segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O cristianismo na idade da banalidade

A parte da mensagem de Jesus que mais me toca é aquela onde ele, dirigindo-se ao Pai, diz: “Que todos sejam um”. Todos um. Vale para pessoas, gerações, raças, grupos, etnias, religiões, nações, Estados, blocos de Estados. Todos um não significa anular diferenças, mas construir algo de sólido, amor sólido a partir das diferenças entre sujeitos. Todos um significa, em outras palavras, integração paritária de amor, entendido não como sentimento de amor, mas como compromisso, contrato de vontades.

“Pai, que todos sejam um” é o projeto de Jesus antes, durante e depois desse tempo, presente, histórico. Projeto (ideal) fundado na realidade da Trindade eterna. E é o meu projeto, de cristão. Como aderir a tal projeto, quais são os seus pressupostos? Em primeiro lugar, tal projeto funda-se na experiência do contato pessoal com Deus, que se torna relação pessoal com a Trindade, Deus Pai, Filho (Jesus) e o Espírito Santo. Relação com Deus fundada mais na vontade (compromisso da vontade) do que em um sentimentalismo vago chamado erroneamente de amor.

Amar é muito mais uma questão de vontade do que de sentimento. Ora, o que vale para o amor vale também para a fé: acreditar é muito mais uma questão de exercício da vontade do que uma questão de sentimento. Vontades são muito mais sólidas que sentimentos.

As bases interiores do cristianismo, em cada cristão, são os exercícios (vontade e não sentimento) de fé, amor e esperança. Acreditar não é fácil; amar não é fácil; esperar não é fácil. Exigem vontade, quebra radical da incredulidade, do desamor e do desânimo. Amar a Deus significa, em primeiro lugar, acreditar nele. E acreditar em Deus é muito mais do que apenas acreditar que ele existe. Acreditar em Deus significa acreditar que ele é amor e, sobretudo, que ele nos ama imensamente, ama cada um e todos. Acreditar em Deus significa acreditar que ele nos ama imensamente sempre, independentemente das coisas consideradas boas ou ruins que nos aconteçam (ameaças, mortes, realizações, fracassos). Acreditar significa fé total, fé absoluta em Deus e não fé pela metade.

A incredulidade parcial não permite que o cristão cresça na união com Deus. A fé total em Deus é o que ele quer de nós para que a nossa libertação nele seja plena. Acreditar já significa amar, amor que, depois, se torna também paciência com os irmãos e irmãs (vontade), sobretudo, quando eles e elas nos aborrecem mais ou menos profundamente.

Não existe cristianismo sem ascese, sem virtudes, sem ruptura com nosso sentimentalismo e vontade fraca. Cristianismo significa ruptura interior, quebra de paradigmas dentro de nós. Fé total fundada na vontade radical (movida pela graça); fé que assim se entrega cegamente em Deus, sem reservas, como um menino que confia no pai, rompendo com a incredulidade parcial que pode nos vitimar, impedindo por meses ou anos que a vida cresça em nós. Fé total, amor e esperança. Assim, com a armadura interior da fé total, do amor e da esperança, trabalhamos pelo projeto de Jesus, que é projeto da Trindade: “Que todos sejam um”, também agora, nesta idade da banalidade.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A idade da banalidade

Estou em Roma, para passar o Natal com a família daqui. Durante a viagem, li quase todo um livro sobre o antes e o durante da guerrilha de Ernesto Guevara na Bolívia, que fazia parte de seu projeto de internacionalização da revolução cubana. Não quero entrar no mérito do trabalho do Che, apenas afirmar que, certo ou errado, ele vivia por um projeto coletivo. E hoje, quem tem um projeto coletivo bem intencionado para parte da humanidade?

Não estamos mais na idade dos projetos. Passamos da era das revoluções à idade da banalidade. A burguesia fez suas revoluções, conquistou o poder em grande parte do mundo. Depois, revolucionários vermelhos conquistaram o poder na China, em Cuba, onde continuam até nossos dias. Em outras partes do mundo, em vez de revoluções, reformas foram feitas, socialdemocratas. Operários se transformaram em consumidores pequeno-burgueses. Venceu a sociedade de consumo, com suas marcas, sua hierarquia de consumo: carros populares ou de luxo; roupas populares ou de luxo.

Aqui na Europa, quem antes comprava produtos de marca, agora ou compra produtos sem marca ou mesmo não compra nada. Quem antes era consumidor pequeno-burguês, agora, empobrecido, chora a perda do poder de compra. Quem antes estava em pleno na sociedade de consumo ficou sem dinheiro para isso. Querem voltar aos tempos áureos da sociedade de consumo, com reformas, ajustes aqui e acolá. Isso será possível?

Enquanto digito essas palavras, a televisão italiana mostra um menino comendo panetones. Agora, mostra uma mulher borrifando perfume de marca. Ora, comer panetones não é ruim. Usar perfumes, também não. A publicidade continua vendendo sonhos, difundindo a ideologia da sociedade de consumo. “Panetones para todos!”, ou “Perfumes para todos!”. Não existe hoje outra ideologia de massa fora da sociedade de consumo, onde o consumo tornou-se projeto de vida. E aqui está a banalidade: uma coisa necessária, como o consumo, adquiriu status de cosmovisão do ser humano pós-moderno.

É um mundo meio pobrezinho o nosso, também do ponto de vista dos projetos coletivos. Ainda bem que é possível viver em bolhas de vida alternativa, simples, que se deslocam pelo mundo, bolhas de resistência à ideologia da banalidade nossa cotidiana.

E a quem dizer que ao menos a sociedade de consumo não mata ninguém, basta recomendar a leitura de dados sobre o número de mortos pelo consumo e venda de drogas, mais os zumbis-consumidores, produtos típicos da ideologia da banalidade.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Do lado de lá dos Andes


Entre o Pacífico e o Atlântico, os Andes
As nossas montanhas de pontas brancas
Quase tocando a janela do avião, que não abre
Mas minha alma saiu pela janelinha,
Botou a boca nos Andes brancos, lambeu a neve
Do lado de lá, o Chile, Santiago.
Bela, bela, bela...
Gaúchas chilenas.
Santiago cheia de Igrejas...

