como uma pessoa inteligente como você possa ser católico”, ele disse. Bem, não sou assim inteligente, mas não é por isso que sou católico. Acredito no que acredito por causa do vento. Confio nele, gosto dele e não pretendo deixar de ser empurrado por seu sopro de amor, por toda a vida até poder deitar um dia para sempre, espero, no colinho do vento.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Povo, poder e meios de telecomunicação




“Lá em Cuba e na Venezuela não há liberdade de expressão”, dizia um telejornalista. E aqui? No Brasil, se um telejornalista da TV X falar mal dela, está na rua. Se falar mal do político que o dono da TV X apoia, também está na rua. Mesmo assim, eles dizem que o Brasil é o paraíso da liberdade de expressão.
No Brasil, há liberdade de discordar publicamente de todas as ideias, exceto das de quem paga teu salário de telejornalista. O mesmo vale para o telejornalismo de política internacional: o telejornalista opina de acordo com a cartilha ideológica adotada pelo dono da TV. Sendo o dono da TV X contra a política de integração sul-americana, para citar um exemplo, o telejornalista convidará para debater isso na TV X somente os professores de relações internacionais alinhados contra os governos de esquerda da América do Sul. Ou seja, o que existe é liberdade de concordar com o dono da TV e seus aliados ou procurar emprego noutro lugar.
Numa democracia que queira ser popular, o mais importante não é a liberdade de expressão do dono da TV X, mas a soberania popular. Bem-estar para o povo, para a maioria do povo, é o centro da democracia e não essa demagógica ideia de liberdade de manipular que o dono da TV X e suas mentes telejornalistas de aluguel chamam de liberdade de expressão, demagogia maquiada de liberdade com a ajuda de seus profissionais do marketing.
Telejornais e televisões são grupos de interesse, lobbies que atuam de forma organizada em favor de alguns partidos, contra outros, no âmbito nacional e internacional.
Hoje, os socialistas não falam mais de tomada das fábricas. Até o Partido Comunista Chinês entendeu que a burguesia é melhor na gestão de fábricas. Socialismo de mercado, socialismo com burguesia. O que deveria, porém, ocorrer é a tomada popular dos meios de comunicação. Popularização dos meios de comunicação, poder de comunicação para o povo soberano em vez de ser poder de manipulação dos donos da TV X e seus aliados nacionais e internacionais.
Teoricamente, tal poder é do povo. Na prática, porém, não o é. Para o povo, hoje, de fato, também em comunicação, sobrou somente carne de pescoço.
A socialização dos meios de comunicação, ou desconcentração popular da propriedade sobre os meios de comunicação, devolveria ao povo um poder que é dele e ajudaria a libertar os profissionais do jornalismo que concluem as faculdades de comunicação cheios de boa vontade, mas, depois, são obrigados a se prostituírem  ideologicamente para conseguir um emprego e continuar trabalhando.


Teocracia - soberania do amor

Estou entre os que não acreditam mais em alguns dogmas da democracia, nem em algumas dentre suas promessas. Falam mal desse ou daquele país como se a democracia liberal fosse um esplendor de cidadania. Apontam os erros dos outros com os dedos sujos de lama.

Qual a melhor forma de governo? A melhor forma de governo é a Teocracia trinitária, a soberania política da Trindade amor. Tal teocracia é a única forma pura de governo. O que nunca existiu nessa terra. A cristandade medieval católica não foi teocracia, mas eclesiocracia: governo de igreja. Ainda bem que nos livramos disso, para o bem da sociedade e da própria Igreja Católica. Não sou a favor de eclesiocracia católica, nem de eclesiocracia evangélica. De reis e rainhas, crentes ou leigos, eu acho graça.

Atualmente, os quatro poderes definham sob o calorão da vaidade, arrogância, contradição, corrupção: executivo, legislativo, judiciário, mais a ditadura sorridente dos que comandam os meios de comunicação. O povo é súdito nessa democracia. Ele vota, é verdade, mas entre uma eleição e outra é súdito da máquina burocrática decadente desta democracia liberal em crise.

Os cristãos costumam pensar na vida e na morte, na terra e no céu, na política daqui e na dali. Bem, no céu, governa a simplicidade de um cordeiro: “O meu reino não é desse mundo” (João 18,36). Na terra, a natureza e seus frutos são belos, também são belas as relações com os amigos e as amigas, bela é a diversidade cultural dos povos do mundo, já os dogmas e promessas traídas da democracia liberal...

