segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O cristianismo na idade da banalidade

A parte da mensagem de Jesus que mais me toca é aquela onde ele, dirigindo-se ao Pai, diz: “Que todos sejam um”. Todos um. Vale para pessoas, gerações, raças, grupos, etnias, religiões, nações, Estados, blocos de Estados. Todos um não significa anular diferenças, mas construir algo de sólido, amor sólido a partir das diferenças entre sujeitos. Todos um significa, em outras palavras, integração paritária de amor, entendido não como sentimento de amor, mas como compromisso, contrato de vontades.

“Pai, que todos sejam um” é o projeto de Jesus antes, durante e depois desse tempo, presente, histórico. Projeto (ideal) fundado na realidade da Trindade eterna. E é o meu projeto, de cristão. Como aderir a tal projeto, quais são os seus pressupostos? Em primeiro lugar, tal projeto funda-se na experiência do contato pessoal com Deus, que se torna relação pessoal com a Trindade, Deus Pai, Filho (Jesus) e o Espírito Santo. Relação com Deus fundada mais na vontade (compromisso da vontade) do que em um sentimentalismo vago chamado erroneamente de amor.

Amar é muito mais uma questão de vontade do que de sentimento. Ora, o que vale para o amor vale também para a fé: acreditar é muito mais uma questão de exercício da vontade do que uma questão de sentimento. Vontades são muito mais sólidas que sentimentos.

As bases interiores do cristianismo, em cada cristão, são os exercícios (vontade e não sentimento) de fé, amor e esperança. Acreditar não é fácil; amar não é fácil; esperar não é fácil. Exigem vontade, quebra radical da incredulidade, do desamor e do desânimo. Amar a Deus significa, em primeiro lugar, acreditar nele. E acreditar em Deus é muito mais do que apenas acreditar que ele existe. Acreditar em Deus significa acreditar que ele é amor e, sobretudo, que ele nos ama imensamente, ama cada um e todos. Acreditar em Deus significa acreditar que ele nos ama imensamente sempre, independentemente das coisas consideradas boas ou ruins que nos aconteçam (ameaças, mortes, realizações, fracassos). Acreditar significa fé total, fé absoluta em Deus e não fé pela metade.

A incredulidade parcial não permite que o cristão cresça na união com Deus. A fé total em Deus é o que ele quer de nós para que a nossa libertação nele seja plena. Acreditar já significa amar, amor que, depois, se torna também paciência com os irmãos e irmãs (vontade), sobretudo, quando eles e elas nos aborrecem mais ou menos profundamente.

Não existe cristianismo sem ascese, sem virtudes, sem ruptura com nosso sentimentalismo e vontade fraca. Cristianismo significa ruptura interior, quebra de paradigmas dentro de nós. Fé total fundada na vontade radical (movida pela graça); fé que assim se entrega cegamente em Deus, sem reservas, como um menino que confia no pai, rompendo com a incredulidade parcial que pode nos vitimar, impedindo por meses ou anos que a vida cresça em nós. Fé total, amor e esperança. Assim, com a armadura interior da fé total, do amor e da esperança, trabalhamos pelo projeto de Jesus, que é projeto da Trindade: “Que todos sejam um”, também agora, nesta idade da banalidade.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A idade da banalidade

Estou em Roma, para passar o Natal com a família daqui. Durante a viagem, li quase todo um livro sobre o antes e o durante da guerrilha de Ernesto Guevara na Bolívia, que fazia parte de seu projeto de internacionalização da revolução cubana. Não quero entrar no mérito do trabalho do Che, apenas afirmar que, certo ou errado, ele vivia por um projeto coletivo. E hoje, quem tem um projeto coletivo bem intencionado para parte da humanidade?

Não estamos mais na idade dos projetos. Passamos da era das revoluções à idade da banalidade. A burguesia fez suas revoluções, conquistou o poder em grande parte do mundo. Depois, revolucionários vermelhos conquistaram o poder na China, em Cuba, onde continuam até nossos dias. Em outras partes do mundo, em vez de revoluções, reformas foram feitas, socialdemocratas. Operários se transformaram em consumidores pequeno-burgueses. Venceu a sociedade de consumo, com suas marcas, sua hierarquia de consumo: carros populares ou de luxo; roupas populares ou de luxo.

Aqui na Europa, quem antes comprava produtos de marca, agora ou compra produtos sem marca ou mesmo não compra nada. Quem antes era consumidor pequeno-burguês, agora, empobrecido, chora a perda do poder de compra. Quem antes estava em pleno na sociedade de consumo ficou sem dinheiro para isso. Querem voltar aos tempos áureos da sociedade de consumo, com reformas, ajustes aqui e acolá. Isso será possível?

Enquanto digito essas palavras, a televisão italiana mostra um menino comendo panetones. Agora, mostra uma mulher borrifando perfume de marca. Ora, comer panetones não é ruim. Usar perfumes, também não. A publicidade continua vendendo sonhos, difundindo a ideologia da sociedade de consumo. “Panetones para todos!”, ou “Perfumes para todos!”. Não existe hoje outra ideologia de massa fora da sociedade de consumo, onde o consumo tornou-se projeto de vida. E aqui está a banalidade: uma coisa necessária, como o consumo, adquiriu status de cosmovisão do ser humano pós-moderno.

É um mundo meio pobrezinho o nosso, também do ponto de vista dos projetos coletivos. Ainda bem que é possível viver em bolhas de vida alternativa, simples, que se deslocam pelo mundo, bolhas de resistência à ideologia da banalidade nossa cotidiana.

E a quem dizer que ao menos a sociedade de consumo não mata ninguém, basta recomendar a leitura de dados sobre o número de mortos pelo consumo e venda de drogas, mais os zumbis-consumidores, produtos típicos da ideologia da banalidade.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Do lado de lá dos Andes


Entre o Pacífico e o Atlântico, os Andes
As nossas montanhas de pontas brancas
Quase tocando a janela do avião, que não abre
Mas minha alma saiu pela janelinha,
Botou a boca nos Andes brancos, lambeu a neve
Do lado de lá, o Chile, Santiago.
Bela, bela, bela...
Gaúchas chilenas.
Santiago cheia de Igrejas...

No mercado, riquezas pacíficas
Frutos do mar, conchas, conchas
Grandes, diferentes...
Peixes deitados, ladeados
Mosaicos do Pacífico
Lindos, saborosos

Há vida nos Andes e do lado de lá dos Andes.
Atlântico e Pacífico.
Primeira vez que boto meus lábios no Pacífico
Os nossos dois oceanos, sul-americanos.
Andes, Pacífico.
Há vida depois dos Andes.
Vida grande, grande...

Vales, vinhos, uvas, amadas uvas, de vales, vinho
Pão, vinho, peixe...
Jesus cristinho, nos Andes, Pacífico...
Há vida do lado de lá dos Andes
Vida bela, grande, bonita
Vida escorreu dos Andes
Pelos vales, até o Pacífico...

Algodão de gelo derreteu de amor, escorreu
Pontinhas brancas de amor do céu, na terra...
Andes, Pacífico, Atlântico...
Pampa, Amazônia...
Geografia diferente e una
Sul-americana como eu, como você...