No mercado, riquezas pacíficas
Frutos do mar, conchas, conchas
Grandes, diferentes...
Peixes deitados, ladeados
Mosaicos do Pacífico
Lindos, saborosos

Há vida nos Andes e do lado de lá dos Andes.
Atlântico e Pacífico.
Primeira vez que boto meus lábios no Pacífico
Os nossos dois oceanos, sul-americanos.
Andes, Pacífico.
Há vida depois dos Andes.
Vida grande, grande...

Vales, vinhos, uvas, amadas uvas, de vales, vinho
Pão, vinho, peixe...
Jesus cristinho, nos Andes, Pacífico...
Há vida do lado de lá dos Andes
Vida bela, grande, bonita
Vida escorreu dos Andes
Pelos vales, até o Pacífico...

Algodão de gelo derreteu de amor, escorreu
Pontinhas brancas de amor do céu, na terra...
Andes, Pacífico, Atlântico...
Pampa, Amazônia...
Geografia diferente e una
Sul-americana como eu, como você...

sábado, 10 de novembro de 2012

Caminhadas espirituais pelo pampa

Assim como tantos, eu também gosto de caminhadas de uma ou mesmo duas horas... Não sou muito de caminhar em academia dado que enquanto se caminha, numa esteira, somos às vezes obrigados a ouvir gente que movimenta-se mais com a boca do que com os pés, falando da vida alheia, da própria, ou simplesmente falando sem parar como se estivesse na salinha de sua casa e não em um ambiente público.

Além dos dominados pela verborreia, em academias há também os que se dedicam ao culto ao efêmero, verificando ao término de cada puxada lancinante de ferro se as medidas de seus músculos aumentaram. Para mim, esporte é saúde, e não devoção ao mito da vaidade corpórea, por isso, não gosto de academia mesmo se, por falta de opção, às vezes somos obrigados a recorrer a tal paliativo tipicamente moderno.

Prefiro caminhar a céu aberto. “Em Livramento não há bons lugares para caminhadas”, disse-me alguém. De fato, não há nada organizado para isso nos arredores do centro da cidade. Não há uma rambla, como em Montevidéu, ou a bela beira-mar de Cidade do Cabo, África do Sul, onde caminhei por um mês, todos os dias, nas férias passadas.

Porém, surpreso, descobri a felicidade de caminhar em Livramento! Saí de carro em direção a Quaraí e após 10 minutos deixei o asfalto e parei próximo a uma estradinha de chão. Foram quase duas horas de caminhada, passando por gaúchos a cavalo, levando gado; passando por casas pequenas, com gente tomando chimarrão, saudando esse estranho caminhante urbano armado de tênis e cajado. Quase duas horas de felicidade, ouvindo o canto divino dos nossos pássaros do pampa, sentido e vendo o verde fértil do pampa.

A caminhada é para mim uma atividade física e espiritual. Os benefícios físicos estão em todas as revistas sobre saúde. Do ponto de vista espiritual, a caminhada me ajuda a reordenar o caos de sentimentos e desejos que pululam na alma. Ódios e amores, vontades, alegrias, ressentimentos, mágoas, desejos, projetos... A caminhada revela o caos interior e depois reordena os sentimentos geralmente pela cessação dos desejos, sem reprimi-los, apenas revelando sua banalidade intrínseca. A caminhada pelo campo tem sido de libertação do eu e de contemplação da verdade ensinada pela ruralidade pampeira: simplicidade e necessidade de subordinar os barulhos interiores ao silêncio ordenado dos cantos do campo.

“É preciso dirigir os refletores para o lado de dentro” (Gandhi). A lição de Gandhi é verdadeira. Até mesmo a política, como ação exterior benéfica, para ser útil ou menos inútil precisa ter origem nesta busca de iluminação e reordenação interior.

Na semana que passou consegui fazer isso algumas vezes, enquanto caminhava na companhia dos seres vivos do pampa, inclusive os seres humanos que encontrei pelo caminho. Duas horas de felicidade encontrada nestas caminhadas de revelação do caos e de reorganização dos sentimentos. Duas horas de contemplação e reconstrução no final da tarde, voltando feliz quase à noite para minha família depois de ter reencontrado a paz no pampa.

Estou muito feliz por descobrir que em Livramento temos essa possibilidade, tenho essa possibilidade de encontrar caminhos de reorganização e contemplação por pequenas, simples e belas estradinhas pampeiras que cortam o mar do pampa, com margens verdes dos dois lados, onde me sinto como um Moisés sem povo nem projeto messiânico atravessando tal esplêndido mar verde que vai se abrindo, revelando caminhos de libertação pessoal que, depois, se refletem positivamente também em minhas relações em casa, no trabalho e pelos cantos de encontro da cidade.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paz


Firmeza sim, mas sem grosseria. Acreditar na eficácia da paz, que é um difícil estado de espírito, interior e exterior. A paz não é água com açúcar. Praticá-la é mais difícil que deixar o rio da grosseria correr solto nas curvas do nosso eu.
O degrau invisível da grosseria não leva para cima, ele apenas faz tombar.

sábado, 27 de outubro de 2012

Felicidade


“Tenho um só esposo sobre a terra,
Jesus Crucificado e Abandonado...”.
(Chiara Lubich)
Eu também...
Um só...

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Bengalas da alma


É preciso quebrar as bengalas da alma, livrar o amor das toxinas da posse que transformam os outros em objetos de compensação de nossos reais ou imaginários déficits de afeto. Não apoiar-se em nada, nem em ninguém, aprender a ficar em pé sozinho, pelo lado de dentro da alma. Não usar os outros como bengalas.

Amar em vez de querer ser amado. Assim, somos amados e nos amamos, nesta solidão criativa, plena de relação, onde o amor livra-se das toxinas do apego, da posse, do ódio, da manipulação afetiva do outro, da outra, usado, usada, como se ele fosse meu, como se ela fosse minha.

