sábado, 30 de julho de 2011

Refeito pelo pampa


Um sábado de julho de 2011. Por volta das 14h00, eu e minha filha mais velha chegamos na Estância Cerros Verdes. “Fábio, como você está cansado”, notou a proprietária, nossa amiga. De fato, já estava até com casquinhas nas sobrancelhas, sintoma, para mim, de estresse. Começava meu primeiro dia de exercício na arte de descansar, e tinha somente dois dias. Deixamos as poucas bagagens nos quartos e fui caminhar sozinho no campo.

Pampa, verde, horizontes largos, silêncio, silêncio fora de mim. Dentro, porém, barulho de reclamação, raiva, ira, chateação com isso e aquilo, beiços da alma engordados pelo cansaço. Afinal, quem participa das coisas que acontecem ao redor, se incomoda, além, também, de se alegrar. O cansaço parece amplificar as vozes da lamentação e calar as da alegria. O cansaço alimenta o mau humor.

No pampa, ovelhas e seus cordeirinhos, mamando... Cavalos me olhavam com cara de dúvida: “Será que ele vai nos encilhar?”. “Cultura gaúcha”, pensei, “é o que colocamos sobre o campo, além de ovelhas e cavalos... Os causos, histórias”. Caminhava, movido, talvez, pela esperança de me livrar, ali, no pampa, de mim mesmo. Pampa fornalha verde que consome tristezas e nos devolve limpinhos por dentro para a confusão da civilização. O campo, antes palco de batalhas, agora é lugar de paz, ao menos para nós, combatentes urbanos nesta modernidade líquida.

Caminhava, agora, ao lado da sanga, perto de uma pequena cachoeira. A música bonita da natureza. Penso no meu amor pelo livro O Príncipe, e me envergonho: “Será que eu amo mais O Príncipe, de Maquiavel, do que os Evangelhos, de Jesus Cristo?”. “Mas não”, continuei, “as contradições, neste caso, são falsas. O Príncipe é a explicação de uma parte do evangelho, explicação leiga da virtude cristã, realista, da prudência”.

Continuei caminhando ao lado da sanga. A reflexão sobre o cristianismo realista animou minha mente, mas não libertou minha alma da tristeza. Tentei uma oração: “... fazei que eu procure mais, consolar que ser consolado...”. Não funcionou.

Depois, ainda às margens da sanga, lembrei de outra oração: “Tenho um só esposo sobre a terra, Jesus crucificado e abandonado... Nele, o paraíso, com a Trindade, e a terra, com a humanidade...” (Chiara Lubich). Foi como tirar com a mão. Aquela oração consolou-me, explicou o que eu vivia, conectou-me com o mundo eterno da pureza divina, no santuário verde do pampa. A sanga límpida do espírito movimentava-se agora, novamente, dentro de mim. “Puxa, eu devo ser mesmo focolarino. Gaúcho, pampeiro, e focolarino, de Chiara”, pensei, já com o sorriso de menino de volta no lado de dentro do peito. Chiara, de Trento, e Fábio, de Piratini, juntos, no pampa, perto da sanga dos Cerros Verdes.

Na estância, dois cavalos encilhados aguardavam por mim e minha filha. Passeamos, conversamos. Depois do jantar, saí para dizer o terço do Rosário. No silêncio noturno do pampa, eu, as orações, e três cachorros amigos: o Gaudério, o Ajudante e o Topo. Pêlos diferentes de três cachorros companheiros, também nas orações.

Dois dias depois, voltei feliz para casa, refeito no santuário verde do pampa, onde encontrei velhos e novos amigos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Coisas da fronteira...


Numa estrada no norte do Uruguai,
Um javali viaja no lado de fora
De uma Brasília amarela...

sábado, 9 de julho de 2011

Friófilos


Quando vou a Manaus, sei que vou encontrar, por lá, tempo quente, mesmo se já me surpreendi algumas vezes, em meio ao Rio Amazonas, de barco, à noite, com certo vento frio. Redes e pessoas cobertas com lençol e até uma mantinha. Mas sabemos que em Manaus faz calor, assim como aqui, no Sul do Brasil, em julho, faz frio.

Frio, em julho, no Sul do Brasil, é normal. Não é preciso abrir o Google para saber disso. Anormal é ouvir tanta reclamação, em julho, no Sul do Brasil, sobre o frio.

Que um carioca reclame do frio, é normal. Cariocas que estudam ou vivem no Sul do Brasil às vezes reclamam, e isso é normal. Meio estranho ouvir gaúchos, catarinenses e paranaenses de nascimento reclamando do frio. Reclamar é um direito humano, mas reclamar de quem reclama demais também é um direito da oposição aos reclamantes.

