domingo, 28 de agosto de 2011

Amor mundi


Vivo em um dos principais templos de consumo do Brasil, a fronteira com o Uruguai. Em Rivera, o queijo é bom e barato, o vinho é bom e barato, roupas são boas e baratas. Não sou contra isso. O problema é que um meio de vida (consumo) virou modelo de vida: sociedade de consumo.

Trocamos a religião tradicional pela religião do consumo. Esperamos nos religar ao mundo dos mistérios e significados por meio do ato de consumir. Paróquias foram trocadas por lojas, de consumo, novo templo moderno destes nossos tempos. Aliás, como definir este nosso tempo? Nietzsche chamou isso de niilismo; Bauman o chama de modernidade líquida; Bento XVI o chama de relativismo; para Durkheim, é sociedade anômica. Mais a velha luta de classes (Marx), que continua, mesmo se com nomes diferentes.

No fim do milênio passado, foi anunciado, triunfalmente, o fim da história (Fukuyama). Teria chegado ao fim “A era dos extremos” (Hobsbawm). Pelo que parece, caímos em um outro extremo, de violência silenciosa, mas também ela brutal, exércitos de drogados consumidos pelo tédio. Ricos e pobres. Criminalidade e banalidade. A era da Náusea (Sartre), do tédio, da Noia (Moravia). “Ufa, que saudades da revolução! Ao menos nela não havia tédio”, comentou o revolucionário aposentado, enquanto escolhia um novo par de pantufas. “Não vou morrer deitado”, afirmou Rodrigo Cambará. Hoje, morreria de tédio.

Sem revolução, nem teocracia, onde Deus é usado como cabo-eleitoral por aventureiros desse ou daquele agrupamento em luta contra a sociedade líquida. Solução? Seria a velha fuga mundi, em sua versão country, fuga para o sítio? Ou fuga para o paraíso terrestre da praia quase deserta?

“Que fazer?”, perguntou-se Lênin em outubro de 1901. Mas ele tinha um rumo. Rumo errado? Bem, um barco sem rumo, em alto-mar, é o rumo sem rumo da nossa sociedade líquida. Outra hipótese? “Sobreviver e torcer para que a morte não tarde”, diria um niilista desencantado até com o próprio niilismo. A idealização da morte como libertação é tão antiga quanto a corrupção. Antiga e atual. A morte, porém, é certa, para todos. E o paraíso não é anômico.

O desânimo, ao menos segundo o cristianismo, não é um modo correto de se viver. É vício, e não virtude (vício da acídia, impropriamente chamado por alguns de preguiça). Vícios não abrem caminho para o céu, mas para o inferno, niilismo terrestre e eterno relativismo. Inferno como versão definitiva da sociedade líquida.

O que dizer aos filhos? Pedir desculpas por tê-los colocado no mundo? Não é a minha opinião. Melhor amar, às vezes da mesma forma como o palhaço que continua trabalhando até quando está sem vontade. Uma esperançazinha modesta, discreta, realista, pequena já é esperança.

Esperança, hoje, é joia rara. Fé, esperança, caridade. Fé eu tenho, ganhei de graça; amar eu tento amar, até porque gosto mais de amar do que de odiar; esperar é mais difícil, nestes tempos inglórios de anomia.

Amar-cuidar deste mundo sociológico que criamos e no qual vivemos, não obstante ele se pareça, às vezes, como aquela moça, na festa, que ninguém quis tirar para dançar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Campos que encantam (Fábio R. Bento)