Liberdade e igualdade são pressupostos da fraternidade... Há muito mais que política neste famoso tríptico revolucionário. É a minha opinião, não sei se o House diria isso, mas gostei de ver ele quebrar a bengala.

domingo, 30 de setembro de 2012

Pelotas de bicicleta


Com minha Monareta percorri a cidade de Pelotas: Fragata, Areal, Centro... Eu tinha oito anos de idade e ainda não era perigoso para um menino pedalar sozinho pela cidade. Nasci em Piratini e morava em Canguçu. Mudar para Pelotas ampliou minha curiosidade. Os bairros não terminavam. Precisei de meses para registrar toda a cidade sob os pedais de minha Monareta.

Parava sempre na Praça dos Macacos, assim ela se chamava. Adorava aquela praça, foi onde dirigi carrinho com motor pela primeira vez. Depois, conheci o Laranjal. Fui a pé até o Barro Duro. No meio do caminho encontrei uma escadaria. Foi quando subi pela primeira vez até a casa do Ferreirinha. Experimentei enorme encanto com aquela grandiosidade arquitetônica. Anos depois, quando morei na Toscana, em cidade perto de Florença, conheci muitas escadarias grandiosas, mas a primeira escadaria grandiosa que eu vi foi a escadaria de praia do Ferreirinha, imagem que nunca mais saiu do meu coração.

De bicicleta, conheci Pelotas. Bicicleta e liberdade, em Pelotas, quando isso ainda era possível. Cidade plana, ruas cruzadas, esquinas definidas. Na rua Santos Dumont, uma padaria de um português. Comia dois queques e continuava pedalando. Um menino de oitos anos, de Piratini, que conheceu Pelotas de Monareta, pedalando, movido a queques de padaria de português. Somente muito depois, em Cape Town, África do Sul, estudando inglês, descobri que queque vinha de cake.

Pelotas de bicicleta... Eu era um menino de oito anos e tinha poder, poder de movimentação, poder de mover os olhos enquanto movia os pedais, admirando uma cidade nova para mim, uma antiga e bela cidade nova. Era como se eu estivesse descobrindo o mundo e realmente o estava, movendo os pés, as pernas, os olhos e registrando visões e sensações na alma.

Aquela Monareta fortaleceu minhas pernas. Aquela Monareta fortaleceu minha alma. Aquela Monareta me levou por Pelotas, revelou-me um mundo diferente. Argolo, Cassiano, Barões, o de Santa Tecla e o de Butuí…

Pelotas, pequena embarcação indígena, como a minha Monareta, meu meio de transporte. Monareta, minha Pelotas com pedais, em terra seca, firme, pedalando como quem navega, acariciado pelo vento da contemplação, capturando imagens dessa nova e antiga bela cidade.

sábado, 29 de setembro de 2012

Mudança de credo


Outro dia o filme de minhas grosserias passou diante de mim. Palavras fortes em voz alta ou em voz baixa. Senti vergonha. Eu sabia disso, mas era como se não soubesse. O óbvio nem sempre é visto, mas agora eu vi.

Tornei-me sociólogo porque queria mudar o mundo, e ainda quero, trabalho para isso. A prioridade agora é outra: mudar o coração desse que vive nesse mundo que precisa ser mudado, em vez de mudar esse mundo onde vive esse que precisa ser mudado. A prioridade é essa. A vida é curta e o passaporte para a vida definitiva é a opção prática pelas mudanças dentro e fora de nós. 

A vida aqui é um purgatório. Não estamos no céu, no paraíso, mas sentimos, algumas vezes, na alma, os seus cheiros, os seus sabores. Não estamos no inferno, mas sentimos, algumas vezes, os seus cheiros, os seus sabores. Estamos entre o céu e o inferno, em um terreno de lutas onde a prioridade é para as mudanças mais em mim do que fora de mim, mesmo se as duas são importantes.

Imaginava que alguns defeitos quase permanentes servissem apenas para manter a humildade e que deveríamos carregá-los para o caixão. Mas não é assim. Mudar por dentro é uma obrigação. O tempo é curto e a obra deve ser concluída. E é essa obra a que resta para depois dos 70 ou 80 anos de vida que tivermos nesta terra.

Nasci de pelo duro e já é hora de me amansar... Bagual de doma tardia, mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca. “Bem-aventurados os mansos...”. Os mansos de coração conquistam a confiança. Como afirmou Francisco de Sales, “sede o mais doce que possais e recordai que se pegam mais moscas com uma gota de mel que com um barril de vinagre”.

A violência está firme e forte na vida cotidiana e cabe não ser cúmplice, mas inimigo dela, navegando contra a correnteza brutal da violência doméstica, no trabalho, eleitoral, no trânsito, política, econômica, nas relações internacionais. Hora de mudar de credo político. A violência não é a parteira da história. Crer de coração e mente na força do amor e não da violência.

A doçura que nasce da morte interior é que é eficaz, revolucionária. Tal doçura, que é muito mais que gentileza, é que muda realmente o mundo, e não a grosseria. A revolução da doçura é silenciosa, cotidiana, sem alarde nem publicidade. Acolher, então, a energia revolucionária desta verdade que está me comendo por dentro. Deixar ela me matar, para renascer, começar de novo como numa metamorfose de amor.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um gaúcho de Piratini em Roma


No meu coração existe sempre grande amor por Piratini. A minha infância e pré-adolescência foram marcadas positivamente pela Capital Farroupilha. Morando em Roma, ou visitando Paris, Praga, Budapeste, Jerusalém e outros lugares, quando perguntam de onde sou, respondo que sou de Piratini. Depois, preciso explicar que é uma cidade brasileira, do sul do Brasil, que não é perto de São Paulo ou do Rio de Janeiro.

Fiquei feliz quando estive em Capreira, ilha no norte da Sardenha onde está enterrado Garibaldi. “Somente eu e Garibaldi”, pensei, “tivemos a honra de conhecer tanto Piratini quanto esta magnífica ilha Sarda”.
Em Roma, gosto de passear pelas livrarias. Encontrei as Memórias Completas de Giuseppe Garibaldi. Folheando um dos três volumes, li as páginas onde Garibaldi descreve a sua chegada em Piratini. Fala da cidade com admiração. Garibaldi é um italiano que morou em Piratini e eu sou um piratiniense que estou morando na Itália. Fizemos viagens parecidas.

