sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pampa, deserto e cidade


Não conheço desertos, somente vi de longe, do avião. Conheci dunas, longas. Deserto é o lugar do vazio, mas nem tanto. Há criaturas que vivem no deserto. Seres humanos acostumados em cidades não sabem viver no deserto. Caravanas de beduínos vivem atravessando desertos, como a nossa alma, beduína, que anda pelo deserto, sobrevivendo graças aos oásis. Deserto é lugar de aridez, solidão, vazio, dor e morte, para quem é estrangeiro no deserto.

No pampa profundo, na fronteira entre Brasil e Uruguai, experimentei certo pavor: “E se eu ficasse aqui, sozinho, sem casa nem comunicação (o celular não pegava), bem no meio do pampa?”. Enquanto percorria aquele belo ambiente, a contemplação de tal beleza misturava-se ao medo de ficar ali sozinho. Depois, em casa, abracei minhas filhas e telefonei para minha esposa, que viajara a trabalho. Matei saudades!

Cidades e famílias, por mais violentas que às vezes sejam, continuam sendo sistemas de proteção do indivíduo: padaria, supermercado, açougue, fruteira, farmácia, hospital, escola... No deserto não há nada disso, nas cidades, sim. Mas há, também, ameaças. Triste ser miserável nas cidades: tudo ali, mas sem poder usar. Pobres contemplam as janelas dos açougues, mas não compram. Sonham com filé mignon, comem pão e arroz. Mesmo assim, é melhor ser pobre, com outros pobres, numa cidade do que ser rico perdido sozinho num deserto.

Deserto e cidade; deserto e comunidade. Deus, que é Deus, não vive sozinho, mas numa comunidade, Trindade, Cidade de Deus. Quis os seres humanos para aumentar sua comunicação. Ainda bem para nós! Caso contrário, não existiríamos. Como escreveu Chardin, “não somos átomos perdidos no universo”.

Deserto é lugar inóspito para nós. Deserto é bom professor, lições sobre a interdependência entre os seres humanos. Sapateiros precisam de leiteiros, que precisam de sapateiros, que precisam de médicos, que precisam de professores, que precisam de alunos, que precisam de pais, que precisam de filhos, que precisam de amigos, que precisam de casas, água, energia.

No deserto descobre-se a angústia da solidão, o medo da morte e a necessidade da comunidade, das relações humanas, para alimentar corpo e alma.

Alma beduína no deserto. Aridez, medo, sensação de nulidade, impotência profunda como o medo. Vazio, nada... Alma que se abre para os outros, sente falta deles, encontra-os. Vínculos de amizade. Aquilo que está no meio de nós e que acaba por entrar em nós, o amor, fazendo com que sintamos saudades uns dos outros.

O deserto e a cidade, a comunidade. No deserto descobrimos que precisamos da comunidade, centro da vida humana, amor-comunidade que personaliza, fortalece, alimenta.

Sozinho no pampa, mas, depois, encontro minhas filhas e esposa, meus amigos, numa casa de campanha. Comunhão na roda de chimarrão, e no churrasco de fogo de chão.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A verdadeira guerra santa


Quando reagimos ao mal com o mal, alimentamos o mal que queremos combater, em vez de combatê-lo, tornando-nos cúmplices pelo emprego do método errado de resposta. É isso que o mal quer de nós: suscitar o mal em nós, para alimentar-se dele.

O método para derrotar o mal é o do amor, responder – quando for o caso – amando. Rejeitar o mal por meio do amor.

Foi o método empregado por Jesus e sua santíssima, belíssima e amorosa mãe, nossa mãe e amiga. É o método que podemos empregar se queremos eficácia cristã, no trabalho, na política e nas salas dos tribunais.

Responder ao ódio com ódio é fácil. Empregar o amor é difícil, muito difícil, mas é em tal método de resposta que está a verdadeira guerra santa, eficaz, do ponto de vista cristão.

O amor, ao contrário do que possa parecer, continua sendo muito mais revolucionário do que o ódio, como podemos ver na vida histórica de Jesus, Gandhi, Mandela... Muito mais eficaz do ponto de vista da durabilidade moral e espiritual de suas realizações.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Perfumes


As flores manifestam não somente a beleza, mas, também, o perfume de Deus, que não é inodoro.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Amor é coisa de homem


“Justiça é coisa de homem. Amor, coisa de mulher”. O debate sobre coisa de homem e coisa de mulher está sempre presente nas praças da nossa alma. Defesas acirradas de posições entre os anjos, diabos e fantasmas que povoam os vastos territórios do nosso mundo interior.

Ao longo dos anos parece que a justiça encantou-me mais do que o amor. A luta pela justiça exige virilidade, coisa de macho! Diferente desse negócio meio água com açúcar chamado amor, ou caridade, esmolinha praticada por aqueles que com uma mão devolvem em forma de caridade, esmola, a mais-valia retirada dos seus empregados com a outra.

A justiça é guerreira, exige coragem. O problema é que a nossa justiça, no embalo cego do sentimentalismo, pode ser injusta. Recentemente um amigo me fez ver que nem sempre a minha justiça é muito justa, mas provocadora de sofrimento em pessoas que me querem bem. O interessante é que tal conversa desencadeou a rolagem de um filme em que parte do meu eu mostrava a mim mesmo os episódios em que errei no método e/ou conteúdo, cenas de justiça injusta.

“Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia”. Alguns dias na mansão dos mortos, de vergonha. Realismo em estado puro. Tristes filmes. De lá, senti forte, novamente, a voz de Deus, amor eterno que não se cansa de nós, apesar de não merecermos: “Fábio, uma só coisa eu te peço, uma promessa, a de colocar o amor acima da justiça”. Para mim, quando Deus me pede uma coisa, é impossível dizer não. São pedidos tão agradáveis, mesmo se difíceis, que seria burrice ao quadrado dizer não ao nosso pai, sabedoria infinita, amor eterno.

Passei da mansão dos mortos ao paraíso da alma e, depois, voltei à vida cotidiana, lugar de teste de nossas promessas. Como fazer? Amar não é fácil. Não digo o amor ao inimigo. Amar o amigo também é difícil. O amor exige ascese de amor, vigilância cotidiana, sobretudo, em situações inesperadas de conflito. “Amar é coisa de macho”, concluí. Exige virilidade interior, coisa de homens e mulheres. “Antes de tudo a mútua e contínua caridade...” (Chiara Lubich).

Eu não havia pensado que minha indignação em vez de profética poderia ser patológica, insana. Grosseria moralista, raiva disfarçada de sede de justiça. Aliás, no discurso das bem-aventuranças, logo depois de afirmar que “são felizes os que têm sede e fome de justiça”, Jesus afirma também que “são felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. Justiça e misericórdia, juntas. Justiceiros costumam praticar injustiças piores do que as que pretendiam combater. Em suma, terminei meu namoro com a justiça, vou casar com a caridade, agora, da qual a verdadeira justiça é fiel servidora.

Há muitas coisas boas na vida, assim como nas hortas. Tomates, ervilhas, cenouras. “Fábio, de ti eu quero ervilhas (amor) e não tomates (justiça). Favor me trazer a encomenda certa”. Deus não nos ama de forma geral, mas particular, como se cada filho seu fosse filho único, com tarefas, missões específicas. De mim ele pede o amor. Isso significa a minha morte, mas, também, o passaporte para a felicidade eterna, já aqui nesta terra de passagem. Vai ser a minha luta, já é a minha guerrilha, cujo inimigo maior está dentro e não fora de mim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

¡Fronterizos, únanse!


Punto de vista
Ciudad Nueva - Revista Mensual Internacional (Montevideo e Asunción)
¡Fronterizos, únanse!
Conversando con una profesora uruguaya de una “ciudad gemela” de la frontera Brasil – Uruguay, en un dato momento, ella, suspirando, me dijo: “Querido profesor, nuestra frontera es una tierra olvidada por la mano de Dios”. En los viajes que hice en algunas ciudades gemelas entre ambos países, pude experimentar esa misma sensación de abandono.

Ciudades olvidadas por quien vive en el meollo del Estado, en Montevideo, en Brasilia, en Río de Janeiro o Porto Alegre. La visión acerca de las fronteras que emerge en los medios de comunicación es generalmente negativa: frontera como tierra de nadie, como tierra que sería mejor que no existiera. Tierra de crimenes, de "sin leyes", como si los sin leyes de Brasilia o de Río de Janeiro fueran alimentados por los sin leyes de frontera.

El meollo del Estado parece vivir de espaldas a sus fronteras y, cuando piensa en ellas, piensa en criminales o en el consumo. Volviendo a la conversación con la profesora, le contesté: “Querida profesora, quien olvidó las fronteras no es la mano de Dios, sino la del Estado”. Quizás el Estado brasileño y el uruguayo, últimamente estén prestando más atención a sus fronteras. Quizás sea el momento en el cual las propias ciudades gemelas de la frontera entre el sur de Brasil y el norte de Uruguay deban dar más atención a sus poblaciones fronterizas.

Deberían salir del estado de aislamiento en que se encuentran. Pero, ¿cómo hacer esto? Un señor, también uruguayo, me decía: “Es mejor ser la cabeza del ratón que la cola del león”. Coincido. Sudamérica, por ejemplo, está haciendo eso con la construcción de Unasul: ““Es mejor ser la cabeza del ratón que la cola del león”.Las doce ciudades gemelas de frontera situadas en el límite entre Brasil y Uruguay, no son ciudades próximas a la frontera, sino ciudades de frontera, con identidades semejantes, con problemas y desafíos en común, e incluso hay leyes específicas dirigidas exclusivamente a los ciudadanos brasileños y uruguayos que viven en una de esas doce ciudades.