O corrupto de hoje, no poder, já foi um ser humano pleno de boa vontade ontem, fora do poder. Precisaríamos atingir uma unidade universal da humanidade em torno da humildade coletiva: reconhecer nossa profunda limitação moral coletiva.

Enquanto céu e terra não se juntam sob o governo de amor de Deus, vamos atravessando esse vale de lágrimas, trabalhando como podemos para melhorar nossa sociedade, investindo na construção cotidiana de relações paritárias, de amor agápico entre pessoas e povos diferentes, torcendo para que consigamos encontrar uma forma política menos imperfeita de organização, focada realmente na soberania popular.

O passar do calendário prova que mais cedo ou mais tarde todos deixaremos as preocupações cotidianas. A esperança que não decepciona nos ensina que o bem triunfará também do ponto de vista da organização política. Tomara que possamos participar desse futuro perfeito, que é o sonho de muitos, também o meu.

terça-feira, 12 de março de 2013

Unasul - A construção política da América do Sul


Em junho de 1966, Henry Kissinger, dirigindo-se a um ministro chileno, afirmou: “Você vem falar sobre a América Latina, mas isto não tem importância. Nada importante pode vir do Sul. A história nunca foi escrita no Sul. O eixo da história começa em Moscou, passa por Bonn, chega a Washington e segue até Tóquio. O que acontece no Sul não tem a menor importância” (DABÈNE, p.187).

A América Central e do Sul funcionavam mais como lugares de produção de sobremesas (banana, cacau, açúcar, abacaxi) para a América do Norte, não se tratando de parceiros efetivos dos EUA no pan-americanismo da doutrina Monroe, mas de Estados instrumentais aos interesses dos EUA, também no âmbito dos conflitos da Guerra Fria. 

O pan-americanismo da OEA (1948), movido pela doutrina Monroe, segundo a qual “a América é para os americanos”, de fato indicava que a América deveria estar sob a hegemonia dos EUA. O slogan “América para os americanos” desenvolveu mais a supremacia dos EUA no continente do que o pan-americanismo. Para Olivier Dabène, “a OEA funcionou como correia de transmissão da hegemonia norte-americana” (A América Latina no século XX. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, p.137).

Na avaliação de Maria Izabel Mallmann, “mesmo quando houve alguma preocupação com o desenvolvimento latino-americano no âmbito das relações interamericanas, essa preocupação esteve ligada às prioridades de segurança dos Estados Unidos” (Democracia e diplomacia regional na América Latina. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008, p.52). O pan-americanismo dos EUA seria semelhante ao cosmopolitismo dos romanos: abertos ao mundo, mas por considerá-lo território de conquista, ou de projeção, e não de integração paritária, inclusiva, entre Estados diferentes, mas com igual valor, dignidade.

A América Meridional tem território compartilhado (Andes, Pampa, Amazônia, Atlântico, Pacífico, Caribe) e passado político semelhante: colonialismo; independência; descolonização parcial; descolonização plena. Povos e governos da América Meridional estão abandonando posições de subordinação, tornando-se protagonistas do presente, valorizando as tradições culturais dos povos sul-americanos, valorizando seus pensadores e universidades, e identificando novas possibilidades compartilhadas de desenvolvimento social.

Dentro deste caldo emancipatório vão sendo identificados também instrumentos mais adequados de integração regional, protagonizada por sujeitos estatais com certa afinidade de interesses e proximidade geográfica, realizando assim o sonho de 1905 de Manoel Bomfim, de uma América Meridional que se apresenta ao mundo de forma “vigorosa, moderna, senhora de si mesma, como quem está resolvida a viver, livre entre os livres” (A América Latina – males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005, p.351).


Unasul – Seu nascimento
A Unasul representa uma possibilidade de integração inclusiva, paritária, entre Estados sul-americanos que vão abandonando a posição de vagões e assumindo o papel de locomotivas de seus próprios desafios.
As etapas históricas anteriores à criação da Unasul são conhecidas: o Grupo do Rio, fórum de consultas políticas dos países latino-americanos, um mecanismo criado em 1986; a Constituição da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), em Cuzco, Peru, em dezembro de 2004, já com 12 Estados sul-americanos.

