domingo, 25 de março de 2012

Alma não é branca, luto não é negro


Crescemos ouvindo piadas sobre negros, ou expressões como “coisa de negão”, ou músicas como “nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia...”.
Semana passada, via confissão, com um sacerdote, pedi perdão a Deus pelas piadinhas e comentários deste tipo que fiz ao longo da vida. São apenas brincadeiras? Pode ser, mas, sei lá, pode não ser...

Quando eu era pequeno, meu apelido, na minha amada terra natal, Piratini, era Negão, pois bastavam dois dias de verão, tomando banho de rio, para eu ficar com a pele marrom escuro. Minha filha mais nova também escurece após poucas horas de sol. Cores bonitas, pele morena.

Steven Biko, mártir sul-africano da luta dos negros (e de alguns brancos) contra o apartheid disse, certa vez, quando afirmaram que ele não era negro, mas marrom, que os brancos também não eram brancos, mas cor-de-rosa.

Fica até ridículo de escrever, de tão óbvio que é, mas mais ridículo do que o óbvio da frase é a rejeição secular de tal óbvio: a cor da pela não define a qualidade moral e intelectual do ser humano. Quantas décadas serão ainda necessárias para que tal obviedade passe a ser cultura comum da humanidade?

Podemos gostar ou não (eu não gosto) da política de “não boa vizinhança” do Estado de Israel, mas não gostar de judeus por serem judeus, é uma bobagem, assim como não gostar de negro, ou nordestinos, e o carretel da baboseira, infelizmente, é longo...

Uma de minhas filhas havia dormido algumas vezes na casa de uma amiga. Falava sobre ela, sobre tal amizade. Semanas depois, quando conheci a menina, vi que ela é negra. Fiquei muito contente, pois minha filha nunca havia dito nada sobre isso. Referia-se a ela simplesmente como uma amiga, sem nenhum comentário sobre a cor da pele dela.

Assim como hoje já temos uma geração “cárie zero”, de crianças que aprenderam desde sempre a prevenção, escovando os dentes e passando fio dental, quem sabe teremos um dia, no Brasil, uma geração “racismo zero”?

“Alma não é branca, luto não é negro” (Milton Nascimento). Ovelha negra não é ruim, e mercado sem lei não é negro, mas ilegal. Como sabemos, o grande Milton Nascimento foi adotado por uma família de brancos, que ouviram certamente comentários sobre isso. Fico imaginando o que pensava sua mãezinha quando ele, jovem, começou a tocar violão em família, cantando aquelas coisas maravilhosas que o Milton sabe fazer. Milton Nascimento, Djavan e tantos outros poetas que nos encantam quando cantam.

Brasil, história construída aos trancos e barrancos. A mestiçagem é um dado de fato, gostemos ou não dela ou da forma como se realizou. No Brasil, cada um carrega em si a raça do outro. Nossas diferenças não são de raça, mas de dosagem de raças, em cada um de nós.

sábado, 17 de março de 2012

O ateísmo não é a religião oficial da ciência


“Ele disse que religião é bobagem”, reclamou, chateada, a estudante de medicina, evangélica, de uma universidade brasileira. “Ora, assim como eu não faço pregação evangélica em sala de aula, ele também não deveria fazer cruzada ateísta em sala de aula. E quem tem uma religião não é burro”, concluiu. Concordo. Um professor não deveria tratar um fenômeno complexo (religião) de forma superficial, e não deveria desrespeitar o pluralismo de crenças que caracteriza o Brasil, pluralismo que é protegido constitucionalmente.

Sala de aula não é lugar de pregação, mas de análise, já explicou Max Weber faz tempo. Expor convicções é diferente de desqualificar opiniões alheias, o que tem cheiro até de crime contra a liberdade constitucional de expressão.

Pregação ateísta não cabe em uma universidade pluralista, assim como não cabe pregação confessionalista. Geralmente os ateus são mais perseguidos do que perseguidores. Porém, em algumas situações, a fogueira da intolerância parece que muda de lado.