Problemas y desafíos similares que podrían ser resueltos de forma conjunta, por una especie de G12, un consejo de las doce ciudades gemelas Brasil-Uruguay, todas con igual poder decisional, con una sede propia, o con una rotativa entre las doce ciudades de las seis regiones de frontera urbana, binacional, integrada por Brasil y Uruguay: Chuy y Chuí, Rio Branco y Jaguarão, Aceguá y Aceguá, Rivera y Santana do Livramento, Artigas y Quarai, Bella Unión y Barra do Quarai. Son ciudades pequeñas, muchas de ellas muy pobres, pero son ciudades-faro, ciudades enormes del punto de vista de la integración binacional que ellas viven diariamente. Son fronteras diferentes, integradas, entre dos naciones diferentes.

Son fronteras modelo de vida binacional, integrada, para todo el mundo y, también, para Brasil y para Uruguay. Lo que el gobierno brasileño quiere hacer en las fronteras amazónicas —es decir un proceso inteligente de población del territorio como forma de vigilancia permanente en regiones de fronteras (un proceso de población con normas del Estado y no con las de la criminalidad organizadano es la única manera de hacerlo, pero es una manera privilegiada)— ya ocurre, de manera exitosa (en una concepción no perfectista de integración) en las doce ciudades gemelas uruguayo-brasileñas.

La integración que se vive aquí es satisfactoria, y debería ser estudiada y exportada al Brasil y al mundo. Los brasileños y los uruguayos fronterizos de esas doce ciudades, viven experiencias ejemplares de integración, donde las diferencias entre Brasil y Uruguay son vividas como posibilidades concretas de enriquecimiento recíproco. Fronterizos de las doce ciudades gemelas, ¡únanse! Creen su G12, para ser así la cabeza del ratón, y no la cola del león.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Bofetada comercial


Duvido muito da sinceridade das ações públicas dos que criticam as palmadas dos pais, mas passaram a vida televisiva profissional dando bofetadas comerciais nas crianças, fazendo merchandising para público infantil.

Certa vez, quando fui comprar brinquedos para minhas filhas, fiquei impressionado com a quantidade de brinquedos com o sorriso de apresentadores de programas televisivos impressos nas embalagens. Difícil comprar um brinquedo sem a imagem associada a ele deste ou daquela apresentadora de programa de auditório. Mais difícil ainda encontrar uma sandália para menina sem a imagem de “celebridades” televisivas.

Não havia sandália-sandália, mas a sandália da fulana, da fulaninha, da fulaneta, da fulanosa. Uma verdadeira “caça ao dinheiro” dos pais por meio do condicionamento telepublicitário de crianças pelo uso de “celebridades” televisivas criadas para a captura comercial do público infantil. Fui avisado de que haveria mais qualidade na TV por assinatura do que na TV comercial. Assinei, mas qual não foi minha surpresa ao ver que a publicidade infantil também invadiu vários canais de programação para crianças da televisão paga pelos assinantes.

Nossas casas são invadidas por personagens televisivos que tentam extrair parte dos nossos salários pela conquista comercial dos nossos filhos. Merchandising e público infantil é bofetada em criança.

A publicidade para crianças adota a política da captura comercial pela dominação psicológica dos nossos brasileiros mirins. Por meio desta ou daquela apresentadora (ou predadora), as presas (ou crianças) são adestradas na doutrina do consumismo, aumentando os valores da conta bancária destas apresentadoras com o dinheiro arrecadado com o consumo infantil. Depois, elas fazem campanhas cívicas, fazem doações. Devolvem com uma mão um pouco do que arrecadaram com a outra, por meio do tal merchan para crianças. Saem no lucro, limpando a própria imagem, o que, depois, serve para vender mais.

As crianças são vítimas frágeis da manipulação telepublicitária, pois seus mecanismos de defesa ainda são muito débeis. É por isso que vários países democráticos protegem as crianças da violência do merchandising que as transforma em "público-alvo". Crianças tendem a crer na autoridade dos adultos. Por isso, uma sociedade de adultos responsáveis deve prevenir as crianças, ensinando-as a não confiar incondicionalmente nos adultos e seus ensinamentos, como faziam os autores das fábulas pedagógicas tradicionais, que ensinavam, por exemplo, a desconfiar do ambiente de uma casa de doce, colorida, atraente, porque justamente ali o perigo poderia estar escondido.

Mas o que esperar de um sistema telepublicitário que até pouco tempo usava bichinhos e gravuras infantis (tatuagens) para publicizar bebidas alcoólicas (cerveja), imprimindo na imaginação das crianças a associação entre cerveja e simpáticos bichinhos coloridos? Assim, quando, no futuro, fossem consumir cerveja, a tal marca já teria povoado as dobras das suas cabeças. Mas ai de você se criticar certas publicidades. Os publicitários te chamam, na hora, de censor, como se os ditadores fôssemos nós, os consumidores, que nos defendemos como podemos.

A telepublicidade desqualifica como censor todos aqueles que, a partir do mero bom-senso, fazem oposição a esta lógica perversa. Os ícones da publicidade televisiva para crianças foram criados para conquistar (capturar) comercialmente o “público infantil” mediante mecanismos de condicionamento psicológico. Conquistam a simpatia e a amizade das crianças para conquistar o bolso delas e dos seus pais.

Um tapinha dói, dói sim, dói mesmo. E uma bofetada, mais ainda, o que vale, também, para as bofetadas comerciais contra as crianças, reduzidas à condição de "público-alvo infantil".

terça-feira, 11 de outubro de 2011

No porão da alma


No porão da alma podemos cair sem querer, por querer ou sem nem mesmo perceber. Lá não há luz, sabor nem disposição. Tudo é amargo, triste. É o lugar do cansaço da alma gorda, pesada. É espaço empapado de tristeza na esponja do desânimo. Cria beiços por dentro, beiços na alma da alma. Nada é capaz de consolar uma alma de boca beiçuda.

A perda da alegria é dolorosa. Olho para cima. “Mas onde estará o alçapão do porão da alma?”. Tal porão é doloroso, mas é bom mestre. Acaba com tudo, menos com o que é bom. Queima o eu. Liberta da alegria superficial.

Na desolação do porão encontro um velho amigo, que entrou sem culpa no porão da alma, vale de lágrimas. Ao encontrá-lo, poucas palavras, alguns olhares, como se eu fosse Marcelino, o menino que um dia lhe deu pão e vinho.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como estudar e fazer Sociologia


Vejamos algumas possibilidades:

Opção 1 - Pode-se dar prioridade a conceitos, criando livros de sociologia que mais se parecem com manuais de decoreba. Definições disso e daquilo, que os estudantes decoram e esquecem. Sociologia contra a sociologia;

Opção 2 – Pode-se dar prioridade a escolas, ou correntes de pensamento, chamando-as de escola funcionalista, escola positivista, etc. O problema é que, muitas vezes, essas tais escolas representam um aglomerado de preconceitos, conjunto de juízos depreciativos das escolas que o autor do livro não aprecia. Sob um manto falsamente científico - que se diz descritivo, mas é muito mais depreciativo do que descritivo -, escreve-se horrores, por exemplo, sobre Durkheim e Comte, acusados de serem funcionalistas e positivistas, já que tais expressões são carregadas de juízos negativos, como se fossem palavrões. Sociologia contra a sociologia;

Opção 3 – Pode-se dar prioridade a autores, como o fez Raymond Aron no livro As Etapas do Pensamento Sociológico. Parte-se da biografia de cada autor e identifica-se sua trajetória investigativa. Os autores são analisados a partir da relação de cada um com a sociedade moderna, que é o grande fato social estudado pela sociologia, além de ser o ponto de partida da existência da sociologia, ciência que nasce e se desenvolve na sociedade moderna (gerada pelas revoluções francesa e industrial), para a compreensão e ordenamento de tal sociedade (compreendendo a sociologia como ciência descritiva, interpretativa, compreensiva e racionalmente prescritiva, e não somente explicativa);

Opção 4 – Pode-se dar prioridade aos fatos sociais. Em vez de se fazer uma espécie de mapeamento conceitual, coisa mais adequada à filosofia social do que à sociologia, faz-se um mapeamento temático, factual, cujo ponto de partida é a transformação do antigo regime em sociedade moderna, por meio das revoluções francesa e industrial (aqui citadas como fatos sociais que se tornaram referências paradigmáticas, sem, claro, descolarem-se da história).

A sociedade moderna é o grande fato permanentemente estudado pela sociologia, com seus desdobramentos fáticos no tempo e espaço. A opção 3 (autores) não incorre em mera ilustração biográfica se permanecer conectada à identificação dos fatos estudados pelos clássicos, como o fez Aron em seu livro já citado.

A sociologia clássica, que estuda os fundamentos da sociologia, tem por objetivo compreender a interpretação elaborada pelos fundadores da sociologia (sobretudo Comte, Marx, Durkheim e Weber) sobre a sociedade (moderna) que surge da transformação revolucionária (revolução em sentido sociológico) do antigo regime; e compreender o método usado pela sociologia no estudo de tal nova (em sentido cronológico, não moral) sociedade. Estuda a sociedade moderna por meio do estudo dos óculos hermenêuticos dos fundadores da sociologia.

Quando a sociologia abandona a centralidade dos fatos, ela retorna à metafísica social, ou seja, deixa de ser sociologia. Não sou contra a filosofia, nem contra a filosofia social, mas contra a opção metodológica de quem não identifica claramente os limites, as fronteiras metodológicas entre filosofia social e sociologia, entre método dedutivo e indutivo. Há pensadores que se dizem sociólogos que navegam em complexos mapeamentos conceituais caracterizados pela ausência (quase) absoluta de referência aos fatos. A troca dos fatos por conceitos divorciados dos fatos caracteriza o abandono prático da sociologia, retorno à metafísica.

