domingo, 30 de setembro de 2012

Pelotas de bicicleta


Com minha Monareta percorri a cidade de Pelotas: Fragata, Areal, Centro... Eu tinha oito anos de idade e ainda não era perigoso para um menino pedalar sozinho pela cidade. Nasci em Piratini e morava em Canguçu. Mudar para Pelotas ampliou minha curiosidade. Os bairros não terminavam. Precisei de meses para registrar toda a cidade sob os pedais de minha Monareta.

Parava sempre na Praça dos Macacos, assim ela se chamava. Adorava aquela praça, foi onde dirigi carrinho com motor pela primeira vez. Depois, conheci o Laranjal. Fui a pé até o Barro Duro. No meio do caminho encontrei uma escadaria. Foi quando subi pela primeira vez até a casa do Ferreirinha. Experimentei enorme encanto com aquela grandiosidade arquitetônica. Anos depois, quando morei na Toscana, em cidade perto de Florença, conheci muitas escadarias grandiosas, mas a primeira escadaria grandiosa que eu vi foi a escadaria de praia do Ferreirinha, imagem que nunca mais saiu do meu coração.

De bicicleta, conheci Pelotas. Bicicleta e liberdade, em Pelotas, quando isso ainda era possível. Cidade plana, ruas cruzadas, esquinas definidas. Na rua Santos Dumont, uma padaria de um português. Comia dois queques e continuava pedalando. Um menino de oitos anos, de Piratini, que conheceu Pelotas de Monareta, pedalando, movido a queques de padaria de português. Somente muito depois, em Cape Town, África do Sul, estudando inglês, descobri que queque vinha de cake.

Pelotas de bicicleta... Eu era um menino de oito anos e tinha poder, poder de movimentação, poder de mover os olhos enquanto movia os pedais, admirando uma cidade nova para mim, uma antiga e bela cidade nova. Era como se eu estivesse descobrindo o mundo e realmente o estava, movendo os pés, as pernas, os olhos e registrando visões e sensações na alma.

Aquela Monareta fortaleceu minhas pernas. Aquela Monareta fortaleceu minha alma. Aquela Monareta me levou por Pelotas, revelou-me um mundo diferente. Argolo, Cassiano, Barões, o de Santa Tecla e o de Butuí…

Pelotas, pequena embarcação indígena, como a minha Monareta, meu meio de transporte. Monareta, minha Pelotas com pedais, em terra seca, firme, pedalando como quem navega, acariciado pelo vento da contemplação, capturando imagens dessa nova e antiga bela cidade.

sábado, 29 de setembro de 2012

Mudança de credo


Outro dia o filme de minhas grosserias passou diante de mim. Palavras fortes em voz alta ou em voz baixa. Senti vergonha. Eu sabia disso, mas era como se não soubesse. O óbvio nem sempre é visto, mas agora eu vi.

Tornei-me sociólogo porque queria mudar o mundo, e ainda quero, trabalho para isso. A prioridade agora é outra: mudar o coração desse que vive nesse mundo que precisa ser mudado, em vez de mudar esse mundo onde vive esse que precisa ser mudado. A prioridade é essa. A vida é curta e o passaporte para a vida definitiva é a opção prática pelas mudanças dentro e fora de nós. 

A vida aqui é um purgatório. Não estamos no céu, no paraíso, mas sentimos, algumas vezes, na alma, os seus cheiros, os seus sabores. Não estamos no inferno, mas sentimos, algumas vezes, os seus cheiros, os seus sabores. Estamos entre o céu e o inferno, em um terreno de lutas onde a prioridade é para as mudanças mais em mim do que fora de mim, mesmo se as duas são importantes.

Imaginava que alguns defeitos quase permanentes servissem apenas para manter a humildade e que deveríamos carregá-los para o caixão. Mas não é assim. Mudar por dentro é uma obrigação. O tempo é curto e a obra deve ser concluída. E é essa obra a que resta para depois dos 70 ou 80 anos de vida que tivermos nesta terra.

Nasci de pelo duro e já é hora de me amansar... Bagual de doma tardia, mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca. “Bem-aventurados os mansos...”. Os mansos de coração conquistam a confiança. Como afirmou Francisco de Sales, “sede o mais doce que possais e recordai que se pegam mais moscas com uma gota de mel que com um barril de vinagre”.

A violência está firme e forte na vida cotidiana e cabe não ser cúmplice, mas inimigo dela, navegando contra a correnteza brutal da violência doméstica, no trabalho, eleitoral, no trânsito, política, econômica, nas relações internacionais. Hora de mudar de credo político. A violência não é a parteira da história. Crer de coração e mente na força do amor e não da violência.