As raízes de uma pessoa são o seu coração. As minhas estão em Piratini, marca de fogo que recebi da história. Símbolo de liberdade, na geladeira da casa da tia Teresa o comunismo deu certo. A magia de Piratini não foi devorada pela história, ao contrário, Piratini continua alimentando e reproduzindo sempre a beleza dos ideais do passado e do presente.

Em Piratini conheci amizade, solidariedade, o humor sadio dos causos, o lúdico da vida cotidiana, a liberdade de sentir uma cidade como se fosse uma única família, com gente de sobrenomes diferentes.

Piratini é a minha carteira de identidade em qualquer lugar do mundo. Minha mãe, nos momentos de despedida, afirma sempre que “uma mãe não cria os filhos para si, mas para o mundo”. Palavras que sempre me ajudaram e até impediram lágrimas na rodoviária de Pelotas, onde pegava ônibus para Porto Alegre, avião para o Rio e de lá para Roma. A coragem de minha mãe ela bebeu na água da bica da história da Capital Farroupilha.

Piratini é como a minha mãe, não quer os filhos para si, mas os exporta para o mundo.
(Escrito em Roma, no dia 31/08/1991).

sábado, 8 de setembro de 2012

Eu sou do pampa

Estava em Gramado para apresentar um artigo aprovado para o encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. Em Gramado, bons restaurantes, gente simpática, cidade bonita. Gramado é bonita. Voltei de ônibus, torto por dentro de tanta curva. Em Porto Alegre, a situação começou a ficar plana. E como o plano me faz bem, gosto do plano.

De Porto Alegre para Santana do Livramento, sempre menos curvas, o plano do pampa, e como esse plano me faz bem, me acalma por dentro, coloca em equilíbrio, ajusta... Um encontro de geografias, a de fora com a da minha alma.

Mais do que do sul, eu sou do pampa. Gosto da serra, mas não sou da serra, eu sou do plano, eu sou do pampa. Gosto do mar, mas não sou do mar, eu sou do plano, eu sou do pampa.

O mar é bonito, mas prefiro o mar do pampa, de ondas verdes pelas quais posso caminhar sem que precise fazer milagres para isso.

As linhas distantes dos horizontes verdes do pampa sempre me emocionam... Meu olhar se perde nessas linhas enquanto minha alma, capturada por elas, voa verde livre, encantada de amor.

Mais do que do sul, eu sou do pampa, dessa geografia verde plana que vive fora e dentro de mim. Tenho a alma de pampa, não de serra nem de mar. No pampa, encontro o pampa que está dentro de mim, e assim suspiro, respiro aliviado, descansado.

O mundo é grande e bonito. Cada um tem o seu pedaço de mundo dentro de si, geografia da alma. O deserto é bonito, o mar, a serra... Eu gosto de tudo isso, viajo, visito, mas eu sou do pampa e o pampa é de mim, linda mulher, verde oliva, com suas breves curvas que me abraçam, acariciam sempre que volto sorrindo e contente para ela, sobre a qual me deito e mordo suas graminhas enquanto me embarro no seu borbulhante cheiro de terra.

Eu sou do pampa, o pampa é de mim. Eu sou do pampa desta fronteira, com cheiro de Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, com o cheiro da água dos Andes, com o sal do Atlântico e do Pacífico trazido pelos ventos do sul, América do Sul, para refrescar e realçar o perfume e o encanto do nosso pampa, amada terra que não espera nossa morte para nos abraçar, já nos descansa e acaricia em vida.

Eu sou do pampa, terra eterna, paterna, materna, fraterna, desde ontem e para sempre.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Irritação e tranquilidade


O cachorro do vizinho não parava de latir. Fiquei irritado. Quando eu era pequeno, não conseguia estudar por causa dos latidos de um cachorro. Na verdade, o cachorro que late apenas revela uma minha limitação, minha irritação devido aos seus latidos. Revela minha impaciência. Ora, se em vez de odiar o cachorro eu odiasse a irritação que seus latidos suscitam em mim, eu poderia aproveitar tal ocasião para mudar de vida.

No trânsito, uns vão lentamente pelas ruas, outros correm. Quando correm demais, eu buzino. Se vão lento demais, buzino também. Na verdade, também eles apenas manifestam uma minha limitação, minha impaciência.

O cachorro manifesta meu desejo de perfeição acústica, pela ausência dela, com os seus latidos. Os lentos e rápidos no trânsito manifestam meu desejo de perfeição no trânsito. O problema é que perfeição fora e dentro de nós não existe. Então, o melhor a fazer é combater minha irritação, por meio da calma, da luta pela conquista da serenidade, em vez de ficar odiando os latidos do cachorro, em vez de ficar buzinando para os lentos e os rápidos.

A ausência de perfeição gera irritação, e a irritação é uma forma grave de imperfeição. Então, se eu quero perfeição, deveria lutar contra minha irritação, sendo grato ao cachorro que late já que foi ele quem a revelou-me.

A cólera manifesta a vitória da irritação, que assumiu o controle de um pobre coração, então, cabe lutar contra a causa, a irritação, para evitar os sintomas. Seria possível permanecer indiferente aos motivos geradores de irritação? Possível ou não, penso que se trata de um bom desafio prático. E com preparação talvez seja mesmo possível. Até porque a irritação parece ser muito mais algo já presente em nós do que algo causado por algum motivo exterior. O motivo exterior apenas acorda a fera, que já estava lá, no canto escuro da caverna da alma, esperando por carne.

