quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pais e filhos – muito mais que biologia


Minha filha adolescente ficou com o olho vermelho. Problemas com a lente de contacto. O médico disse que ela estava com uma úlcera no olho. Ficou uma semana fazendo curativos. Hoje, no consultório médico, vi que estava bem melhor. “Falta pouco”, disse-nos o médico.

Passei mal alguns dias. O olho machucado de nossa filha doía forte no meu coração, no coração de minha esposa. Procuramos o médico e não deixamos de recorrer à oração. “Santa Luzia, rogai por nós, por nossa filha e por todas as crianças do mundo”.

Esta experiência reforçou uma minha convicção: paternidade e maternidade são experiências muito mais sociológicas do que biológicas. Aliás, existiria uma primazia moral da biologia (pais naturais) em relação aos pais sociológicos (ou adotivos)? O sangue valeria mais do que o coração? Cuidar todos os dias e sofrer um pouco mais, em alguns momentos particulares, não é muito fácil. Custa, às vezes, algumas gotas de sangue da alma. Quem ama cuida. Amar e cuidar... Amar é cuidar.

“O filho é meu, fui eu quem botou no mundo, saiu do meu útero”, gritava a mãe biológica. Não adiantou. O juiz deixou a criança com a família adotiva, já que a mãe “natural” (palavra carregada de ambiguidades) havia deixado o menino em situação de quase morte por três vezes, além de ter queimado seu braço com o cigarro duas vezes.

Depois do Estatuto da Criança e do Adolescente, a supremacia do sangue (útero, espermatozoide) foi trocada pela supremacia do amor. Ainda bem, para o bem-estar das crianças. Tal estatuto permitiu aos juízes da infância o poder de decidir pelo bem-estar da criança, vencendo a ideologia da superioridade intrínseca do útero e do espermatozoide sobre o amor. A ditadura do pátrio poder biológico foi derrubada. Hoje, vigora o poder familiar de quem ama, cuida.

Quem ensina a amar-cuidar não é o útero, nem o espermatozoide, ou o sangue, mas o coração, entendido como centro mental e afetivo do ser humano. A troca da ideologia da supremacia da biologia pela ética do amor está gerando benefícios sociais diretos para as crianças e sociedade, corrigindo a injusta consideração dos pais sociológicos (adotivos) como pais de segunda categoria.

Claro que há pais e mães que amam seus filhos desde o útero. Desde o encontro entre óvulo e espermatozoide. O amor, porém, não vem do sangue (“sangue do meu sangue!”), mas do centro afetivo e efetivo do ser humano (coração), com sua capacidade sociológica, psicológica e espiritual de amar, gerar e ser gerado cotidianamente, concretamente, no tempo (história) e espaço (geográfico). Se o amor viesse do sangue, nenhuma mãe abandonaria no lixo um recém-nascido.

Penso que em toda forma de amor está contida uma opção pela adoção, até mesmo em relação aos filhos e filhas de origem biológica. Amar é cuidar. Cuidar do outro, cuidar dos pais, dos amigos. Cuidar da própria cidade, cuidar do mundo. Cuidar do outro como eu gostaria de ser cuidado por ele, por ela.

Dos leitores (via e-mail):
Fábio, gostei, porque eu amo e cuido daquele que veio se encontrar comigo pelo destino da vida. Obrigado por me lembrar disso. N.

Muito bonito. Escrevi um artigo sobre as peculiaridades do desenvolvimento psicológico de filhos adotados. Nele, termino com a mesma ideia que dizes no texto: “Toda pessoa é adotada. A concepção e o nascimento biológico não garantem o nascimento psíquico”. Abraços. Marina.

Que lindo Fábio! Emocionante! Adorei e concordo plenamente. Aliás, como diz Caetano: “quando a gente gosta, é claro que a gente cuida!”. Abração. Patrícia.

Sempre te admiro mais e mais e mais e mais... Obrigada. Beijos. Cacá.

Lindo! Inara.

Professor Fábio. Boa tarde. Muito bonito este seu texto, parabéns. Abraços. G.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Crítica da razão rasa - esquiadores e mergulhadores do saber


Há três lugares importantes na vida de um profissional-intelectual: a biblioteca, a praça e o café. Na biblioteca, estudamos; na praça, lutamos; no café, opinamos sem necessidade de notas de rodapé. A biblioteca pode ser pública ou privada (ou virtual). A sala de aula é sua companheira inseparável. A praça é o lugar da manifestação pública (também pode ser virtual, como blogs e assemelhados). No café, há, também, boas opiniões, mas, em geral, é o lugar dos despropósitos perdoáveis. “O café exclui a culpa”, diria um moralista sobre as opiniões líquidas ali emitidas. Sala de aula (e biblioteca) não é café, nem boteco. Uma opinião emitida em aula é diferente de uma opinião de café. Precisa de fundamentos. A lógica da aula é diferente da do café e da praça.

Uma universitária afirmou que “a ONU é uma bobagem”. Trata-se de uma boa estudante. Ela estava nervosa, meio indignada com a ONU. Expliquei-lhe que tratasse de analisar o conteúdo de seu julgamento. A ONU é expressão de uma necessidade de representação internacional. Necessidade de representação para que a ordem internacional seja mais ordem que desordem. Tal necessidade de representação assumiu uma forma concreta de representação que, talvez, tenha sido superada. A ONU e, sobretudo, seu Conselho de Segurança talvez assemelhem a uma roupa de criança com a qual se quer vestir um adolescente. Os instrumentos de representação internacional (roupa) não seriam mais adequados porque as características da representação internacional mudaram. A criança tornou-se um adolescente, mas esqueceram de usar roupas adequadas à sua nova idade (e tamanho). Ao dizer que “a ONU é uma bobagem”, a estudante jogou pela janela a água suja (roupa inadequada) com a necessidade de representação (a criança crescida que vestia a roupa apertada).

Uma das características do ser humano é sua triste mania de julgar mal. Costumamos avaliar o passado com os óculos do presente. Assim, idade média seria idade “das trevas”. Prefiro o método da sociologia compreensiva do velho (e sempre atual) Max Weber: identificar e compreender o significado das ações sociais no contexto em que foram realizadas. Não significa afirmar que tudo o que foi feito foi bem feito. Significa identificar o significado do que foi feito segundo quem fez. Compreender é o papel da ciência. Somente após compreender (cognição) podemos avaliar. Não penso que avaliar seja um defeito, mas uma qualidade do ser humano, desde que julguemos somente após descrever e compreender. A Inquisição foi um instrumento usado pelo Estado na manutenção da ordem social (segurança pública) numa época em que não havia a separação entre política e religião. “Não! Ela foi uma barbaridade!”. Sim, mas no que consiste tal barbaridade? O que nos autoriza a julgar o passado? Os óculos do presente? Aliás, do ponto de vista da segurança ambiental, recentemente furamos o planeta, e ainda não recolhemos todo o petróleo que vazou.

A sociologia estuda fatos sociais para compreender o significado intrafísico, profundo, da substância material (fundamentos dos fatos). Ela não é uma ciência rasa. A razão rasa não mergulha nas camadas mais profundas (intrafísica) dos fatos.

As opiniões da razão rasa fazem espuma e barulho. São como esquiadores brincando na superfície. Os mergulhadores, ao contrário, trazem do silêncio do fundo do mar as suas descobertas. Hoje, há mais esquiadores do que mergulhadores. Há mais barulho, estardalhaço, informação do que conhecimento. Ainda bem que temos os clássicos, mergulhadores sempre atuais neste mundo de saber espumoso, barulhento, superficial onde vivemos.

(Publicado em 01 de agosto de 2010)