Sem fatos não há sociologia. Fatos e hermenêutica dos fatos selecionados (paradigmas) caracteriza o fazer e estudar sociologia. Na sociologia clássica, a referência (e reverência) a Comte, Durkheim, Marx e Weber é, certamente, obrigatória, na compreensão da sociedade moderna por meio do método indutivo (positivista, compreensivo, dialético). Na sociologia contemporânea, a referência a autores como referência central esconde uma injustiça: por que citar este ou aquele autor num universo de centenas de autores? Um autor pode ser mais famoso do que outro pelas circunstâncias editoriais de seu país. Fama editorial e relevância sociológica não são expressões sinônimas.

Além disso, se, de um lado, a sociologia clássica é originária da Europa ocidental, hoje, há sociologia em todos os continentes. Há sociólogos profissionais na América do Sul, Central e do Norte; na África; Ásia; Austrália... A opção pela centralidade dos fatos, com seleção de fatos relevantes em cada um dos 05 continentes, permite uma compreensão menos europeísta da sociologia (contemporânea). O estudo da sociologia contemporânea pode ser feito pela identificação de sociologias temáticas, com seus microfatos específicos (turismo, esporte, moda, consumo, trabalho, religião) conectados ao macrofato permanente: desdobramentos da sociedade moderna no tempo e no espaço, nos cinco continentes.

Há sociólogos europeus, pouco habituados a reconhecer a existência de vida fora do planeta Europa, que referem-se a problemas típicos da Europa ocidental como se fossem problemas de relevância universal. Ou, então, consideram que tudo o que ocorreu ou ocorrerá na Europa, deverá ocorrer igualmente também no resto do mundo. Assim, estudar a Europa de hoje, de ontem e de amanhã seria conditio sine qua non para a compreensão de experiências de outros continentes.

Tal pressuposto da cognição primordial e permanente da Europa como condição para a compreensão do resto do mundo, deixa os sociólogos não-europeus num injusto estado intelectual de subordinação cognitiva. A descolonização da sociologia começaria pela mentalidade daqueles sociólogos não-europeus que conhecem muitos pensadores franceses, alemães, ingleses e muito pouco os fatos vitais de seus continentes de pertença. Tal sociologia extraterrestre (imposta ou escolhida) em relação ao continente de pertença do pesquisador não descolonizado é, também, sociologia contra a sociologia. Que a sociologia tenha se desenvolvido voltada para a Europa, é uma condição normal de nascimento, mas que não precisa se perpetuar, da mesma forma como a filha não permanece para sempre na casa da mãe.

A descolonização (ou normal crescimento) da sociologia torna-se possível por meio da identificação e análise de fatos relevantes em cada continente. Não se trata de ser contra a Europa, terra dos fundadores da sociologia, continente com problemas dramáticos. Trata-se de ser contra certa espécie de complexo de inferioridade intelectual que ainda vitima a mente de sociólogos pertencentes a outros continentes, mas que trabalham como se o resto do mundo fosse eterna filial da matriz Europa.

Seja qual for seu continente de pertença, o sociólogo exerce uma profissão mais próxima a do jornalista e médico do que a do metafísico do social, com seus conceitos que seriam “universalmente” válidos.

Assim como não há jornal sem fatos, não há sociologia sem fatos. A diferença é que o sociólogo, ao contrário do jornalista, permanece por anos com o mesmo fato. O prazo de validade dos fatos sociais é maior do que o prazo de validade dos fatos jornalísticos.

Em suma, a sociologia é factualista, não é metafísica social, não é opção por conceitos distantes dos fatos, mas ciência que estuda fatos caracterizados pela vitalidade, dramaticidade e até mesmo tragicidade. Fatos sociais que não são técnicos (mesmo se estudados com a ajuda de técnicas de pesquisa), mas vitais. Por isso, a relação com a medicina, ciência que, entre outras coisas, descreve patologias (mais ou menos graves) para tratá-las (prescrição).

O sociólogo não pode se dar ao luxo de apenas explicar os fatos sociais(dramáticos, patológicos ou trágicos). Precisa, também, identificar possibilidades racionais de tratamento. Não basta, por exemplo, explicar as diferenças entre sistema eleitoral proporcional e majoritário. É preciso, também, fazer um esforço de compreensão para tentar identificar com critérios racionais qual deles seria melhor para o Brasil de 2011 (reforma política). Assim, uns sustentarão que o melhor seria o sistema A; outros defenderão o sistema B. A opinião pública fará suas escolhas, e os deputados votarão em A ou B.

A sociologia é, antes de tudo, factualismo hermenêutico. Para a metafísica, factualismo é defeito. Para a sociologia, factualismo hermenêutico é um dever metodológico.

A sociologia estuda fatos (problemas) locais e internacionais para compreendê-los, explicá-los, tentando, também, identificar possibilidades de tratamento. Ciência descritiva, hermenêutica, prescritiva. Ciência do social cuja legitimidade é conquistada na sociedade (e não apenas entre seus pares, na academia) pela demonstração profissional de sua utilidade, prática, nos continentes de pertença dos pesquisadores. Fora disso, o que ocorre é retorno à metafísica, sociologia contra a sociologia.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Dona Zilda morreu como viveu


Érico Veríssimo, gaúcho cosmopolita, inventou a figura simpática de Rodrigo Cambará, célebre personagem de O Tempo e o Vento que dizia que não morreria deitado, mas lutando, peleando. E assim foi... A catarinense cosmopolita Zilda Arns, da pequena cidade de Forquilhinha, sul de Santa Catarina, também morreu como Rodrigo Cambará, em pé, peleando.

Conheci pessoalmente dona Zilda Arns em 2008. Fui seu colega na Cátedra Participação e Solidariedade, da Universidade do Sul de Santa Catarina. Conversamos novamente em junho de 2009, em Tubarão, numa reunião da Cátedra, minha última, pois, depois, mudei de cidade e universidade. Foi, também, sua última reunião na Cátedra, pois, como sabemos, dona Zilda também mudou de cidade.

Soube de sua morte enquanto viajava no interior de Santa Catarina, perto de Tubarão, por uma estrada de chão. A moça da rádio fazia propagandas de cremes e, da mesma forma como anunciava cosméticos, anunciou a morte de dona Zilda. Foi como se eu levasse um soco na boca do estômago. Ela deveria ter avisado que faria o anúncio de uma tragédia, mas não. Anunciou uma morte como quem vende sabão e, depois, continuou anunciando outras coisas, acho que era ração, revelando a miséria em que caiu certo tipo mercantilista de “jornalismo”, sem sentimentos, talvez até sem alma, ou com a alma perdida num canto da luta pela sobrevivência.

Recuperado do susto, imaginei que fosse notícia falsa. Como sabemos, não era. Fiquei muito triste ao pensar que aquela simpática senhora morreu com uma pedrada na cabeça. Para uma mulher tão sublime como dona Zilda talvez se esperasse uma morte mais doce, calma, embalada no canto das crianças que ela ajudou a salvar da morte. Ela poderia ter morrido com um último sorriso, seguido de um último suspiro, rodeada de crianças entre cantos e orações, poesias como a que outro nosso colega de Cátedra, Francisco Menna Barreto, fez e leu para ela durante um almoço num restaurante de Tubarão. Mas não. Ela morreu como Rodrigo Cambará, peleando. Sua peleia foi diferente, com armas diferentes, mas foi peleia.

Morreu na boa companhia dos soldados brasileiros, forças fardadas que são muito mais morais do que armadas, dedicadas aos direitos humanos, dos pobres, orgulho do Brasil Democrático.

Dona Zilda viveu heroicamente o amor, pelo amor, com o amor. Escolha pessoal de viver pelo amor social. Na Igreja Católica, quem vive heroicamente o amor é chamado de santo. Zilda Arns é uma santa moderna, casada, mãe, leiga católica, médica, cidadã brasileira inserida de forma inteligente em seu tempo.

Zildinha, mulher simples, tão simples e profunda como a poesia de Caymmi. Mulher corajosa, valente. Mulher realista na análise e idealista na ação. Mulher do céu, na terra, que voltou para sua pátria definitiva. Modelo de mulher, de católica. Alemãzinha de Forquilhinha, ela não desperdiçou sua vida. Ajudou a melhorar o mundo com sua sorridente determinação.

Dona Zilda enfrentou problemas sérios, feios, com oração e ação, movida pelo entusiasmo da esperança, o mesmo entusiasmo que move o coração dos nossos soldados brasileiros que partem em missão de paz.

A tragédia no Haiti não foi “castigo de Deus”, nem “vingança da natureza”. Foi, simplesmente, um fenômeno natural de trágicas consequências.
Temos Zilda! E a esperança continua viva, firme como o crucifixo que, surpreendentemente, permaneceu intacto em meio aos escombros da tragédia.
(publicado em 23/01/2010)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vento Minuano


Isso mesmo, o nome dele é Minuano. Massa de ar polar é o nome técnico usado por quem trabalha em telejornais. Para nós, aqui do sul, o nome dele é Vento Minuano!

PS - Um anônimo escreveu:
Vento Minuano é o nome dado a intensa corrente de ar que sopra preferencialmente do quadrante sul trazendo ar mais frio, de origem polar, para o Rio Grande do Sul durante os meses de inverno.

Eu prefiro chamá-lo de sopro-bênção que sai da boca de Deus refrescando a nossa alma, iluminando a nossa mente e aproximando os nossos corações.

domingo, 28 de agosto de 2011

Amor mundi


Vivo em um dos principais templos de consumo do Brasil, a fronteira com o Uruguai. Em Rivera, o queijo é bom e barato, o vinho é bom e barato, roupas são boas e baratas. Não sou contra isso. O problema é que um meio de vida (consumo) virou modelo de vida: sociedade de consumo.