Quando morávamos em Tubarão (SC), em fevereiro subíamos a Serra do Rio do Rastro, um dos lugares do mundo que eu mais amo. Em Bom Jardim da Serra o ar é tão bom que se fosse engarrafado venderia muito. No litoral catarinense, mais de 30 graus. Duas horas depois, no alto da Serra, à noite, a temperatura ia para menos de 10 graus. Uma vez, em fevereiro, dormimos com a calefação ligada num hotel na cidade de São Joaquim. A serra catarinense, em julho, não é um lugar apropriado para gente sensível demais ao frio.

Bom Jardim, Urupema, São Joaquim são cidades amadas pelos friófilos. Aqui em Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, o frio mostra toda a sua beleza em julho. Beleza! Sim, beleza! O frio não é “castigo” da natureza nem de Deus, como lemos, infelizmente, em alguns jornais e ouvimos em telejornais. Aliás, telejornais deveriam ser um pouco mais isentos. Eles mais julgam o tempo do que o descrevem.

Se há pessoas que morrem de frio, no inverno, por morarem nas ruas, a culpa não é do frio, mas do sistema social. Não há calefação nas casas, e isso é outro problema nosso, e não do frio. Quantos morrem de calor na França, na Itália, EUA durante o verão de lá?

O frio é amado por gaúchos, catarinenses, paranaenses, exceto pelos sensíveis demais às variações térmicas, que passam o inverno aporrinhando com suas constantes lamentações. Em Curitiba, faz frio, às vezes, até no verão. A cultura do Sul não existiria se não houvesse o frio, o inverno.

A cidade de Gramado, por exemplo, vive do frio. Santa cidade! Até no verão Gramado usufrui do frio, com um Natal Luz que, mesmo sendo no verão, fica meio com cara de inverno. Frio combina com roupas de lã, lareira, sopas, chocolate quente, chimarrão (mas o mate é bom sempre), botas, chapéus (no verão, mudo para o chapéu Panamá que, aliás, é do Equador). O frio é lindo, torna o céu mais azul, aproxima as pessoas, gera mais abraços, até casais brigados fazem as pazes no inverno para dormirem entrelaçados, estufa humana de almas reaproximadas pelo inverno.

O frio gela o corpo, mas aquece os corações. O frio instiga a mente, lemos e estudamos melhor no inverno. E, depois, o frio do Sul do Brasil, por comparação com outras partes do mundo, nem é tão frio assim, exceto as serras gaúcha e catarinense. Frio é artigo de luxo dos homens e das mulheres do Sul do Brasil.

Amigo frio, seja bem-vindo, nós, friófilos, como já diz a palavra, te amamos. E fique firme ao menos até setembro, pois a Semana Farroupilha fica mais charmosa com você, na moldura do nosso velho, sempre novo, vento Minuano, o sopro-bênção que sai da boca de Deus refrescando a nossa alma, iluminando a nossa mente e aproximando os nossos corações.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sobre folhas e vento


Voltando de minha aula de ginástica com dança, notei, em uma rua de Rivera, que o vento havia derrubado a última folha seca de uma árvore. O espelho da aula de dança era agora aquela árvore, que refletia a minha alma, sem folhas. Sentir-se como uma árvore de folhas secas, ou sem folhas, é algo que acontece de vez em quando. Dá vontade de reclamar. Para onde foram as folhas? A nudez da alma, a nudez da árvore. Vazio, meio envergonhado, sem nada, despido, galhos entrelaçados sem folhas, frutos, flores.

Lembrei-me de Igino Giordani (1894-1980). Para ele, a perda das folhas faz parte do belo (mesmo se duro) caminho em direção à liberdade. Libertar-se da ingratidão e da adulação. Libertar-se de si mesmo, das próprias folhas, das coisas que julgamos importantes somente porque próximas ao nosso eu. O eu, sempre o eu. As coisas que eu faço, que considero vitais, mesmo se, em geral, não o são. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, sobretudo o nosso eu, e “é o nosso eu que deve morrer mesmo se gostaria sempre de prevalecer” (Giordani). O eu museu de folhas secas.

“Vaidade das vaidades” pensar que somos “relevantes”, necessários. O destino das estátuas de praça é virar depósito de excrementos. A lição das pombas! Amigos budistas empregam a palavra impermanência. Tudo é impermanente, exceto o amor, razão de nossa vida nesta vida e passaporte de ingresso na cidadania futura. Por isso, bem-vindo seja o vento da purificação, que liberta das folhas secas as árvores do jardim da nossa alma...