Segundo Marcos Gama, em 2005, “à margem da Cúpula do Mercosul, em Montevidéu, criou-se uma Comissão Estratégica de Reflexão sobre o Processo de Integração Sul-Americana”. Em 2006, tal comissão adotou, em Cochabamba (Bolívia), “um Plano Estratégico para o Aprofundamento da Integração Sul-Americana e uma estrutura baseada em reuniões anuais de Presidentes, reuniões semestrais de chanceleres, reuniões ministeriais setoriais, um Conselho de Delegados e uma Secretaria Pro Tempore”. No ano seguinte, em abril de 2007, durante a I Cúpula Energética Sul-Americana, na Ilha de Margarita, na Venezuela, “acordou-se no diálogo político entre os Presidentes que o processo de integração regional passaria a denominar-se União de Nações Sul-Americanas, ou Unasul” (O Conselho de Defesa Sul-Americano e sua instrumentalidade. In: JOBIM, Nelson; ETCHEGOYEN, Sergio; ALSINA, João Paulo (Orgs.). Segurança internacional – Perspectivas brasileiras. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p.346-347).

O Tratado Constitutivo da Unasul foi firmado pelos Chefes de Estado e de Governo dos doze Estados membros durante a Cúpula Extraordinária de Brasília, em 23 de maio de 2008. O Tratado define como objetivo geral o de “construir, de maneira participativa e consensuada, um espaço de integração e união no âmbito cultural, social, econômica e política entre seus povos, priorizando o diálogo político, as políticas sociais, a educação, a energia, a infraestrutura, o financiamento e o meio ambiente, entre outros, com vistas a eliminar a desigualdade socioeconômica, alcançar a inclusão social e a participação cidadã, fortalecer a democracia e reduzir as assimetrias no marco do fortalecimento da soberania e independência dos Estados” (art. 2º).

No âmbito da Unasul, após quatro reuniões realizadas em Santiago, Chile, um grupo de trabalho coordenado pelo Chile elaborou um projeto de Estatuto do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). A aprovação do Estatuto do CDS ocorreu na Cúpula Extraordinária da Unasul, na Costa do Sauípe (Brasil), em 16 de dezembro de 2008.


Unasul – Diálogo Sul-Sul
Unasul e Mercosul são instrumentos de participação internacional pela integração regional. Como resumiu Celso Amorim, ex Ministro das Relações Exteriores do Brasil, “em política externa, demonstramos que a solidariedade pode reforçar o interesse nacional, e que o Sul pode ter um papel construtivo e indispensável na formatação da ordem multipolar” (Austral: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais. Porto Alegre: v.1, n.1, Jan/Jun 2012, p.12).

A opção pelas relações Sul-Sul, ou prospectiva austral, “não ocorreu de forma suave ou sem contestação. Como toda quebra de paradigma, a ruptura com ideias preconcebidas provocou polêmica e gerou críticas”, completou Amorim (Ibidem, p.12).

O Sul não é somente uma dimensão geográfica, mas, também, política. Unasul, Mercosul, IBAS, BRICS são experiências de integração diferentes da globalização neoliberal.
Para o internacionalista Paulo Visentini, o objetivo da prospectiva austral “não é formar uma aristocracia dos emergentes, nem se tornar um grupo de oposição a uma ideia, a um país ou a um grupo de países, mas sim dar voz e poder aos países mais pobres, de modo a refletir a nova realidade do cenário internacional e o anacronismo de algumas estruturas do sistema multilateral” (As relações diplomáticas da Ásia. Articulações regionais e afirmação mundial - uma perspectiva brasileira. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012, p.257).

Em suma, trata-se da tentativa de construção de um sistema de integração inclusivo e paritário, formado por Estados que abandonam a posição de vagões de velhas potências, para tornarem-se locomotivas ao lado de outras locomotivas na construção de uma nova ordem internacional multilateral. 

A recente suspensão do governo do Paraguai pelo Mercosul e Unasul, até que se façam novas eleições presidenciais,  após o impeachment relâmpago contra Lugo, interpretado como golpe parlamentar, poderá enfraquecer a integração regional, segundo alguns analistas, mas poderá, também, promover a sua qualificação, o que dependerá, sobretudo, da ação profissional dos diplomatas integracionistas empenhados no processo de integração inclusiva e paritária dos Estados sul-americanos.
*Escrito em 2012.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Discordar amando



Opinar é bom, mas mantendo o respeito por quem pensa diferente. Há os que odeiam Fidel Castro, e os que odeiam os que o odeiam. O mesmo vale para o Che, para a blogueira cubana, para o Chávez, para o FHC, para o Lula, para o Vaticano: uns amam, outros odeiam, outros odeiam os que odeiam. Ora, assim como há regras para o uso do celular, sugeridas pelo bom senso, deveria haver regras para o como opinar, por exemplo, em redes sociais.