Trocamos a religião tradicional pela religião do consumo. Esperamos nos religar ao mundo dos mistérios e significados por meio do ato de consumir. Paróquias foram trocadas por lojas, de consumo, novo templo moderno destes nossos tempos. Aliás, como definir este nosso tempo? Nietzsche chamou isso de niilismo; Bauman o chama de modernidade líquida; Bento XVI o chama de relativismo; para Durkheim, é sociedade anômica. Mais a velha luta de classes (Marx), que continua, mesmo se com nomes diferentes.

No fim do milênio passado, foi anunciado, triunfalmente, o fim da história (Fukuyama). Teria chegado ao fim “A era dos extremos” (Hobsbawm). Pelo que parece, caímos em um outro extremo, de violência silenciosa, mas também ela brutal, exércitos de drogados consumidos pelo tédio. Ricos e pobres. Criminalidade e banalidade. A era da Náusea (Sartre), do tédio, da Noia (Moravia). “Ufa, que saudades da revolução! Ao menos nela não havia tédio”, comentou o revolucionário aposentado, enquanto escolhia um novo par de pantufas. “Não vou morrer deitado”, afirmou Rodrigo Cambará. Hoje, morreria de tédio.

Sem revolução, nem teocracia, onde Deus é usado como cabo-eleitoral por aventureiros desse ou daquele agrupamento em luta contra a sociedade líquida. Solução? Seria a velha fuga mundi, em sua versão country, fuga para o sítio? Ou fuga para o paraíso terrestre da praia quase deserta?

“Que fazer?”, perguntou-se Lênin em outubro de 1901. Mas ele tinha um rumo. Rumo errado? Bem, um barco sem rumo, em alto-mar, é o rumo sem rumo da nossa sociedade líquida. Outra hipótese? “Sobreviver e torcer para que a morte não tarde”, diria um niilista desencantado até com o próprio niilismo. A idealização da morte como libertação é tão antiga quanto a corrupção. Antiga e atual. A morte, porém, é certa, para todos. E o paraíso não é anômico.

O desânimo, ao menos segundo o cristianismo, não é um modo correto de se viver. É vício, e não virtude (vício da acídia, impropriamente chamado por alguns de preguiça). Vícios não abrem caminho para o céu, mas para o inferno, niilismo terrestre e eterno relativismo. Inferno como versão definitiva da sociedade líquida.

O que dizer aos filhos? Pedir desculpas por tê-los colocado no mundo? Não é a minha opinião. Melhor amar, às vezes da mesma forma como o palhaço que continua trabalhando até quando está sem vontade. Uma esperançazinha modesta, discreta, realista, pequena já é esperança.

Esperança, hoje, é joia rara. Fé, esperança, caridade. Fé eu tenho, ganhei de graça; amar eu tento amar, até porque gosto mais de amar do que de odiar; esperar é mais difícil, nestes tempos inglórios de anomia.

Amar-cuidar deste mundo sociológico que criamos e no qual vivemos, não obstante ele se pareça, às vezes, como aquela moça, na festa, que ninguém quis tirar para dançar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Campos que encantam (Fábio R. Bento)


O verde do pampa
Tapete de veludo
Ondas, horizontes
Oceano macanudo

Estradas longas
Estradas desertas
Estradas sem fim
Estradas abertas

O cardeal voltou
Passeia de terno
Alegria da alma
Do guri eterno

Cardeais de cristas que cantam
Pretas, vermelhas
Voando nas almas que encantam


Fronteira verde
Da paz possível
Fronteira aberta
Da vida sem tramela

O vermelho voltou
Cristas em festa
Alegra a alma
Retira as arestas

Ainda com medo
O amarelo espera
Escondido, espia
Ao redor duma tapera

Cardeais de cristas que cantam
Pretas, vermelhas.
Voando nas almas que encantam

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Paternidade


“O amor de mãe é sublime, divino” e tantas outras coisas mais, dizem alguns poetas. E o amor de pai, seria menor? Não. São amores diferentes, com expressões diferentes em tempos e lugares diferentes. Claro que há homens que nem os alimentos asseguram aos filhos. Mas há, também, mães que apagam cigarros nos bracinhos dos filhos.

“Meu pai não me amava, não me dava carinho”, disse-me, uma vez, uma aluna. Ora, ela confundiu as coisas. E se, para ele, amar significasse não dar carinho? “Não dá muito carinho para teus filhos, para não estragar. Carinho é coisa de mulher, de mãe. Pai tem que dar dinheiro e educação”, pensavam, num passado não tão distante, alguns pais.

“Eu até que gostaria de ter abraçado meus filhos, mas fui educado a pensar que isso poderia lhes fazer mal”, disse-me um pai da velha guarda. Educação, para tais pais, significava preparar os filhos para o rigor da vida, para os conflitos tipicamente extradomésticos. “Carinho amolece a alma, não faz bem”, pensavam alguns. Em suma, era como entendiam o amor. Não davam carinho porque amavam, porque compreendiam o amor como educação ao rigor.

As coisas mudaram a partir da chegada das mulheres no trabalho extradoméstico, quando elas começaram a fazer coisa de homem. Mulheres fazendo coisas de homem; e homens que começam a fazer coisas de mulher: lavar louça, cozinhar e dar carinho aos filhos. Democratização das tarefas domésticas e extradomésticas. Nova compreensão dos papeis desempenhados por pais e mães no teatro da vida contemporânea.

Assim, hoje, quando há uma separação conjugal, os filhos não necessariamente ficam com as mães. “Eu cuidei com dedicação, não aceito que me digam que só posso ver meu filho uma vez por semana”, reclamam, com razão, os pais presentes na vida dos filhos, vitimados, agora, por aquelas rancorosas ex-esposas que usam os filhos para se vingarem dos ex-maridos. Claro que há muitos homens ausentes, repito, que nem os alimentos asseguram aos filhos. Bem, eles não sabem o que estão perdendo. Uma pena, perda muito mais para eles do que para seus filhos. Mas, no caso dos pais presentes, a avaliação deveria ser diferente.

Quando eu casei, não morria de vontade de ter filhos. Gostava da minha vida a dois, com minha esposa. Na praia, eu via, horrorizado, aqueles pais que corriam de lá para cá, tirando baganas de cigarro da boca de seus sorridentes nenês, que engatinhavam pela areia comendo de tudo. Minha esposa, ao contrário, queria porque queria ser mãe. Bem, por causa dela, aceitei o que para mim significava o sacrifício do meu eu por uma causa maior.

Ainda bem que mudei de ideia. Nossas filhas são a melhor experiência que já tive em toda a minha vida. “A paternidade é sublime, divina”, digo eu, hoje. “Olha”, falei para a minha esposa, “tu também deve dizer não, para que elas não cresçam com a ideia de que eu sou o que diz não e tu a que diz sim”. Em suma, compartilhamos o lado doce e o lado rigoroso da educação, do amor que cuida.

Quanto ao carinho, não tenho escrúpulos. Abraço e beijo nossas filhas várias vezes por dia. Vai ver que é por isso que, quando faço uma cara feia, elas logo, logo me entendem. Em suma, o rigor bom exige carinho, afeto como pressuposto obrigatório do amor.

A maternidade é linda, maravilhosa, mas a nossa experiência de paternidade também não é pouca coisa não.
Feliz dia dos pais!

sábado, 30 de julho de 2011

Refeito pelo pampa


Um sábado de julho de 2011. Por volta das 14h00, eu e minha filha mais velha chegamos na Estância Cerros Verdes. “Fábio, como você está cansado”, notou a proprietária, nossa amiga. De fato, já estava até com casquinhas nas sobrancelhas, sintoma, para mim, de estresse. Começava meu primeiro dia de exercício na arte de descansar, e tinha somente dois dias. Deixamos as poucas bagagens nos quartos e fui caminhar sozinho no campo.

Pampa, verde, horizontes largos, silêncio, silêncio fora de mim. Dentro, porém, barulho de reclamação, raiva, ira, chateação com isso e aquilo, beiços da alma engordados pelo cansaço. Afinal, quem participa das coisas que acontecem ao redor, se incomoda, além, também, de se alegrar. O cansaço parece amplificar as vozes da lamentação e calar as da alegria. O cansaço alimenta o mau humor.

No pampa, ovelhas e seus cordeirinhos, mamando... Cavalos me olhavam com cara de dúvida: “Será que ele vai nos encilhar?”. “Cultura gaúcha”, pensei, “é o que colocamos sobre o campo, além de ovelhas e cavalos... Os causos, histórias”. Caminhava, movido, talvez, pela esperança de me livrar, ali, no pampa, de mim mesmo. Pampa fornalha verde que consome tristezas e nos devolve limpinhos por dentro para a confusão da civilização. O campo, antes palco de batalhas, agora é lugar de paz, ao menos para nós, combatentes urbanos nesta modernidade líquida.

Caminhava, agora, ao lado da sanga, perto de uma pequena cachoeira. A música bonita da natureza. Penso no meu amor pelo livro O Príncipe, e me envergonho: “Será que eu amo mais O Príncipe, de Maquiavel, do que os Evangelhos, de Jesus Cristo?”. “Mas não”, continuei, “as contradições, neste caso, são falsas. O Príncipe é a explicação de uma parte do evangelho, explicação leiga da virtude cristã, realista, da prudência”.

Continuei caminhando ao lado da sanga. A reflexão sobre o cristianismo realista animou minha mente, mas não libertou minha alma da tristeza. Tentei uma oração: “... fazei que eu procure mais, consolar que ser consolado...”. Não funcionou.