O verde do pampa
Tapete de veludo
Ondas, horizontes
Oceano macanudo

Estradas longas
Estradas desertas
Estradas sem fim
Estradas abertas

O cardeal voltou
Passeia de terno
Alegria da alma
Do guri eterno

Cardeais de cristas que cantam
Pretas, vermelhas
Voando nas almas que encantam


Fronteira verde
Da paz possível
Fronteira aberta
Da vida sem tramela

O vermelho voltou
Cristas em festa
Alegra a alma
Retira as arestas

Ainda com medo
O amarelo espera
Escondido, espia
Ao redor duma tapera

Cardeais de cristas que cantam
Pretas, vermelhas.
Voando nas almas que encantam

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Paternidade


“O amor de mãe é sublime, divino” e tantas outras coisas mais, dizem alguns poetas. E o amor de pai, seria menor? Não. São amores diferentes, com expressões diferentes em tempos e lugares diferentes. Claro que há homens que nem os alimentos asseguram aos filhos. Mas há, também, mães que apagam cigarros nos bracinhos dos filhos.

“Meu pai não me amava, não me dava carinho”, disse-me, uma vez, uma aluna. Ora, ela confundiu as coisas. E se, para ele, amar significasse não dar carinho? “Não dá muito carinho para teus filhos, para não estragar. Carinho é coisa de mulher, de mãe. Pai tem que dar dinheiro e educação”, pensavam, num passado não tão distante, alguns pais.

“Eu até que gostaria de ter abraçado meus filhos, mas fui educado a pensar que isso poderia lhes fazer mal”, disse-me um pai da velha guarda. Educação, para tais pais, significava preparar os filhos para o rigor da vida, para os conflitos tipicamente extradomésticos. “Carinho amolece a alma, não faz bem”, pensavam alguns. Em suma, era como entendiam o amor. Não davam carinho porque amavam, porque compreendiam o amor como educação ao rigor.

As coisas mudaram a partir da chegada das mulheres no trabalho extradoméstico, quando elas começaram a fazer coisa de homem. Mulheres fazendo coisas de homem; e homens que começam a fazer coisas de mulher: lavar louça, cozinhar e dar carinho aos filhos. Democratização das tarefas domésticas e extradomésticas. Nova compreensão dos papeis desempenhados por pais e mães no teatro da vida contemporânea.

Assim, hoje, quando há uma separação conjugal, os filhos não necessariamente ficam com as mães. “Eu cuidei com dedicação, não aceito que me digam que só posso ver meu filho uma vez por semana”, reclamam, com razão, os pais presentes na vida dos filhos, vitimados, agora, por aquelas rancorosas ex-esposas que usam os filhos para se vingarem dos ex-maridos. Claro que há muitos homens ausentes, repito, que nem os alimentos asseguram aos filhos. Bem, eles não sabem o que estão perdendo. Uma pena, perda muito mais para eles do que para seus filhos. Mas, no caso dos pais presentes, a avaliação deveria ser diferente.

Quando eu casei, não morria de vontade de ter filhos. Gostava da minha vida a dois, com minha esposa. Na praia, eu via, horrorizado, aqueles pais que corriam de lá para cá, tirando baganas de cigarro da boca de seus sorridentes nenês, que engatinhavam pela areia comendo de tudo. Minha esposa, ao contrário, queria porque queria ser mãe. Bem, por causa dela, aceitei o que para mim significava o sacrifício do meu eu por uma causa maior.

Ainda bem que mudei de ideia. Nossas filhas são a melhor experiência que já tive em toda a minha vida. “A paternidade é sublime, divina”, digo eu, hoje. “Olha”, falei para a minha esposa, “tu também deve dizer não, para que elas não cresçam com a ideia de que eu sou o que diz não e tu a que diz sim”. Em suma, compartilhamos o lado doce e o lado rigoroso da educação, do amor que cuida.

Quanto ao carinho, não tenho escrúpulos. Abraço e beijo nossas filhas várias vezes por dia. Vai ver que é por isso que, quando faço uma cara feia, elas logo, logo me entendem. Em suma, o rigor bom exige carinho, afeto como pressuposto obrigatório do amor.

A maternidade é linda, maravilhosa, mas a nossa experiência de paternidade também não é pouca coisa não.
Feliz dia dos pais!