O objetivo seria compartilhar isso e aquilo entre amigos, sem degenerar em palanque de ódios. Ser contra ou a favor é normal, a patologia da coisa se manifesta no como se é contra ou a favor, conversando ou quebrando todos os pratos do armário, como se todos fossem obrigados a ter as mesmas ideias e sentimentos.

Tenho procurado me controlar e, graças a Deus e aos amigos, não tenho caído na tentação de responder ao ódio com ódio. Ao menos não tenho atingido níveis elevados. Mudo de foco, espero um pouco, procuro tratar com respeito quem de vez em quando me escreve com ódio por não gostar do que eu gosto, ou por não pensar como ele, ou ela, pensam.

Não faz bem para a saúde geral (espiritual, do coração, do sangue) perder a calma. Manter a calma também porque sou sociólogo e todos os bons “pais fundadores” da sociologia recomendavam o método da objetividade, do desapego em relação aos valores contidos no objeto de estudo e no coração do pesquisador. É uma boa regra essa da objetividade, do desapego, da imparcialidade analítica. Boas opiniões tornam-se vasos quebrados quando perdemos a calma e objetividade analíticas ao manifestá-las.

Outro bom motivo para não perder a objetividade?  Quem se encolerizar contra o próximo já pode ser considerado réu no tribunal divino do amor (Mateus 5, 21-22). Eu não tenho medo de Deus, o que tenho é respeito e gratidão, duas manifestações de amor. “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). E o colinho de Deus é um lugarzinho bem bom de se permanecer, entre tantos lugares ruins que existem por aí.

Permanecer calmo na polêmica não é fácil, mas necessário. A luta é árdua, mas estou convencido de que vale a pena. “Bem-aventurados os mansos”, que são os que não nascem mansos, mas vão se fazendo mansos, aos poucos, mais pela força das amizades (divinas e humanas) do que pelo mero passar do calendário. Assim, lutando, continua-se opinando, mas priorizando muito mais o verbo amar do que o verbo opinar, empregando algumas vezes a melhor das palavras, que é a palavra não dita.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A casa de uma única porta

Fico imaginando a cena exterior e interior, a tragédia de sentimentos que antecedeu a morte dos jovens de Santa Maria. Correram para fora e não puderam sair... Empurrados pela fumaça e pela vontade de viver, correram, então, para o outro lado, imaginando que haveria uma janela ou uma porta por onde pudessem sair. Quem não faria isso? Estamos acostumados a ver várias portas e janelas em lugares térreos, mas na boate do terror havia uma única porta... Correram para o outro lado e morreram amontoados, envenenados, num banheiro sem saída, o banheiro da morte.

A tragédia de Santa Maria nos revelou que existem casas de uma única porta... Uma única porta para centenas de pessoas. Casas de uma única porta, sem janelas nem outras portas, são casas terríveis para uma pessoa, ou duas pessoas. Casas de uma única porta para centenas de pessoas não são casas noturnas, são casas de morte, casas potencialmente assassinas...

Casas são apenas amontoados de tijolos, construções humanas. Casas não têm culpa. Quem construiu essa casa estranha, de uma única porta? Quem deixou que essa casa estranha fosse construída? Quem deixou que ela fosse usada? Uma casa de uma única porta não serve para duas pessoas e muito menos para centenas de pessoas.

Conheci Porto Seguro, Bahia, em 1988. Dancei na praia, num tablado de madeira, animado pelos ritmos de então. Eram tantas as janelas e as portas, entre os coqueiros, na praia, que nem dava para chamar de casa. Mas era uma casa, aberta, cheia de jovens, dançando, ouvindo música... Uma casa noturna diferente, bem diferente dessas casas de porta única, casas da morte.

Os jovens morreram amontoados, envenenados, num banheiro, pensando que estariam em uma casa com mais de uma porta, ou ao menos haveria janelas. Mas não. Era uma casa de uma única porta, uma casa diferente da casa de nossos avós, tias, tios, amigos, que são cheias de portas e janelas, como todas as casas normais.

Certa vez, alguém conheceu uma casa muito legal, bonita, “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”. A casa da morte era uma casa diferente, não era engraçada, tinha uma única porta...

Infelizmente, seres humanos fazem casas de uma única porta, casas da morte, bem diferentes da casa de Deus, aberta, larga e bela como as nossas praias e o nosso amado pampa, com seus horizontes infindos.