Depois, ainda às margens da sanga, lembrei de outra oração: “Tenho um só esposo sobre a terra, Jesus crucificado e abandonado... Nele, o paraíso, com a Trindade, e a terra, com a humanidade...” (Chiara Lubich). Foi como tirar com a mão. Aquela oração consolou-me, explicou o que eu vivia, conectou-me com o mundo eterno da pureza divina, no santuário verde do pampa. A sanga límpida do espírito movimentava-se agora, novamente, dentro de mim. “Puxa, eu devo ser mesmo focolarino. Gaúcho, pampeiro, e focolarino, de Chiara”, pensei, já com o sorriso de menino de volta no lado de dentro do peito. Chiara, de Trento, e Fábio, de Piratini, juntos, no pampa, perto da sanga dos Cerros Verdes.

Na estância, dois cavalos encilhados aguardavam por mim e minha filha. Passeamos, conversamos. Depois do jantar, saí para dizer o terço do Rosário. No silêncio noturno do pampa, eu, as orações, e três cachorros amigos: o Gaudério, o Ajudante e o Topo. Pêlos diferentes de três cachorros companheiros, também nas orações.

Dois dias depois, voltei feliz para casa, refeito no santuário verde do pampa, onde encontrei velhos e novos amigos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Coisas da fronteira...


Numa estrada no norte do Uruguai,
Um javali viaja no lado de fora
De uma Brasília amarela...

sábado, 9 de julho de 2011

Friófilos


Quando vou a Manaus, sei que vou encontrar, por lá, tempo quente, mesmo se já me surpreendi algumas vezes, em meio ao Rio Amazonas, de barco, à noite, com certo vento frio. Redes e pessoas cobertas com lençol e até uma mantinha. Mas sabemos que em Manaus faz calor, assim como aqui, no Sul do Brasil, em julho, faz frio.

Frio, em julho, no Sul do Brasil, é normal. Não é preciso abrir o Google para saber disso. Anormal é ouvir tanta reclamação, em julho, no Sul do Brasil, sobre o frio.

Que um carioca reclame do frio, é normal. Cariocas que estudam ou vivem no Sul do Brasil às vezes reclamam, e isso é normal. Meio estranho ouvir gaúchos, catarinenses e paranaenses de nascimento reclamando do frio. Reclamar é um direito humano, mas reclamar de quem reclama demais também é um direito da oposição aos reclamantes.

Quando morávamos em Tubarão (SC), em fevereiro subíamos a Serra do Rio do Rastro, um dos lugares do mundo que eu mais amo. Em Bom Jardim da Serra o ar é tão bom que se fosse engarrafado venderia muito. No litoral catarinense, mais de 30 graus. Duas horas depois, no alto da Serra, à noite, a temperatura ia para menos de 10 graus. Uma vez, em fevereiro, dormimos com a calefação ligada num hotel na cidade de São Joaquim. A serra catarinense, em julho, não é um lugar apropriado para gente sensível demais ao frio.

Bom Jardim, Urupema, São Joaquim são cidades amadas pelos friófilos. Aqui em Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, o frio mostra toda a sua beleza em julho. Beleza! Sim, beleza! O frio não é “castigo” da natureza nem de Deus, como lemos, infelizmente, em alguns jornais e ouvimos em telejornais. Aliás, telejornais deveriam ser um pouco mais isentos. Eles mais julgam o tempo do que o descrevem.

Se há pessoas que morrem de frio, no inverno, por morarem nas ruas, a culpa não é do frio, mas do sistema social. Não há calefação nas casas, e isso é outro problema nosso, e não do frio. Quantos morrem de calor na França, na Itália, EUA durante o verão de lá?

O frio é amado por gaúchos, catarinenses, paranaenses, exceto pelos sensíveis demais às variações térmicas, que passam o inverno aporrinhando com suas constantes lamentações. Em Curitiba, faz frio, às vezes, até no verão. A cultura do Sul não existiria se não houvesse o frio, o inverno.

A cidade de Gramado, por exemplo, vive do frio. Santa cidade! Até no verão Gramado usufrui do frio, com um Natal Luz que, mesmo sendo no verão, fica meio com cara de inverno. Frio combina com roupas de lã, lareira, sopas, chocolate quente, chimarrão (mas o mate é bom sempre), botas, chapéus (no verão, mudo para o chapéu Panamá que, aliás, é do Equador). O frio é lindo, torna o céu mais azul, aproxima as pessoas, gera mais abraços, até casais brigados fazem as pazes no inverno para dormirem entrelaçados, estufa humana de almas reaproximadas pelo inverno.

O frio gela o corpo, mas aquece os corações. O frio instiga a mente, lemos e estudamos melhor no inverno. E, depois, o frio do Sul do Brasil, por comparação com outras partes do mundo, nem é tão frio assim, exceto as serras gaúcha e catarinense. Frio é artigo de luxo dos homens e das mulheres do Sul do Brasil.

Amigo frio, seja bem-vindo, nós, friófilos, como já diz a palavra, te amamos. E fique firme ao menos até setembro, pois a Semana Farroupilha fica mais charmosa com você, na moldura do nosso velho, sempre novo, vento Minuano, o sopro-bênção que sai da boca de Deus refrescando a nossa alma, iluminando a nossa mente e aproximando os nossos corações.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sobre folhas e vento


Voltando de minha aula de ginástica com dança, notei, em uma rua de Rivera, que o vento havia derrubado a última folha seca de uma árvore. O espelho da aula de dança era agora aquela árvore, que refletia a minha alma, sem folhas. Sentir-se como uma árvore de folhas secas, ou sem folhas, é algo que acontece de vez em quando. Dá vontade de reclamar. Para onde foram as folhas? A nudez da alma, a nudez da árvore. Vazio, meio envergonhado, sem nada, despido, galhos entrelaçados sem folhas, frutos, flores.

Lembrei-me de Igino Giordani (1894-1980). Para ele, a perda das folhas faz parte do belo (mesmo se duro) caminho em direção à liberdade. Libertar-se da ingratidão e da adulação. Libertar-se de si mesmo, das próprias folhas, das coisas que julgamos importantes somente porque próximas ao nosso eu. O eu, sempre o eu. As coisas que eu faço, que considero vitais, mesmo se, em geral, não o são. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, sobretudo o nosso eu, e “é o nosso eu que deve morrer mesmo se gostaria sempre de prevalecer” (Giordani). O eu museu de folhas secas.

“Vaidade das vaidades” pensar que somos “relevantes”, necessários. O destino das estátuas de praça é virar depósito de excrementos. A lição das pombas! Amigos budistas empregam a palavra impermanência. Tudo é impermanente, exceto o amor, razão de nossa vida nesta vida e passaporte de ingresso na cidadania futura. Por isso, bem-vindo seja o vento da purificação, que liberta das folhas secas as árvores do jardim da nossa alma...

domingo, 26 de junho de 2011

Almoço de domingo


Um amigo, do Uruguai, nos trouxe de lá um pedaço de javali. Depois de assado, ficou meio alaranjado. Ótimo! A farinha de mandioca, amarela, meu amigo Rogério – carioca, vive em Manaus, seu apelido é Che – mandou-me via correio.

A caipirinha foi feita com limão siciliano, aquele de casca amarela, que cresce muito bem aqui na fronteira do Brasil com o Uruguai. A cachaça, uma amiga trouxe de Minas Gerais, Salinas.

Junto com o javali, batatas (peruanas de origem, e não inglesas) ao forno, com azeite italiano, mais o alecrim (rosmarino), que eu mesmo plantei (gosto de viver na boa companhia do alecrim e do manjericão).

Água e vinho tinto, nos cálices que vieram da Bohemia, quando a Tchecoslováquia ainda era comunista.

Mudam-se os sistemas, Estados se separam, mas os cálices continuam lindos... Também o limão, o alecrim, a farinha de mandioca e a companhia dos amigos...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Projeto Unasul (Unasur)


Em agosto de 2009, mudamos para a fronteira, cidades-gêmeas de Santana do Livramento – Rivera. A vida nas bordas do Estado, fronteira, é diferente da vida no miolo do Estado. A fronteira é professora.

Minha irmã, brasileira, vive em Montevidéu. Seu marido, empresário, já descobriu a América do Sul faz tempo. Na capital do Uruguai, jantei, também, com alguns amigos de países sul-americanos, jornalistas. Na volta, de carro, pela tranquila Ruta 5, pensamentos e sentimentos de integração sul-americana.

O Brasil ainda vive de costas para a América do Sul. Mas, talvez, isto esteja mudando. Pensar o Brasil como parte de um grupo de nações vizinhas talvez seja muito mais útil para nós e para os vizinhos do que o velho nacionalismo tradicional. A América do Sul é o nosso território comum de pertença e responsabilidade compartilhadas.

A Unasul (União de Nações Sul-Americanas) é muito mais que uma sigla. É a possibilidade de realização de um projeto de integração, desafio popular e governamental. Tudo na América do Sul poderia ser pensado como Unasul, exceto o futebol, é claro. Unasul e segurança pública. Conselho de defesa da América do Sul. Integração entre os ministérios da justiça e da defesa dos Estados da Unasul. Desenvolvimento econômico compartilhado, economia de empresas sul-americanas. Produção com justa distribuição. Democracia social. Integração social. Salvaguarda do ambiente. Andes, Amazônia e Pampa. Atlântico e Pacífico. Território compartilhado. Responsabilidades compartilhadas.

A Unasul é muito mais que uma questão apenas de livre comércio.
No site do Itamaraty, lemos que “a UNASUL tem como objetivo construir, de maneira participativa e consensuada, um espaço de articulação no âmbito cultural, social, econômico e político entre seus povos. Prioriza o diálogo político, as políticas sociais, a educação, a energia, a infraestrutura, o financiamento e o meio ambiente, entre outros, com vistas a criar a paz e a segurança, eliminar a desigualdade socioeconômica, alcançar a inclusão social e a participação cidadã, fortalecer a democracia e reduzir as assimetrias no marco do fortalecimento da soberania e independência dos Estados”.