Então, cabe tentar matar a fera interior ou domesticá-la. Para começar tal trabalho, penso que o primeiro passo seja o reconhecimento profundo, sincero da existência do problema e o desejo também profundo, sincero, de não dar mais comida para as feras que se escondem nos cantos sombrios da nossa alma. Em outras palavras, é preciso ascese política (é sempre uma questão de gestão do poder), espiritual, psicológica, pessoal e coletiva.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Artigo sobre fronteiras

Artigo sobre fronteiras a partir da experiência das cidades-gêmeas de Rivera e Santana do Livramento (clique aqui).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O cansaço dos bons


A moça trabalhava com os pobres em uma favela. Para melhor continuar fazendo o que já fazia, resolveu ser policial. Lutava contra a corrupção dentro da polícia e dentro da favela, isso tudo em favor das pessoas da comunidade. Depois de anos de trabalho, cansou. O rapaz também trabalhava na favela, com a moça que se tornou policial. Ele escolheu sociologia. Estudou muito, publicou pesquisas, continuou trabalhando na favela. Depois de anos de trabalho, cansou. O “cansaço dos bons” é o cansaço dos que trabalham por causas sociais, via sociologia, psicologia, jornalismo, segurança pública, educação, políticas públicas. A causa é boa, mas cansa, ou pode cansar.

Recentemente, ouvi uma palestra de Roberto Almada, psiquiatra argentino, e li o que escreveu em seu site sobre o burn out, esgotamento profissional dos que se dedicam a causas sociais, pessoas que escolheram uma profissão como sendo também uma espécie de missão social. Esgotamento profissional de quem vive voltado para o social e seus conflitos cotidianos, dos que entraram no mundo do trabalho social para mudar o mundo. Estudaram, e muito, para mudar o mundo. Trabalharam, e muito, para mudar o mundo.

O problema é que, com o tempo, o trabalho continuava, mas o mundo parecia não mudar muito não. O que aumentava era o cansaço por dentro e por fora, “o cansaço dos bons”. E aqui entra o que Almada, citando alguns autores, chamou de “crise do realismo”, encontro até meio dramático com os próprios limites e com os escassos resultados. Descoberta dos limites das mudanças e da impotência dos sujeitos engajados em processos práticos de mudanças. Crise psicopolítica caracterizada pelo contato cru com os próprios limites. De tal crise pode-se sair desencantado, desanimado. “Bem, fomos enganados pelos nossos próprios ideais. Foi tudo uma ilusão”, pode-se concluir.

O que fazer? Pergunta que sempre volta em tantas situações. Tal crise ensina talvez que seja o momento de investir mais nas relações, superar a agitação interior, diminuir a quantidade de atividades, melhorar a qualidade do que se faz e, sobretudo, reconhecer o óbvio, que não somos Deus, que podemos fazer alguma coisa, mas não tudo.

Crise é crise, sempre dói, também quando descobrimos que somos mais formiga do que águia. A verdade dói, mas, também, liberta, fornece esperança, alegra. Uma formiga, pequena, fraca, mas feliz. Assim, com outras formigas, pode-se fazer alguma coisa. O poder das formigas está na unidade e no rumo: elas sabem o que querem, onde querem chegar, e agem juntas.

Ter um rumo coletivo compartilhado talvez seja uma necessidade. Quem fica sem rumo acaba se tornando niilista, talvez até sem saber o que isso seja. Um “ismo” bom é capaz de nos animar, de nos empolgar. Em meio a tanta corrupção, porcaria, com a sujeira dizendo que vai limpar o mal lavado, um ismo bom pode devolver a esperança, a vontade de lutar.

Pode ser um “ismo” antigo, como o cristianismo, mas precisa que seja com uma interpretação renovada, adaptada às exigências de hoje...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ativismo e tranquilidade


Ativismo significa excesso de atividades. Ativismo é opção ou condição? Escolhemos o ativismo ou ele nos é imposto, de fora para dentro?
Temos o ativismo do subempregado e o ativismo do hiperempregado. O ativismo do subempregado decorre da sua necessidade de sobrevivência econômica. Ele e ela fazem bicos aqui e ali, trabalham aqui, ali e acolá por necessidade econômica. Todavia, necessidade não é uma questão somente objetiva, mas, também, subjetiva. Se minha velha televisão funciona bem, mudar para a nova, lançamento, não é uma necessidade objetiva, mas um condicionamento consumista. Porém, mesmo cortando imposições falsamente necessárias, resta o fato de que muita gente é vitimada pelo ativismo por razões de subempregabilidade.

Vitimada pelo ativismo? Sim, o ativismo não faz bem para a saúde. É tão ruim quanto o tédio. Aliás, tem muito ativismo com cheiro de fuga do tédio. O cidadão enche-se de atividades, vive espumando feito liquidificador com água e, na volta ao estado de inércia, encontramos apenas água, sem fruta nenhuma na jarra do liquidificador.

O ativismo não faz bem para a saúde física e social. Estraga o corpo físico e o corpo social. Estraga coração, aumenta o estresse, estraga as relações sociais em casa (quando ainda existe uma casa, em sentido social, lar, família) e no trabalho.

Vivemos uma vida carregada de tarefas. Antes, bastava comprar velas novas para se ter luz à noite, em casa. Hoje, precisa ver se o celular funciona, se a televisão funciona, se a antena de televisão (sinal aberto ou fechado) funciona, se a assinatura foi paga, se isso e aquilo funcionam. A complexidade das exigências aumenta a quantidade de tarefas e desafios. O progresso tecnológico facilitou, mas, também, complicou nossas vidas. Comprar vela nova era mais fácil. A tarefa exigia vela e palitos de fósforo. As tarefas de hoje exigem muito mais.

Assim, mesmo cheios de luzes pelas casas, as do computador, da televisão, dos celulares, corremos o risco de vivermos meio apagados por dentro e por fora. Caras pálidas cansadas de guerra, cansadas de ativismo, chupadas por dentro e por fora pelo ativismo desta modernidade complexa, complicada.

Um mundo (moderno) cheio de atividades, complexas, a serem realizadas. Tais atividades complexas (a vela não vinha com manual de instruções para seu funcionamento) geralmente são, também, carregadas de possibilidades de conflito. As coisas estragam, ou não funcionam como deveriam. Eu chego a ter até medo de novas tecnologias. Facilitam, mas, também, complicam a vida. Mais os conflitos entre os seres humanos que escolhem e executam atividades.
Ativismo, conflitos, complexidade, estresse. Por isso, resistir e sobreviver, viver de forma amorosa e calma nessa agitação da moderna complexidade complicada.

Neste sábado vou para o campo, verdes pampas, pontos brancos, ovelhas, mais os cavalos, cachorros... Vou para descansar. E isso que vivo em uma cidade pequena... Vou e volto a pé para o trabalho. Mesmo assim, estou cansado, com saudades do vazio pleno do pampa, regenerador. Sonho com uma vida tranquila dentro de mim, que consiga permanecer tal mesmo em meio ao estresse exterior no qual vivemos. E o pampa é um dos remédios para essa minha tosse de agitação. Pampa, oração, amigos e refeição.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Fronteiras - significado e valor


As palavras não são neutras, mas carregadas de valor. E não me refiro somente aos adjetivos, mas, também, a alguns substantivos. Há substantivos que se tornam adjetivos.
Burguês, por exemplo, não é somente o profissional do burgo, o comerciante, mas, segundo determinados juízos de valor, o explorador da classe operária, ou o esnobe. Preguiça, outro exemplo, pode ser o bicho, ou o vício, pecado capital. Aliás, há mudanças de valor na palavra preguiça. Hoje, ao recomendar a seus pacientes que trabalhem menos, um cardiologista recomenda como remédio (valor) certa dose de preguiça curativa. As palavras mudam de significado e valor ao longo dos anos (tempo), e em determinados lugares (espaço). A partir de certas interpretações axiológicas sobre o pensamento de Maquiavel, sobrenome de Nicolau, pensador italiano, passa-se a usar maquiavelismo como sinônimo de malvadez. Depois, ao ser estudado pelo que foi, um “pensador do mal”, e não pelo que não foi, um “professor do mal”, passa-se a usar a expressão pensamento maquiaveliano, para diferenciar Maquiavel de maquiavélico.
O mesmo ocorre com a palavra fronteira.

Para o exilado político, passar a fronteira significa libertação. Para o contrabandista, fronteira significa aflição. A palavra fronteira não é uma palavra neutra. Ela suscita sentimentos e valores diferentes. Mas ela é, também, uma palavra descritiva, designa o lugar do início ou do fim: início de um Estado, ou fim de outro Estado. Numa linha visível ou imaginária de fronteira, um Estado termina e outro começa. Fronteira é o fim do mundo, para quem deixa o seu Estado de pertença; ou o início do mundo, para quem volta ao seu Estado de pertença. 

Fronteiras são constitutivas da vida social. Fronteiras entre tradição e modernidade; fronteiras entre grupos sociais de interesse variado. Fronteiras não significam necessariamente divisão, mas distinção. A última experiência humana será, certamente, uma experiência de fronteira, entre a vida e a morte.

A fronteira entre as cidades-gêmeas de Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguai) foi rota de fuga para a liberdade de cidadãos que fizeram oposição à ditadura militar instaurada na década de 1960, no Brasil. Para eles, tal fronteira foi o lugar da conquista da liberdade perdida no miolo do Estado.

Feias ou bonitas, com ou sem lanchonetes e lojinhas de artesanato, as fronteiras são instrumentos necessários de segurança. Somente num mundo sem pecado original (ou use a expressão que preferir para designar o mal moral, real, social) não haveria necessidade de fronteiras e de profissionais da segurança pública (civis e militares) em regiões de fronteira.

Do livro Fronteiras em Movimento - Livro Novo! (clique aqui)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Maquiavel não foi maquiavélico

Ano que vem teremos 500 anos de O Príncipe (escrito em 1513).
Já é hora de se separar o autor de interpretações redutivas sobre o autor.
Maquiavel não foi um "professor do mal", mas um "pensador do mal", nunca escreveu que fins justificam meios, nunca defendeu a manutenção do poder a qualquer custo.
É um autor complexo e, como autores complexos, vítima de simplificações redutivas e de traduções levianas.

sábado, 5 de maio de 2012

O céu sustenta a terra

“Temos consciência de que aqui não é o lugar para nos instalarmos cada vez melhor, numa existência o mais possível sem transtornos, mas que cada instante de nossa vida é um novo passo em direção a um outro reino, a uma outra terra, rumo a uma pátria onde possuiremos para sempre a felicidade puríssima e plena, que tanto desejamos?” (Chiara Lubich).

O transtorno é aborrecedor, dói na alma. Instalados e sem transtornos, quando os transtornos chegam, reclamamos, ficamos azedos por dentro e por fora. Grudamos em nossas pequenas conquistas, como se fossem boias de salvação... Mas é uma ilusão...

Grudados, não vamos a lugar nenhum. Os transtornos, então, servem para desinstalar o cristão de seus apegos. Desapego, pobreza, desgrudar-se do que passa pelo que não passa, Deus, sua cidade eterna, já, de forma relativa, nesta cidade.

“Quero viver uma vida tranquila, em paz, aposentado, sem preocupações, viajando pelo mundo ou descansando no conforto de minha casa, no aconchego dos familiares e amigos”, disse-me um amigo.

Sei lá, talvez isso seja difícil. Bem, penso que a felicidade consiste em reconhecer o transtorno, imprevisto, como útil, até necessário, para sacudir a alma por dentro e livrá-la de tantos apegos, até coisas boas, mas que, aos poucos, vão sufocando-a com o peso dos penduricalhos do comodismo.

Aprender a reconhecer a utilidade espiritual do transtorno, acolhê-lo com alegria, como dom de Deus, expressão do seu amor, não é punição. “Algo deu errado, estou com este problema”. Ninguém gosta de ser batido por dentro, como um grão... Mas as crostas da alma podem ser eliminadas também com pancadas de amor.

Transtornos trampolins, cotidianos, da alma para o céu, que sustenta a terra, nós, você, eu, nossos amigos e amigas...

Sim, é o céu que sustenta a terra, bola gigantesca que suavemente paira girando no ar. Não há fios, o céu sustenta a terra.

Então, confiar no céu. Estamos hoje na América, Europa, Ásia, África, ou na Oceania. O sexto continente é o céu, que sustenta a terra. De lá saímos e para lá voltaremos. A vida bem vivida, aqui, é a que já vai preparando para a última viagem, a mais significativa, e definitiva...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para o exterior


Estava com saudades do exterior...
Levantei da poltrona,
Caminhei 10 minutos,
E deixei o Brasil.
Placas de carros diferentes,
Outro idioma.
No Uruguai, comprei doce de leite.
Depois, voltei para o Brasil.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Minha filha e eu


Minha filha me deu conselhos, e bons.
Ela tem 14 anos...
Faz pouco, quase ontem,
Eu trocava suas fraldas.
Agora, ela me ajuda a trocar as minhas...
As fraldas das preocupações, aflições...
Eu sou pai, ela, filha...
Mas, de vez em quando,
Eu me torno filho dela, escuto, aprendo...
Consolo, mas, também, sou consolado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Consumo e depressão


Em uma revista, um médico explicava que não encontrar prazer no consumo poderia ser sinal de depressão. Eu não sinto prazer em mudar de geladeira, ou comprar um fogão, ou uma camisa nova, ou um par de tênis. Desde os tempos do Kichute, eu compro tênis novo somente quando o antigo morre.

Mudar de casa, reformar casa, procurar outra televisão são coisas que me estressam, não me dão prazer. Compro o que preciso, e mais ou menos vários meses depois que constato que de fato preciso de tal coisa. No caso dos tênis, o antigo separou a parte de baixo da de cima. Mesmo assim, consegui dar uma sobrevida de dois meses ao velho companheiro de quase 06 anos de caminhadas.

Nestes dias, estou meditando com as cartas que Padre Pio de Pietrelcina escrevia a quem lhe pedia ajuda na caminhada espiritual. Comprei estes epistolários na Itália, mas ainda não havia lido. Uma maravilha. Uma boa compra. Padre Pio explica que três são as características da união com Deus: admiração pela grandeza de Deus e seu amor e beleza infinitos; humildade, reconhecimento de nossa impotência, imperfeição, acompanhado pelo desejo de seguir em frente; desprezo pelas coisas desta terra, exceto as que podem ser úteis ao serviço a Deus.

O cristão sabe que o tesouro de sua vida é Cristo. Somente Cristo é capaz de lhe alegrar profundamente, e não uma geladeira nova. Não que a geladeira não seja importante. O cristão sabe que o tesouro de sua vida não está num shopping, mas nas comunidades com Cristo presente entre seus membros, Cristo presente em seus corações. Encontramos prazer em Cristo, fora dele, só cosquinha. Concordo com Paulo que dizia que fora de Cristo o resto é estrume. Concordo com Agostinho: “Tu, Deus, fizeste nosso coração para ti, e o nosso coração só tem paz quando repousa em ti”.

Paz e prazer o nosso coração encontra em Cristo, e não na linha branca com IPI reduzido, por mais que ela também seja importante, mas do ponto de vista da utilidade doméstica e não do prazer interior.

Um carro, por exemplo, é somente um eletrodoméstico, um liquidificador com rodinhas, e não um meio de acesso ao prazer espiritual, da alma. Carros mudam conceitos de liberdade? Carros estragam, às vezes uma semana depois de sair da loja, espécie de “templo automotivo” em nossas sociedades de consumo.

Teresa de Jesus, no livro Castelo Interior, escreveu sobre os gostos espirituais, toques do amor de Deus na alma que geram felicidade, e sobre a perda deles, os momentos de provação, aridez, deserto, tribulações da alma em sua transição pela terra. Saudades do céu... “De ti saímos, a ti é que voltamos, na caminhada que neste mundo damos”.

domingo, 25 de março de 2012

Alma não é branca, luto não é negro


Crescemos ouvindo piadas sobre negros, ou expressões como “coisa de negão”, ou músicas como “nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia...”.
Semana passada, via confissão, com um sacerdote, pedi perdão a Deus pelas piadinhas e comentários deste tipo que fiz ao longo da vida. São apenas brincadeiras? Pode ser, mas, sei lá, pode não ser...

Quando eu era pequeno, meu apelido, na minha amada terra natal, Piratini, era Negão, pois bastavam dois dias de verão, tomando banho de rio, para eu ficar com a pele marrom escuro. Minha filha mais nova também escurece após poucas horas de sol. Cores bonitas, pele morena.

Steven Biko, mártir sul-africano da luta dos negros (e de alguns brancos) contra o apartheid disse, certa vez, quando afirmaram que ele não era negro, mas marrom, que os brancos também não eram brancos, mas cor-de-rosa.

Fica até ridículo de escrever, de tão óbvio que é, mas mais ridículo do que o óbvio da frase é a rejeição secular de tal óbvio: a cor da pela não define a qualidade moral e intelectual do ser humano. Quantas décadas serão ainda necessárias para que tal obviedade passe a ser cultura comum da humanidade?

Podemos gostar ou não (eu não gosto) da política de “não boa vizinhança” do Estado de Israel, mas não gostar de judeus por serem judeus, é uma bobagem, assim como não gostar de negro, ou nordestinos, e o carretel da baboseira, infelizmente, é longo...

Uma de minhas filhas havia dormido algumas vezes na casa de uma amiga. Falava sobre ela, sobre tal amizade. Semanas depois, quando conheci a menina, vi que ela é negra. Fiquei muito contente, pois minha filha nunca havia dito nada sobre isso. Referia-se a ela simplesmente como uma amiga, sem nenhum comentário sobre a cor da pele dela.

Assim como hoje já temos uma geração “cárie zero”, de crianças que aprenderam desde sempre a prevenção, escovando os dentes e passando fio dental, quem sabe teremos um dia, no Brasil, uma geração “racismo zero”?

“Alma não é branca, luto não é negro” (Milton Nascimento). Ovelha negra não é ruim, e mercado sem lei não é negro, mas ilegal. Como sabemos, o grande Milton Nascimento foi adotado por uma família de brancos, que ouviram certamente comentários sobre isso. Fico imaginando o que pensava sua mãezinha quando ele, jovem, começou a tocar violão em família, cantando aquelas coisas maravilhosas que o Milton sabe fazer. Milton Nascimento, Djavan e tantos outros poetas que nos encantam quando cantam.

Brasil, história construída aos trancos e barrancos. A mestiçagem é um dado de fato, gostemos ou não dela ou da forma como se realizou. No Brasil, cada um carrega em si a raça do outro. Nossas diferenças não são de raça, mas de dosagem de raças, em cada um de nós.

sábado, 17 de março de 2012

O ateísmo não é a religião oficial da ciência


“Ele disse que religião é bobagem”, reclamou, chateada, a estudante de medicina, evangélica, de uma universidade brasileira. “Ora, assim como eu não faço pregação evangélica em sala de aula, ele também não deveria fazer cruzada ateísta em sala de aula. E quem tem uma religião não é burro”, concluiu. Concordo. Um professor não deveria tratar um fenômeno complexo (religião) de forma superficial, e não deveria desrespeitar o pluralismo de crenças que caracteriza o Brasil, pluralismo que é protegido constitucionalmente.

Sala de aula não é lugar de pregação, mas de análise, já explicou Max Weber faz tempo. Expor convicções é diferente de desqualificar opiniões alheias, o que tem cheiro até de crime contra a liberdade constitucional de expressão.

Pregação ateísta não cabe em uma universidade pluralista, assim como não cabe pregação confessionalista. Geralmente os ateus são mais perseguidos do que perseguidores. Porém, em algumas situações, a fogueira da intolerância parece que muda de lado.

Há quem confunda laicidade, de Estado laico, com laicismo. Laicidade é uma virtude da democracia, e laicismo é um vício contra a democracia. Estado Laico (laicidade) é aquele que não escolhe uma religião para ser a religião oficial do Estado.

O pressuposto do Estado Laico é a liberdade religiosa. A laicidade do Estado serve como pano de fundo para o exercício pluralista da escolha desta ou daquela religião. Ou seja, o Estado Laico não é contra as religiões, mas a favor da liberdade religiosa. A laicidade é a favor da liberdade religiosa. O laicismo é que é contra as religiões, contra a liberdade religiosa, contra a democracia.

O contrário do Estado Laico é o Estado Confessional, quando o Estado escolhe um credo religioso como credo oficial do Estado. Ora, se o Estado escolhesse o ateísmo como seu credo oficial, ele não seria mais laico, mas confessional. O mesmo vale para universidades e ciência, espaços, experiências de análise, não de intolerância crente ou ateísta.

O ateísmo não é a religião oficial da ciência. A ciência é um método, leigo, agnóstico de investigação empírica, e pode ser usada por crentes ou ateus, que se desapegam profissionalmente de seus valores, sem abrir mão deles.

Há bons pesquisadores ateus, e bons pesquisadores cristãos, espíritas, budistas, muçulmanos, deístas (como os maçons). A arrogância não é monopólio dos crentes. Cruzadas de ateus em nome de uma ciência que não é ciência são tão enfadonhas quanto cruzadas de crentes.

Em uma universidade leiga, religião não é para ser exaltada nem combatida, mas estudada, analisada como fenômeno social caracterizado pela complexidade. Para as ciências sociais, por exemplo, religião é fenômeno cultural complexo. Pode ser analisada do ponto de vista antropológico, político, sociológico, econômico.

“Religião e luta de classes”, título de um livro do sociólogo Otto Maduro. Religião para a conservação ou para a revolução. Nas relações internacionais, as religiões também são fenômenos complexos, na Índia ou no Irã, no Brasil ou na Tailândia, nas relações entre os Estados.

domingo, 11 de março de 2012

Professor quase por acaso


Nunca disse que queria ser professor. Não lembro de ter dito aos meus pais de querer ser professor. Lembro que, com 17 anos, entrei em contato com os problemas sociais, com a dramaticidade dos fatos sociais. Passei a estudar história do Brasil, e política, para tentar entender as causas dos problemas e as estratégias de mudança.

Nunca pensei em ser professor. Meu objetivo foi pesquisar, compreender o social para mudá-lo. Interpretar o mundo para transformá-lo. Interpretar o mundo para melhorá-lo, para todos os seres humanos, de todos os cantos do planeta, iguais do ponto de vista da dignidade.

Mas eu sou professor. Apresento-me assim, considero-me assim, apesar de nunca ter pensado em ensinar nada para ninguém. Para mim, ser professor significa compartilhar com outras pessoas, jovens e adultos, homens e mulheres, desta ou daquela crença, os métodos, resultados parciais, realizações práticas e motivações de minhas pesquisas. A sala de aula é o espaço para tal compartilhamento democrático, recíproco, entre todos. Professor é promotor desse compartilhamento intelectual, moral, espiritual, político dentro e fora de sala de aula.

Assim manifesto uma crença, na educação (entendida como compartilhamento democrático de métodos, motivações, resultados), instrumento de melhoramento da vida social, espiritual, moral, no âmbito intra e internacional.

Tornei-me antes sociólogo e teólogo da vida social. Depois, tornei-me, como consequência disso, professor. Ser professor é resultado de dois livrinhos. Encontrei a crença na educação para a mudança social em tais dois livrinhos, pequenos, mas grandes em valor quanto as montanhas andinas. Entraram em mim e nunca mais saíram, talvez, porque já estivessem lá dentro. Dois livros de Paulo Freire, Conscientização e Educação e Mudança.

Educação é para a mudança, para as reformas, para a integração entre povos e continentes diferentes. Estradas integram. Aviões, também. Educação não é açude, é rio de águas permanentemente em movimento, em direção ao mar. Alunos e professores navegam em tais rios.

Educação é movimento das águas do saber, conhecimento, desejos, projetos compartilhados. Se a sala de aula deixa de ser rio, vira poça, água parada, e seca.

Educação é relação entre quem sabe que não sabe tudo e quem sabe de saber alguma coisa” (Paulo Freire).

Educação para a compreensão de modos de vida diferentes, intra e internacionais.