A doçura que nasce da morte interior é que é eficaz, revolucionária. Tal doçura, que é muito mais que gentileza, é que muda realmente o mundo, e não a grosseria. A revolução da doçura é silenciosa, cotidiana, sem alarde nem publicidade. Acolher, então, a energia revolucionária desta verdade que está me comendo por dentro. Deixar ela me matar, para renascer, começar de novo como numa metamorfose de amor.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um gaúcho de Piratini em Roma


No meu coração existe sempre grande amor por Piratini. A minha infância e pré-adolescência foram marcadas positivamente pela Capital Farroupilha. Morando em Roma, ou visitando Paris, Praga, Budapeste, Jerusalém e outros lugares, quando perguntam de onde sou, respondo que sou de Piratini. Depois, preciso explicar que é uma cidade brasileira, do sul do Brasil, que não é perto de São Paulo ou do Rio de Janeiro.

Fiquei feliz quando estive em Capreira, ilha no norte da Sardenha onde está enterrado Garibaldi. “Somente eu e Garibaldi”, pensei, “tivemos a honra de conhecer tanto Piratini quanto esta magnífica ilha Sarda”.
Em Roma, gosto de passear pelas livrarias. Encontrei as Memórias Completas de Giuseppe Garibaldi. Folheando um dos três volumes, li as páginas onde Garibaldi descreve a sua chegada em Piratini. Fala da cidade com admiração. Garibaldi é um italiano que morou em Piratini e eu sou um piratiniense que estou morando na Itália. Fizemos viagens parecidas.

As raízes de uma pessoa são o seu coração. As minhas estão em Piratini, marca de fogo que recebi da história. Símbolo de liberdade, na geladeira da casa da tia Teresa o comunismo deu certo. A magia de Piratini não foi devorada pela história, ao contrário, Piratini continua alimentando e reproduzindo sempre a beleza dos ideais do passado e do presente.

Em Piratini conheci amizade, solidariedade, o humor sadio dos causos, o lúdico da vida cotidiana, a liberdade de sentir uma cidade como se fosse uma única família, com gente de sobrenomes diferentes.

Piratini é a minha carteira de identidade em qualquer lugar do mundo. Minha mãe, nos momentos de despedida, afirma sempre que “uma mãe não cria os filhos para si, mas para o mundo”. Palavras que sempre me ajudaram e até impediram lágrimas na rodoviária de Pelotas, onde pegava ônibus para Porto Alegre, avião para o Rio e de lá para Roma. A coragem de minha mãe ela bebeu na água da bica da história da Capital Farroupilha.

Piratini é como a minha mãe, não quer os filhos para si, mas os exporta para o mundo.
(Escrito em Roma, no dia 31/08/1991).

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Irritação e tranquilidade


O cachorro do vizinho não parava de latir. Fiquei irritado. Quando eu era pequeno, não conseguia estudar por causa dos latidos de um cachorro. Na verdade, o cachorro que late apenas revela uma minha limitação, minha irritação devido aos seus latidos. Revela minha impaciência. Ora, se em vez de odiar o cachorro eu odiasse a irritação que seus latidos suscitam em mim, eu poderia aproveitar tal ocasião para mudar de vida.

No trânsito, uns vão lentamente pelas ruas, outros correm. Quando correm demais, eu buzino. Se vão lento demais, buzino também. Na verdade, também eles apenas manifestam uma minha limitação, minha impaciência.

O cachorro manifesta meu desejo de perfeição acústica, pela ausência dela, com os seus latidos. Os lentos e rápidos no trânsito manifestam meu desejo de perfeição no trânsito. O problema é que perfeição fora e dentro de nós não existe. Então, o melhor a fazer é combater minha irritação, por meio da calma, da luta pela conquista da serenidade, em vez de ficar odiando os latidos do cachorro, em vez de ficar buzinando para os lentos e os rápidos.

A ausência de perfeição gera irritação, e a irritação é uma forma grave de imperfeição. Então, se eu quero perfeição, deveria lutar contra minha irritação, sendo grato ao cachorro que late já que foi ele quem a revelou-me.

A cólera manifesta a vitória da irritação, que assumiu o controle de um pobre coração, então, cabe lutar contra a causa, a irritação, para evitar os sintomas. Seria possível permanecer indiferente aos motivos geradores de irritação? Possível ou não, penso que se trata de um bom desafio prático. E com preparação talvez seja mesmo possível. Até porque a irritação parece ser muito mais algo já presente em nós do que algo causado por algum motivo exterior. O motivo exterior apenas acorda a fera, que já estava lá, no canto escuro da caverna da alma, esperando por carne.

Então, cabe tentar matar a fera interior ou domesticá-la. Para começar tal trabalho, penso que o primeiro passo seja o reconhecimento profundo, sincero da existência do problema e o desejo também profundo, sincero, de não dar mais comida para as feras que se escondem nos cantos sombrios da nossa alma. Em outras palavras, é preciso ascese política (é sempre uma questão de gestão do poder), espiritual, psicológica, pessoal e coletiva.