Há quem confunda laicidade, de Estado laico, com laicismo. Laicidade é uma virtude da democracia, e laicismo é um vício contra a democracia. Estado Laico (laicidade) é aquele que não escolhe uma religião para ser a religião oficial do Estado.

O pressuposto do Estado Laico é a liberdade religiosa. A laicidade do Estado serve como pano de fundo para o exercício pluralista da escolha desta ou daquela religião. Ou seja, o Estado Laico não é contra as religiões, mas a favor da liberdade religiosa. A laicidade é a favor da liberdade religiosa. O laicismo é que é contra as religiões, contra a liberdade religiosa, contra a democracia.

O contrário do Estado Laico é o Estado Confessional, quando o Estado escolhe um credo religioso como credo oficial do Estado. Ora, se o Estado escolhesse o ateísmo como seu credo oficial, ele não seria mais laico, mas confessional. O mesmo vale para universidades e ciência, espaços, experiências de análise, não de intolerância crente ou ateísta.

O ateísmo não é a religião oficial da ciência. A ciência é um método, leigo, agnóstico de investigação empírica, e pode ser usada por crentes ou ateus, que se desapegam profissionalmente de seus valores, sem abrir mão deles.

Há bons pesquisadores ateus, e bons pesquisadores cristãos, espíritas, budistas, muçulmanos, deístas (como os maçons). A arrogância não é monopólio dos crentes. Cruzadas de ateus em nome de uma ciência que não é ciência são tão enfadonhas quanto cruzadas de crentes.

Em uma universidade leiga, religião não é para ser exaltada nem combatida, mas estudada, analisada como fenômeno social caracterizado pela complexidade. Para as ciências sociais, por exemplo, religião é fenômeno cultural complexo. Pode ser analisada do ponto de vista antropológico, político, sociológico, econômico.

“Religião e luta de classes”, título de um livro do sociólogo Otto Maduro. Religião para a conservação ou para a revolução. Nas relações internacionais, as religiões também são fenômenos complexos, na Índia ou no Irã, no Brasil ou na Tailândia, nas relações entre os Estados.

domingo, 11 de março de 2012

Professor quase por acaso


Nunca disse que queria ser professor. Não lembro de ter dito aos meus pais de querer ser professor. Lembro que, com 17 anos, entrei em contato com os problemas sociais, com a dramaticidade dos fatos sociais. Passei a estudar história do Brasil, e política, para tentar entender as causas dos problemas e as estratégias de mudança.

Nunca pensei em ser professor. Meu objetivo foi pesquisar, compreender o social para mudá-lo. Interpretar o mundo para transformá-lo. Interpretar o mundo para melhorá-lo, para todos os seres humanos, de todos os cantos do planeta, iguais do ponto de vista da dignidade.

Mas eu sou professor. Apresento-me assim, considero-me assim, apesar de nunca ter pensado em ensinar nada para ninguém. Para mim, ser professor significa compartilhar com outras pessoas, jovens e adultos, homens e mulheres, desta ou daquela crença, os métodos, resultados parciais, realizações práticas e motivações de minhas pesquisas. A sala de aula é o espaço para tal compartilhamento democrático, recíproco, entre todos. Professor é promotor desse compartilhamento intelectual, moral, espiritual, político dentro e fora de sala de aula.

Assim manifesto uma crença, na educação (entendida como compartilhamento democrático de métodos, motivações, resultados), instrumento de melhoramento da vida social, espiritual, moral, no âmbito intra e internacional.

Tornei-me antes sociólogo e teólogo da vida social. Depois, tornei-me, como consequência disso, professor. Ser professor é resultado de dois livrinhos. Encontrei a crença na educação para a mudança social em tais dois livrinhos, pequenos, mas grandes em valor quanto as montanhas andinas. Entraram em mim e nunca mais saíram, talvez, porque já estivessem lá dentro. Dois livros de Paulo Freire, Conscientização e Educação e Mudança.

Educação é para a mudança, para as reformas, para a integração entre povos e continentes diferentes. Estradas integram. Aviões, também. Educação não é açude, é rio de águas permanentemente em movimento, em direção ao mar. Alunos e professores navegam em tais rios.

Educação é movimento das águas do saber, conhecimento, desejos, projetos compartilhados. Se a sala de aula deixa de ser rio, vira poça, água parada, e seca.

Educação é relação entre quem sabe que não sabe tudo e quem sabe de saber alguma coisa” (Paulo Freire).

Educação para a compreensão de modos de vida diferentes, intra e internacionais.

sábado, 10 de março de 2012

O céu que eu vi


Hoje eu fechei os olhos e vi o céu
Milhares de cores, diferentes
Milhares de idiomas, diferentes
Milhares de danças, diferentes
Milhares de sabores, diferentes
Milhares de perfumes, diferentes
Milhares de pessoas, diferentes
Unidas pela unidade do amor, recíproco

Abri os olhos e não vi mais o céu
Fechei-os novamente.
Mas agora vi o inferno...
Todo branco, monótono, triste...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Selvagens foram os brancos


Sociologia se faz, antes de tudo, com os pés. É preciso botar os pés em um lugar para entendê-lo um pouco mais.

Antes de nossa viagem, o mapa do continente africano era para mim uma informação técnica. Agora, o mapa ficou vivo. Olho para ele e vejo rostos de crianças, mulheres, homens. Conheci apenas a África do Sul, mas em tal país dialoguei com pessoas de outras nações africanas, que me apresentaram seus países, criaturas vivas, vitais.

Nações são como pessoas: é preciso conhecê-las para amá-las melhor. Nações não são entes burocráticos, são criações humanas, formadas ao longo de décadas por comunidades humanas que as amam. Hinos, bandeiras, equipes esportivas, gastronomia típica, danças, músicas, poesia, literatura, cinema valem pelo que são e pelo sentimento de pertença coletiva que geram ou representam. Estados nem sempre são assim, mas nações, sim.

Entrar em outra nação exige que antes limpemos os pés no tapetinho de ingresso, exige respeito, reverência, exige que sejamos na pátria do outro como gostaríamos que o outro fosse caso visitasse a minha.

A África do Sul foi uma grata surpresa, sobretudo, Cape Town, cidade onde está um Cabo cujo nome é um programa de vida: Boa Esperança! Não basta uma esperança qualquer, é preciso que seja boa esperança, e a integração internacional, a partir do Sul, é uma boa esperança.

As diferenças nacionais não são obstáculos à integração, mas possibilidade de troca de riquezas, superando traumas, como foi o apartheid.

O que aconteceu na África do Sul por décadas foi selvageria dos brancos, que criaram campos de concentração para os negros. Não penso que seja correto traduzir Township por favela. Township é pior que favela, é campo de concentração para negros. Durante o apartheid, os negros foram confinados lá dentro.

A imagem do canibal como modelo de selvagem, que povoou a nossa imaginação por anos, está errada. A selva não é selvagem. Nenhuma guerra tribal se compara às duas guerras mundiais criadas pelos brancos. Selvagens foram os brancos europeus que na África e na América mataram, escravizaram. E o racismo talvez seja demonstração de certa inferioridade moral dos brancos em relação aos negros.

Selvagens foram os brancos como os da Ku Klux Klan e tantos outros grupos de ontem e de hoje. Selvagem foi a ideologia do racismo científico, estupidez pseudocientífica segundo a qual os brancos seriam superiores e, por isso, os negros deveriam ser por eles tutelados.

Mandela, no poder, eleito, optou pela reconciliação, e não pela vingança. Deve ter ficado enjoado de tanto ódio, ou sentido pena dos brancos, escravos de uma mentira que se grudou na máscara da hipocrisia. O caminho da reconciliação é longo, difícil, mas, certamente, necessário.

Esperança? Sim, a universidade de Cape Town com estudantes negros. Antes não era assim...