A Unasul não é uma fórmula voltada para o enfraquecimento de soberanias, mas para o fortalecimento dos Estados sul-americanos, pelo caminho do compartilhamento de análises e escolhas estratégicas.

Aos poucos os parlamentos vão aprovando o ingresso de seus Estados em tal projeto que une realismo e idealismo na América do Sul, casa comum dos povos sul-americanos, cuja construção depende também de mim e de você, artesão, professor, empresário, músico, operário, político, poeta, militar, estudante, cozinheiro, jornalista...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Fronteiriços, uni-vos!


Conversando com uma professora uruguaia, de uma cidade-gêmea da fronteira Brasil-Uruguai, num certo momento, ela, suspirando, disse-me: “Caro professor, nossa fronteira é uma terra esquecida pela mão de Deus”. Pelas viagens que já fiz por algumas cidades-gêmeas da fronteira Brasil-Uruguai, pude experimentar essa mesma sensação de abandono, cidades esquecidas por quem vive no miolo do Estado, em Montevidéu, em Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre.

A visão sobre fronteiras que emerge nos meios de comunicação geralmente é negativa, fronteira como terra de ninguém, como terra que seria melhor que não existisse. Terra de crimes, de sem-leis, como se os sem-leis de Brasília, ou do Rio de Janeiro fossem alimentados por sem-leis de fronteiras. O miolo do Estado parece que vive mesmo de costas para suas fronteiras, e quando pensa nelas pensa em criminosos ou em consumo.

Voltando à conversa com a professora, respondi-lhe: “Cara professora, quem esqueceu as fronteiras não foi a mão de Deus, mas a do Estado”. Talvez o Estado brasileiro e o uruguaio ultimamente estejam dando mais atenção às suas fronteiras. Talvez seja o momento no qual as próprias cidades-gêmeas da fronteira entre o sul do Brasil e o norte do Uruguai devam dar mais atenção às suas populações fronteiriças. Sair do estado de isolamento (abandono, esquecimento) no qual se encontram. Mas como fazer isso?

Um senhor, também do Uruguai, me dizia: “É melhor ser a cabeça do ratão do que o rabo do leão”. Concordo. A América do Sul, por exemplo, está fazendo isso com a construção da UNASUL: “É melhor ser a cabeça do ratão do que o rabo do leão”.

As doze cidades-gêmeas de fronteira, situadas na linha de fronteira entre Brasil e Uruguai, são cidades com identidades semelhantes, problemas em comum, desafios em comum, tanto que há legislações específicas voltadas exclusivamente para os cidadãos brasileiros e uruguaios que vivem em uma das 12 cidades-gêmeas fronteiriças da fronteira Brasil-Uruguai.

Problemas semelhantes, desafios semelhantes que poderiam ser resolvidos de forma conjunta, por uma espécie de G 12, conselho das 12 cidades-gêmeas Brasil-Uruguai, todas com igual poder de decisão, com uma sede própria, ou com sede rotativa entre as 12 cidades-gêmeas das 06 regiões de fronteira urbana, binacional, integrada entre Brasil e Uruguai: Chuy e Chuí; Rio Branco e Jaguarão; Aceguá e Aceguá; Rivera e Santana do Livramento; Artigas e Quarai; Bella Unión e Barra do Quarai.

São cidades pequenas, muitas delas muito pobres, mas são cidades Farol, cidades enormes do ponto de vista da integração binacional que elas vivem diariamente. São fronteiras diferentes, fronteiras da integração de fato entre duas nações diferentes, são fronteiras modelo de vida binacional, integrada, para todo o mundo e, também, para o Brasil.

Aquilo que o governo brasileiro quer fazer nas fronteiras amazônicas, vivificação como forma de vigilância permanente em regiões de fronteira (não é a única forma, mas uma forma privilegiada, vivificação com normas do Estado e não com as normas da criminalidade organizada), já ocorre, de forma bem-sucedida (em uma concepção não perfeitista de integração), nas 12 cidades-gêmeas de fronteira entre Brasil e Uruguai.

A integração que aqui se vive é integração satisfatória, que deveria ser mais estudada e exportada para o Brasil e para o mundo. Os brasileiros e uruguaios fronteiriços das 12 cidades-gêmeas de fronteira vivem experiências exemplares de integração, onde as diferenças entre Brasil e Uruguai são vividas como possibilidade concreta de enriquecimento recíproco.

Fronteiriços das 12 cidades-gêmeas, uni-vos! Criai o vosso G 12, sendo a cabeça do ratão, e não o rabo do leão.

Dos leitores, via e-mail:

Fala Tchê,
Aqui na região do DF, as cidades do "entorno" compõe o estado de Goiás e não são tratadas com respeito por seu estado, pois esse classifica que sejam um problema do DF pela proximidade, já o DF não dá jeito pois o problema é de Goiás, assim as cidades vão crescendo desordenadamente sem a presença e nem fiscalização de nenhum dos dois estados. É tipo "Sarará", que não entra em baile de branco pois é considerado negro e nem em baile de negro pois é considerado loiro.
A mim parece um forte jogo de empurra entre os dois lados, como deve ser o que ocorre entre Brasil e Uruguai no caso de vocês. A impressão que passa é que em breve as "Aduanas" serão transferidas para aproximadamente 20 km antes das fronteiras e essas terras serão de ninguém. Em parte isso já ocorre em Foz do Iguaçu, onde os maiores postos de fiscalização de fronteira ficam em pontos específicos da região e não em Foz.
Ernani

Amigo Fábio
Grande contribuição!!!
Fico feliz em ver que podemos somar forças e tentar mudar nossa realidade!
Conte com o amigo na luta!
abraço
Robinho

Fábio
De todos os textos que acompanho, este tocou em um ponto especialmente necessário: a tão falada integração internacional. Escrevo desde São Borja, cidade vizinha de Santo Tomé, da província argentina de Corrientes. Estamos separados pelo rio Uruguai e, não sei se como consequência ou não dessa característica geográfica, me parece que nos falta concretizar a integração - ou, mais claramente, ir além da faceta comercial e realmente nos aproximarmos para solucionar questões nossas.
Como morador recente da Fronteira Oeste, posso cometer a imprecisão por falta de vivência e convivência, mas penso que o que se observa na fronteira com o Uruguai é um cenário que mereceria ser replicado junto aos nossos vizinhos daqui do Oeste.
Parabéns pelos textos e contextos instigantes!
Heleno

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Professor universitário – mais do que “dar aulas”.


“No mês que vem o senhor terá uma folguinha, com as férias de julho”, comentou-me uma senhora, vendedora de frutas, ao ver-me cansado. Para ela, a atividade do professor é “dar aulas”. Sua filha, estudante universitária, disse-lhe: “Mãe, os professores da Unipampa fazem um monte de coisas, em julho não param, estão sempre ‘fervendo’”.

O que faz um professor universitário? Bem, para começar, se ele usar a expressão “dar aulas” vai arrumar encrenca com seus colegas pedagogos. Educação, segundo o grande Paulo Freire, “é relação de aprendizagem entre quem sabe que não sabe tudo (professor) e quem sabe de saber alguma coisa (estudantes)”. Nesta relação entre quem sabe de saber algo e quem sabe de não saber tudo é que está o ensino, atividade coletiva, multilateral. Mais do que “dar aulas”.

Mas ensino é somente uma parte da atividade do professor universitário. Há, também, a pesquisa e a extensão. Pesquisar, sozinho e em grupos de pesquisa, publicar o que se pesquisou e produziu (artigos, livros, capítulos de livros). Ler muito, estudar, escrever. Para pesquisar é preciso uma linha de pesquisa, e a uma linha de pesquisa se chega pela razão e pelo coração. As nossas relações afetivas e efetivas com linhas de pesquisa são quase como relações amorosas. As linhas de pesquisa são mais ou menos como mulheres lindas e inteligentes: elas são sempre complexas e variáveis. É preciso saber como chegar, como relacionar-se.

Além de pesquisar, o professor ajuda os estudantes a pesquisar. Para isso, é preciso tempo, muito tempo, já que pesquisar não é como fast food, é slow food, pizza a mão, esticando a massa, cozinhando-a em forno a lenha, lentamente...

Ensino, pesquisa, extensão. Extensão significa estender-se, esticar-se. É a universidade que se estica (se estende) até a comunidade. Ou a comunidade que se estica, se estende até a universidade. Extensão significa utilidade pública do saber universitário, estudar para mudar a sociedade, a universidade como meio de mudança social, e a comunidade como desafiadora da universidade, não permitindo que ela se feche.

Abrimos nossa caixa de correio eletrônico e encontramos pedidos de colaboração, de vários sujeitos, solicitando isso e aquilo. Eventos sobre isso e aquilo, todos vitais, na cidade, no Brasil ou fora do país. A comunidade ferve, e faz ferver a universidade. A universidade ferve, e faz ferver a comunidade. E nessa fervura toda, nós, professores, fervemos também.

Depois, tem o fato de a nossa universidade – Unipampa – ser uma universidade nova, situada numa fronteira sedenta de iniciativas, o que nos faz ferver bastante, felizes, mesmo se cansados. Para descansar a cabeça, escrevo artigos de opinião, terapêuticos para mim, pois faço, assim, meus balanços sentimentais e racionais semanais.

Penso que a melhor definição de professor universitário seja a figura do intelectual orgânico, expressão do pequeno-grande italiano Antonio Gramsci. Em suma, intelectual orgânico é o pesquisador dedicado, sério, metódico, que articula as relações entre teoria e prática, análise e estratégia, em função das mudanças sociais.

Ensino, pesquisa e extensão. Faltou a gestão. Ao menos nas universidades federais, que são de gestão democrática, além de ensino, pesquisa e extensão, o professor é chamado, também, a gerir o espaço onde trabalha, com seus colegas técnicos e os estudantes.

Por isso, quando os estudantes estão de férias, nós não “damos aula”, mas aproveitamos para trabalhar mais...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Chiara Luce Badano e Albertina Berkenbrock



(Lembrete - 15 de junho é festa de Albertina!)

Chiara Luce Badano foi beatificada em Roma, dia 25 de setembro de 2010.
Albertina foi beatificada em Tubarão, Santa Catarina, dia 20 de Outubro de 2007.
Duas meninas de cidades diferentes, países diferentes. Duas cidadãs da mesma cidade de Deus.

Albertina Berkenbrock nasceu na vila de São Luiz, sul do estado de Santa Catarina (Brasil), em 11 de abril de 1919. Foi assassinada no dia 15 de junho de 1931, aos 12 anos.
Chiara Luce nasceu em Sassello, Itália, no dia 29 de outubro de 1971, e faleceu no amanhecer do dia 7 de outubro de 1990, alguns dias antes de completar 19 anos.
Duas jovens que aderiram heroicamente à vontade de Deus, expressão que não significa resignação, mas libertação.

A pessoa de Deus e a vontade de Deus.
Para entendermos a vontade de Deus precisamos saber como é a pessoa de Deus. Deus é amor. Deus é Trindade. Deus é comunidade de amor. Deus quer que todos sejam um, como pediu Jesus antes de morrer (evangelho de João). Deus é pureza e quer que todos sejam puros de coração. Deus disse que são benditos os que amam a justiça, os puros de coração, os que são perseguidos por causa das boas notícias trazidas pelo nosso Deus, que foi carpinteiro em Nazaré, cidade que era pequenina como a Vila de São Luiz, onde nasceu, viveu e morreu a menina Albertina.

A vontade de Deus é humanamente libertadora. Politicamente libertadora. Deus nos quer vivendo a libertação do amor, da justiça, da pureza, da unidade entre todos os seres humanos, que não exclui a diversidade de culturas, mas as aprecia, como possibilidade, riqueza necessária à bela e santa unidade desejada por Deus.

Chiara Luce e Albertina viveram a justiça, o amor, a pureza, a unidade. Viveram a vontade libertadora de Deus, heroicamente. Santidade não significa separação do mundo, entendido como humanidade. Significa separação dos males do mundo, pelo combate interior, sobretudo, já que os males do mundo existem mais dentro do que fora de nós. Mas não significa separação da humanidade.

A santidade tem uma função social, além de uma origem social. Nasce na comunidade, pela humanidade, pela unidade da humanidade. Pureza, unidade, santidade, humanidade.

A vontade de Deus é social, pelo social, de origem social. Deus é social, Trindade, sendo pessoal. Trindade, humanidade, comunidade. Encontro do eu quando mergulha no nós. Personalismo comunitário, diriam Mounier e Maritain. Comunidade personalizante.

Chiara Luce conheceu aos 09 anos a espiritualidade comunitária do Movimento dos Focolares. Aos 17 anos, uma dor aguda no ombro esquerdo revelou nos exames e nas operações um tumor maligno nos ossos. Aos poucos, descobriu que viveria apenas mais alguns meses. Permaneceu alguns dias na cidade de Turim, numa casa emprestada por amigos, enquanto fazia seu tratamento no hospital da cidade. Ali, viveu 25 minutos que foram decisivos. Minutos de luta interior. Minutos revolucionários.

A vontade de Deus exige virilidade, coragem, adesão radical. Ela disse o seu sim, na intimidade mais íntima de sua alma. Quebrou sua alma por dentro, libertando-se como uma linda borboleta sai voando de um casulo. Deus é amor, pureza, justiça, unidade. Trindade, comunidade. O sorriso maduro, realista, profundo, divino de Chiara Luce é revelador de tal sublime realidade, eterna. Realidade maior (cidade de Deus-Trindade) já na realidade menor (cidade dos homens).

As últimas palavras de Chiara Luce: “Mãezinha, seja feliz porque eu o sou. Adeus”. Depois, várias outras palavras, silenciosas, revolucionárias, dirigidas do céu ao coração dos seres humanos, celular da alma, lugar de encontro entre a comunidade perfeita, do céu, e a comunidade em construção, na terra.

Albertina Berkenbrock também amava a vontade de Deus. Amava a liberdade, a pureza. Por amor ao amor, ela não cedeu a uma tentativa de estupro. Foi assassinada por alguém que conhecia, que ela ajudou, cuidando várias vezes dos filhos de seu agressor. Dele não recebeu o reconhecimento merecido, mas o corte na garganta que lhe tirou a vida na cidade terrestre.

Antes de irromper furiosamente sobre a menina, o agressor tentou seduzi-la. Ela disse não. O agressor pensou, então, que ela não resistiria à sua força física. Enganou-se. Albertina resistiu à violência psicológica do seu agressor, demonstrando não se tratar de uma menina ingênua. E resistiu, também, à violência física de um homem de 33 anos: ao redor da cena do crime havia muitas folhas amassadas e galhos quebrados, o que demonstra que ela lutou como pôde. Uma menina de 12 anos que sabia o que queria e o que não queria.

Percebendo que não conseguiria dobrar a vontade decidida de uma menina que agia movida por fortes convicções, o agressor decide eliminá-la. Corta-lhe a garganta, mas ela, nos poucos segundos de vida que ainda lhe restam, continuou lutando, como revelou o sangue espalhado ao redor da cena do crime*.

Já sem forças, ao cair encontra energias para cruzar suas jovens pernas: vitoriosa demonstração final de resistência à vontade criminosa de seu agressor. Vitoriosa demonstração de amor ao amor.

Mártir da liberdade, Albertina morreu lutando contra um homem que traiu a confiança dela e sua comunidade. Lutou contra o arbítrio. Lutou contra um tirano que tentou subjugá-la, mas não conseguiu dobrar sua vontade de amar o amor.

Albertina e Chiara Luce. Duas meninas fortes, decididas. Adesão viril, corajosa à vontade libertadora de Deus. Escolheram amar o amor, por amor, com amor. Estrelas-meninas da comunidade perfeita da cidade de Deus que brilham como referências gloriosas para nós, na cidade terrestre. Estrelas-meninas. Pureza, unidade com sabor de liberdade.

*CONGREGATIO DE CAUSIS SANCTORUM (P.N. 786). Beatificationis seu Declarationis Martyrii Serva Dei Albertinae Berkenbrock – Laicae (1919-1931). Positio super martyrio. Roma: Tipografia Nova Res s.r.l., 2002, p.31.

sábado, 4 de junho de 2011

Tempo bom pra mim é frio (Fábio R. Bento)


A moça do tempo da Globo
Disse que domingo tem tempo bom
Tempo bom pra ela é quente
Tempo bom pra mim é frio

O mate fica melhor
Pra ler também é bom
Cara gelada no frio
E um grito faceiro, de arrepio

Não é grito de bugio
É de felicidade...
De quem festeja a chegada do frio
Na mais nobre ou tenra idade

A moça do tempo da Globo
Disse que domingo tem tempo bom
Tempo bom pra ela é quente
Tempo bom pra mim é frio


Dia quente ninguém aguenta
Só a moça do tempo, não lamenta
Pensa em praia, areia, croquete de gente
Eu penso no inverno, vinho, linguiça e polenta

Chega o frio, o poncho corre do armário
Derrubando bolinhas de naftalina
A bombacha de lã o acompanha
Corre, faceira...
Todos juntos, agora perto da lareira

A moça do tempo da Globo
Disse que domingo tem tempo bom
Tempo bom pra ela é quente
Tempo bom pra mim é frio


Não sou da Família Addams
Mas no verão prefiro nublado
Nuvens amigas... Nem sempre compreendidas
Pouco amadas, às vezes odiadas

O calorão incomoda, mas o mundo gira
O bom do verão, é que ele um dia termina
Mais cedo ou mais tarde, volta o velho amigo frio
Ao menos para nós, aqui do sul do Brasil.

A moça do tempo da Globo
Disse que domingo tem tempo bom
Tempo bom pra ela é quente
Tempo bom pra mim é frio

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pais e filhos – muito mais que biologia


Minha filha adolescente ficou com o olho vermelho. Problemas com a lente de contacto. O médico disse que ela estava com uma úlcera no olho. Ficou uma semana fazendo curativos. Hoje, no consultório médico, vi que estava bem melhor. “Falta pouco”, disse-nos o médico.

Passei mal alguns dias. O olho machucado de nossa filha doía forte no meu coração, no coração de minha esposa. Procuramos o médico e não deixamos de recorrer à oração. “Santa Luzia, rogai por nós, por nossa filha e por todas as crianças do mundo”.

Esta experiência reforçou uma minha convicção: paternidade e maternidade são experiências muito mais sociológicas do que biológicas. Aliás, existiria uma primazia moral da biologia (pais naturais) em relação aos pais sociológicos (ou adotivos)? O sangue valeria mais do que o coração? Cuidar todos os dias e sofrer um pouco mais, em alguns momentos particulares, não é muito fácil. Custa, às vezes, algumas gotas de sangue da alma. Quem ama cuida. Amar e cuidar... Amar é cuidar.

“O filho é meu, fui eu quem botou no mundo, saiu do meu útero”, gritava a mãe biológica. Não adiantou. O juiz deixou a criança com a família adotiva, já que a mãe “natural” (palavra carregada de ambiguidades) havia deixado o menino em situação de quase morte por três vezes, além de ter queimado seu braço com o cigarro duas vezes.

Depois do Estatuto da Criança e do Adolescente, a supremacia do sangue (útero, espermatozoide) foi trocada pela supremacia do amor. Ainda bem, para o bem-estar das crianças. Tal estatuto permitiu aos juízes da infância o poder de decidir pelo bem-estar da criança, vencendo a ideologia da superioridade intrínseca do útero e do espermatozoide sobre o amor. A ditadura do pátrio poder biológico foi derrubada. Hoje, vigora o poder familiar de quem ama, cuida.

Quem ensina a amar-cuidar não é o útero, nem o espermatozoide, ou o sangue, mas o coração, entendido como centro mental e afetivo do ser humano. A troca da ideologia da supremacia da biologia pela ética do amor está gerando benefícios sociais diretos para as crianças e sociedade, corrigindo a injusta consideração dos pais sociológicos (adotivos) como pais de segunda categoria.

Claro que há pais e mães que amam seus filhos desde o útero. Desde o encontro entre óvulo e espermatozoide. O amor, porém, não vem do sangue (“sangue do meu sangue!”), mas do centro afetivo e efetivo do ser humano (coração), com sua capacidade sociológica, psicológica e espiritual de amar, gerar e ser gerado cotidianamente, concretamente, no tempo (história) e espaço (geográfico). Se o amor viesse do sangue, nenhuma mãe abandonaria no lixo um recém-nascido.

Penso que em toda forma de amor está contida uma opção pela adoção, até mesmo em relação aos filhos e filhas de origem biológica. Amar é cuidar. Cuidar do outro, cuidar dos pais, dos amigos. Cuidar da própria cidade, cuidar do mundo. Cuidar do outro como eu gostaria de ser cuidado por ele, por ela.

Dos leitores (via e-mail):
Fábio, gostei, porque eu amo e cuido daquele que veio se encontrar comigo pelo destino da vida. Obrigado por me lembrar disso. N.

Muito bonito. Escrevi um artigo sobre as peculiaridades do desenvolvimento psicológico de filhos adotados. Nele, termino com a mesma ideia que dizes no texto: “Toda pessoa é adotada. A concepção e o nascimento biológico não garantem o nascimento psíquico”. Abraços. Marina.

Que lindo Fábio! Emocionante! Adorei e concordo plenamente. Aliás, como diz Caetano: “quando a gente gosta, é claro que a gente cuida!”. Abração. Patrícia.

Sempre te admiro mais e mais e mais e mais... Obrigada. Beijos. Cacá.

Lindo! Inara.

Professor Fábio. Boa tarde. Muito bonito este seu texto, parabéns. Abraços. G.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Crítica da razão rasa - esquiadores e mergulhadores do saber


Há três lugares importantes na vida de um profissional-intelectual: a biblioteca, a praça e o café. Na biblioteca, estudamos; na praça, lutamos; no café, opinamos sem necessidade de notas de rodapé. A biblioteca pode ser pública ou privada (ou virtual). A sala de aula é sua companheira inseparável. A praça é o lugar da manifestação pública (também pode ser virtual, como blogs e assemelhados). No café, há, também, boas opiniões, mas, em geral, é o lugar dos despropósitos perdoáveis. “O café exclui a culpa”, diria um moralista sobre as opiniões líquidas ali emitidas. Sala de aula (e biblioteca) não é café, nem boteco. Uma opinião emitida em aula é diferente de uma opinião de café. Precisa de fundamentos. A lógica da aula é diferente da do café e da praça.

Uma universitária afirmou que “a ONU é uma bobagem”. Trata-se de uma boa estudante. Ela estava nervosa, meio indignada com a ONU. Expliquei-lhe que tratasse de analisar o conteúdo de seu julgamento. A ONU é expressão de uma necessidade de representação internacional. Necessidade de representação para que a ordem internacional seja mais ordem que desordem. Tal necessidade de representação assumiu uma forma concreta de representação que, talvez, tenha sido superada. A ONU e, sobretudo, seu Conselho de Segurança talvez assemelhem a uma roupa de criança com a qual se quer vestir um adolescente. Os instrumentos de representação internacional (roupa) não seriam mais adequados porque as características da representação internacional mudaram. A criança tornou-se um adolescente, mas esqueceram de usar roupas adequadas à sua nova idade (e tamanho). Ao dizer que “a ONU é uma bobagem”, a estudante jogou pela janela a água suja (roupa inadequada) com a necessidade de representação (a criança crescida que vestia a roupa apertada).

Uma das características do ser humano é sua triste mania de julgar mal. Costumamos avaliar o passado com os óculos do presente. Assim, idade média seria idade “das trevas”. Prefiro o método da sociologia compreensiva do velho (e sempre atual) Max Weber: identificar e compreender o significado das ações sociais no contexto em que foram realizadas. Não significa afirmar que tudo o que foi feito foi bem feito. Significa identificar o significado do que foi feito segundo quem fez. Compreender é o papel da ciência. Somente após compreender (cognição) podemos avaliar. Não penso que avaliar seja um defeito, mas uma qualidade do ser humano, desde que julguemos somente após descrever e compreender. A Inquisição foi um instrumento usado pelo Estado na manutenção da ordem social (segurança pública) numa época em que não havia a separação entre política e religião. “Não! Ela foi uma barbaridade!”. Sim, mas no que consiste tal barbaridade? O que nos autoriza a julgar o passado? Os óculos do presente? Aliás, do ponto de vista da segurança ambiental, recentemente furamos o planeta, e ainda não recolhemos todo o petróleo que vazou.

A sociologia estuda fatos sociais para compreender o significado intrafísico, profundo, da substância material (fundamentos dos fatos). Ela não é uma ciência rasa. A razão rasa não mergulha nas camadas mais profundas (intrafísica) dos fatos.

As opiniões da razão rasa fazem espuma e barulho. São como esquiadores brincando na superfície. Os mergulhadores, ao contrário, trazem do silêncio do fundo do mar as suas descobertas. Hoje, há mais esquiadores do que mergulhadores. Há mais barulho, estardalhaço, informação do que conhecimento. Ainda bem que temos os clássicos, mergulhadores sempre atuais neste mundo de saber espumoso, barulhento, superficial onde vivemos.

(Publicado em 01 de agosto de 2010)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Não jogue pedras na Geni


Há quem diga que homossexualidade seja um desvio da sexualidade. Outros dizem que se trata de uma derivação da sexualidade. E se fosse desvio, seria desvio escolhido, por opção, ou descoberta de uma condição, permanente, com a qual o sujeito deveria aprender a se relacionar para viver integrado consigo e com os outros? Ouvi um gay discordar não das paradas gays, mas do “excesso de frescura que as caracteriza”. Discordava, também, da promiscuidade sexual, de homo ou de heterossexuais. Um gay conservador.

Difícil entender a ação dos bandos de rapazes fortões, de academia diária, que espancam homossexuais magrinhos como um faquir. Seria covardia, medo do espelho? Vai ver que é por isso que não cessam de jogar pedras na Geni, ou no João de Baratati, não obstante as tantas e justas campanhas contra a homofobia.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Pássaros feridos não conseguem voar


Conversei com uma pessoa que me revelou suas mágoas profundas, antigas. Mágoas com seu pai, que faleceu há mais de vinte anos! Mágoas com seus irmãos. Mágoas, mágoas, mágoas conservadas no fundo da alma como se fossem pedras preciosas. “O que você pensa sobre o perdão?”, perguntei. “Não merecem o meu perdão”, respondeu.

Aqui está o problema: pensar que o perdão seja bom para os outros. O perdão é muito melhor para quem perdoa do que para quem é perdoado. Quem acumula rancores é como um pássaro ferido que não consegue voar. Nossa alma deseja voar pelos caminhos da contemplação. Ferida, não consegue. O que fazer? Para voar é preciso querer, em vez de permanecer arrastando-se pelos pântanos sombrios da amargura. Querer voar é o primeiro passo. Querer sanar as feridas da alma para poder percorrer os caminhos da liberdade.

“O passado se supera com o perdão” (Doriana Zamboni). Combater os sentimentos negativos que machucam a alma é o combate mais importante a ser feito na vida. Quais são os principais sentimentos negativos? Rancor, ódio, desânimo, tristeza excessiva, exaltação, pessimismo excessivo, otimismo excessivo, alegria excessiva. O excesso de alegria nos faz perder a sobriedade e a objetividade. Ou seja, mais cedo ou mais tarde atrai o seu oposto.

Triste o estado de quem vive com a alma permanentemente grudada no rancor, cultivando sentimentos de ódio. E basta odiar uma única pessoa para que o ódio condicione toda a nossa vida. Ou estamos unidos a todos ou não estamos unidos a ninguém. Não significa que não teremos inimigos, mas não seremos dominados pelos sentimentos típicos da inimizade. A inimizade será técnica, mas não afetiva. Há pessoas com as quais não podemos manter conversações profundas porque não temos aquele mínimo necessário de confiança. Com nossas filhas, combinamos assim: amar a todos, mas ser amigo de alguns.

Num mundo que não é um vale de felicidade, não podemos, como pais, negligenciar os ensinamentos da bela e sábia prudência. Portanto, amar a todos, abertura universal, sempre prudente, jamais guardar rancor, lutar contra os sentimentos negativos, mas ser amigo somente de alguns, com os quais compartilhamos valores profundos, e nos quais podemos confiar, relativamente. Como disse o grande profeta Jeremias, “maldito o homem que confia no outro homem”. Somente em Deus podemos confiar de forma absoluta.

Com ou sem culpa, algumas pessoas nunca gostarão de mim ou de você. