quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como estudar e fazer Sociologia


Vejamos algumas possibilidades:

Opção 1 - Pode-se dar prioridade a conceitos, criando livros de sociologia que mais se parecem com manuais de decoreba. Definições disso e daquilo, que os estudantes decoram e esquecem. Sociologia contra a sociologia;

Opção 2 – Pode-se dar prioridade a escolas, ou correntes de pensamento, chamando-as de escola funcionalista, escola positivista, etc. O problema é que, muitas vezes, essas tais escolas representam um aglomerado de preconceitos, conjunto de juízos depreciativos das escolas que o autor do livro não aprecia. Sob um manto falsamente científico - que se diz descritivo, mas é muito mais depreciativo do que descritivo -, escreve-se horrores, por exemplo, sobre Durkheim e Comte, acusados de serem funcionalistas e positivistas, já que tais expressões são carregadas de juízos negativos, como se fossem palavrões. Sociologia contra a sociologia;

Opção 3 – Pode-se dar prioridade a autores, como o fez Raymond Aron no livro As Etapas do Pensamento Sociológico. Parte-se da biografia de cada autor e identifica-se sua trajetória investigativa. Os autores são analisados a partir da relação de cada um com a sociedade moderna, que é o grande fato social estudado pela sociologia, além de ser o ponto de partida da existência da sociologia, ciência que nasce e se desenvolve na sociedade moderna (gerada pelas revoluções francesa e industrial), para a compreensão e ordenamento de tal sociedade (compreendendo a sociologia como ciência descritiva, interpretativa, compreensiva e racionalmente prescritiva, e não somente explicativa);

Opção 4 – Pode-se dar prioridade aos fatos sociais. Em vez de se fazer uma espécie de mapeamento conceitual, coisa mais adequada à filosofia social do que à sociologia, faz-se um mapeamento temático, factual, cujo ponto de partida é a transformação do antigo regime em sociedade moderna, por meio das revoluções francesa e industrial (aqui citadas como fatos sociais que se tornaram referências paradigmáticas, sem, claro, descolarem-se da história).

A sociedade moderna é o grande fato permanentemente estudado pela sociologia, com seus desdobramentos fáticos no tempo e espaço. A opção 3 (autores) não incorre em mera ilustração biográfica se permanecer conectada à identificação dos fatos estudados pelos clássicos, como o fez Aron em seu livro já citado.

A sociologia clássica, que estuda os fundamentos da sociologia, tem por objetivo compreender a interpretação elaborada pelos fundadores da sociologia (sobretudo Comte, Marx, Durkheim e Weber) sobre a sociedade (moderna) que surge da transformação revolucionária (revolução em sentido sociológico) do antigo regime; e compreender o método usado pela sociologia no estudo de tal nova (em sentido cronológico, não moral) sociedade. Estuda a sociedade moderna por meio do estudo dos óculos hermenêuticos dos fundadores da sociologia.

Quando a sociologia abandona a centralidade dos fatos, ela retorna à metafísica social, ou seja, deixa de ser sociologia. Não sou contra a filosofia, nem contra a filosofia social, mas contra a opção metodológica de quem não identifica claramente os limites, as fronteiras metodológicas entre filosofia social e sociologia, entre método dedutivo e indutivo. Há pensadores que se dizem sociólogos que navegam em complexos mapeamentos conceituais caracterizados pela ausência (quase) absoluta de referência aos fatos. A troca dos fatos por conceitos divorciados dos fatos caracteriza o abandono prático da sociologia, retorno à metafísica.

Sem fatos não há sociologia. Fatos e hermenêutica dos fatos selecionados (paradigmas) caracteriza o fazer e estudar sociologia. Na sociologia clássica, a referência (e reverência) a Comte, Durkheim, Marx e Weber é, certamente, obrigatória, na compreensão da sociedade moderna por meio do método indutivo (positivista, compreensivo, dialético). Na sociologia contemporânea, a referência a autores como referência central esconde uma injustiça: por que citar este ou aquele autor num universo de centenas de autores? Um autor pode ser mais famoso do que outro pelas circunstâncias editoriais de seu país. Fama editorial e relevância sociológica não são expressões sinônimas.

