sábado, 10 de novembro de 2012

Caminhadas espirituais pelo pampa

Assim como tantos, eu também gosto de caminhadas de uma ou mesmo duas horas... Não sou muito de caminhar em academia dado que enquanto se caminha, numa esteira, somos às vezes obrigados a ouvir gente que movimenta-se mais com a boca do que com os pés, falando da vida alheia, da própria, ou simplesmente falando sem parar como se estivesse na salinha de sua casa e não em um ambiente público.

Além dos dominados pela verborreia, em academias há também os que se dedicam ao culto ao efêmero, verificando ao término de cada puxada lancinante de ferro se as medidas de seus músculos aumentaram. Para mim, esporte é saúde, e não devoção ao mito da vaidade corpórea, por isso, não gosto de academia mesmo se, por falta de opção, às vezes somos obrigados a recorrer a tal paliativo tipicamente moderno.

Prefiro caminhar a céu aberto. “Em Livramento não há bons lugares para caminhadas”, disse-me alguém. De fato, não há nada organizado para isso nos arredores do centro da cidade. Não há uma rambla, como em Montevidéu, ou a bela beira-mar de Cidade do Cabo, África do Sul, onde caminhei por um mês, todos os dias, nas férias passadas.

Porém, surpreso, descobri a felicidade de caminhar em Livramento! Saí de carro em direção a Quaraí e após 10 minutos deixei o asfalto e parei próximo a uma estradinha de chão. Foram quase duas horas de caminhada, passando por gaúchos a cavalo, levando gado; passando por casas pequenas, com gente tomando chimarrão, saudando esse estranho caminhante urbano armado de tênis e cajado. Quase duas horas de felicidade, ouvindo o canto divino dos nossos pássaros do pampa, sentido e vendo o verde fértil do pampa.

A caminhada é para mim uma atividade física e espiritual. Os benefícios físicos estão em todas as revistas sobre saúde. Do ponto de vista espiritual, a caminhada me ajuda a reordenar o caos de sentimentos e desejos que pululam na alma. Ódios e amores, vontades, alegrias, ressentimentos, mágoas, desejos, projetos... A caminhada revela o caos interior e depois reordena os sentimentos geralmente pela cessação dos desejos, sem reprimi-los, apenas revelando sua banalidade intrínseca. A caminhada pelo campo tem sido de libertação do eu e de contemplação da verdade ensinada pela ruralidade pampeira: simplicidade e necessidade de subordinar os barulhos interiores ao silêncio ordenado dos cantos do campo.

“É preciso dirigir os refletores para o lado de dentro” (Gandhi). A lição de Gandhi é verdadeira. Até mesmo a política, como ação exterior benéfica, para ser útil ou menos inútil precisa ter origem nesta busca de iluminação e reordenação interior.

Na semana que passou consegui fazer isso algumas vezes, enquanto caminhava na companhia dos seres vivos do pampa, inclusive os seres humanos que encontrei pelo caminho. Duas horas de felicidade encontrada nestas caminhadas de revelação do caos e de reorganização dos sentimentos. Duas horas de contemplação e reconstrução no final da tarde, voltando feliz quase à noite para minha família depois de ter reencontrado a paz no pampa.

Estou muito feliz por descobrir que em Livramento temos essa possibilidade, tenho essa possibilidade de encontrar caminhos de reorganização e contemplação por pequenas, simples e belas estradinhas pampeiras que cortam o mar do pampa, com margens verdes dos dois lados, onde me sinto como um Moisés sem povo nem projeto messiânico atravessando tal esplêndido mar verde que vai se abrindo, revelando caminhos de libertação pessoal que, depois, se refletem positivamente também em minhas relações em casa, no trabalho e pelos cantos de encontro da cidade.