Além disso, se, de um lado, a sociologia clássica é originária da Europa ocidental, hoje, há sociologia em todos os continentes. Há sociólogos profissionais na América do Sul, Central e do Norte; na África; Ásia; Austrália... A opção pela centralidade dos fatos, com seleção de fatos relevantes em cada um dos 05 continentes, permite uma compreensão menos europeísta da sociologia (contemporânea). O estudo da sociologia contemporânea pode ser feito pela identificação de sociologias temáticas, com seus microfatos específicos (turismo, esporte, moda, consumo, trabalho, religião) conectados ao macrofato permanente: desdobramentos da sociedade moderna no tempo e no espaço, nos cinco continentes.

Há sociólogos europeus, pouco habituados a reconhecer a existência de vida fora do planeta Europa, que referem-se a problemas típicos da Europa ocidental como se fossem problemas de relevância universal. Ou, então, consideram que tudo o que ocorreu ou ocorrerá na Europa, deverá ocorrer igualmente também no resto do mundo. Assim, estudar a Europa de hoje, de ontem e de amanhã seria conditio sine qua non para a compreensão de experiências de outros continentes.

Tal pressuposto da cognição primordial e permanente da Europa como condição para a compreensão do resto do mundo, deixa os sociólogos não-europeus num injusto estado intelectual de subordinação cognitiva. A descolonização da sociologia começaria pela mentalidade daqueles sociólogos não-europeus que conhecem muitos pensadores franceses, alemães, ingleses e muito pouco os fatos vitais de seus continentes de pertença. Tal sociologia extraterrestre (imposta ou escolhida) em relação ao continente de pertença do pesquisador não descolonizado é, também, sociologia contra a sociologia. Que a sociologia tenha se desenvolvido voltada para a Europa, é uma condição normal de nascimento, mas que não precisa se perpetuar, da mesma forma como a filha não permanece para sempre na casa da mãe.

A descolonização (ou normal crescimento) da sociologia torna-se possível por meio da identificação e análise de fatos relevantes em cada continente. Não se trata de ser contra a Europa, terra dos fundadores da sociologia, continente com problemas dramáticos. Trata-se de ser contra certa espécie de complexo de inferioridade intelectual que ainda vitima a mente de sociólogos pertencentes a outros continentes, mas que trabalham como se o resto do mundo fosse eterna filial da matriz Europa.

Seja qual for seu continente de pertença, o sociólogo exerce uma profissão mais próxima a do jornalista e médico do que a do metafísico do social, com seus conceitos que seriam “universalmente” válidos.

Assim como não há jornal sem fatos, não há sociologia sem fatos. A diferença é que o sociólogo, ao contrário do jornalista, permanece por anos com o mesmo fato. O prazo de validade dos fatos sociais é maior do que o prazo de validade dos fatos jornalísticos.

Em suma, a sociologia é factualista, não é metafísica social, não é opção por conceitos distantes dos fatos, mas ciência que estuda fatos caracterizados pela vitalidade, dramaticidade e até mesmo tragicidade. Fatos sociais que não são técnicos (mesmo se estudados com a ajuda de técnicas de pesquisa), mas vitais. Por isso, a relação com a medicina, ciência que, entre outras coisas, descreve patologias (mais ou menos graves) para tratá-las (prescrição).

O sociólogo não pode se dar ao luxo de apenas explicar os fatos sociais(dramáticos, patológicos ou trágicos). Precisa, também, identificar possibilidades racionais de tratamento. Não basta, por exemplo, explicar as diferenças entre sistema eleitoral proporcional e majoritário. É preciso, também, fazer um esforço de compreensão para tentar identificar com critérios racionais qual deles seria melhor para o Brasil de 2011 (reforma política). Assim, uns sustentarão que o melhor seria o sistema A; outros defenderão o sistema B. A opinião pública fará suas escolhas, e os deputados votarão em A ou B.

A sociologia é, antes de tudo, factualismo hermenêutico. Para a metafísica, factualismo é defeito. Para a sociologia, factualismo hermenêutico é um dever metodológico.

A sociologia estuda fatos (problemas) locais e internacionais para compreendê-los, explicá-los, tentando, também, identificar possibilidades de tratamento. Ciência descritiva, hermenêutica, prescritiva. Ciência do social cuja legitimidade é conquistada na sociedade (e não apenas entre seus pares, na academia) pela demonstração profissional de sua utilidade, prática, nos continentes de pertença dos pesquisadores. Fora disso, o que ocorre é retorno à metafísica, sociologia contra a sociologia.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Dona Zilda morreu como viveu


Érico Veríssimo, gaúcho cosmopolita, inventou a figura simpática de Rodrigo Cambará, célebre personagem de O Tempo e o Vento que dizia que não morreria deitado, mas lutando, peleando. E assim foi... A catarinense cosmopolita Zilda Arns, da pequena cidade de Forquilhinha, sul de Santa Catarina, também morreu como Rodrigo Cambará, em pé, peleando.

Conheci pessoalmente dona Zilda Arns em 2008. Fui seu colega na Cátedra Participação e Solidariedade, da Universidade do Sul de Santa Catarina. Conversamos novamente em junho de 2009, em Tubarão, numa reunião da Cátedra, minha última, pois, depois, mudei de cidade e universidade. Foi, também, sua última reunião na Cátedra, pois, como sabemos, dona Zilda também mudou de cidade.

Soube de sua morte enquanto viajava no interior de Santa Catarina, perto de Tubarão, por uma estrada de chão. A moça da rádio fazia propagandas de cremes e, da mesma forma como anunciava cosméticos, anunciou a morte de dona Zilda. Foi como se eu levasse um soco na boca do estômago. Ela deveria ter avisado que faria o anúncio de uma tragédia, mas não. Anunciou uma morte como quem vende sabão e, depois, continuou anunciando outras coisas, acho que era ração, revelando a miséria em que caiu certo tipo mercantilista de “jornalismo”, sem sentimentos, talvez até sem alma, ou com a alma perdida num canto da luta pela sobrevivência.

Recuperado do susto, imaginei que fosse notícia falsa. Como sabemos, não era. Fiquei muito triste ao pensar que aquela simpática senhora morreu com uma pedrada na cabeça. Para uma mulher tão sublime como dona Zilda talvez se esperasse uma morte mais doce, calma, embalada no canto das crianças que ela ajudou a salvar da morte. Ela poderia ter morrido com um último sorriso, seguido de um último suspiro, rodeada de crianças entre cantos e orações, poesias como a que outro nosso colega de Cátedra, Francisco Menna Barreto, fez e leu para ela durante um almoço num restaurante de Tubarão. Mas não. Ela morreu como Rodrigo Cambará, peleando. Sua peleia foi diferente, com armas diferentes, mas foi peleia.

Morreu na boa companhia dos soldados brasileiros, forças fardadas que são muito mais morais do que armadas, dedicadas aos direitos humanos, dos pobres, orgulho do Brasil Democrático.

Dona Zilda viveu heroicamente o amor, pelo amor, com o amor. Escolha pessoal de viver pelo amor social. Na Igreja Católica, quem vive heroicamente o amor é chamado de santo. Zilda Arns é uma santa moderna, casada, mãe, leiga católica, médica, cidadã brasileira inserida de forma inteligente em seu tempo.

Zildinha, mulher simples, tão simples e profunda como a poesia de Caymmi. Mulher corajosa, valente. Mulher realista na análise e idealista na ação. Mulher do céu, na terra, que voltou para sua pátria definitiva. Modelo de mulher, de católica. Alemãzinha de Forquilhinha, ela não desperdiçou sua vida. Ajudou a melhorar o mundo com sua sorridente determinação.

Dona Zilda enfrentou problemas sérios, feios, com oração e ação, movida pelo entusiasmo da esperança, o mesmo entusiasmo que move o coração dos nossos soldados brasileiros que partem em missão de paz.

A tragédia no Haiti não foi “castigo de Deus”, nem “vingança da natureza”. Foi, simplesmente, um fenômeno natural de trágicas consequências.
Temos Zilda! E a esperança continua viva, firme como o crucifixo que, surpreendentemente, permaneceu intacto em meio aos escombros da tragédia.
(publicado em 23/01/2010)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vento Minuano


Isso mesmo, o nome dele é Minuano. Massa de ar polar é o nome técnico usado por quem trabalha em telejornais. Para nós, aqui do sul, o nome dele é Vento Minuano!

PS - Um anônimo escreveu:
Vento Minuano é o nome dado a intensa corrente de ar que sopra preferencialmente do quadrante sul trazendo ar mais frio, de origem polar, para o Rio Grande do Sul durante os meses de inverno.

Eu prefiro chamá-lo de sopro-bênção que sai da boca de Deus refrescando a nossa alma, iluminando a nossa mente e aproximando os nossos corações.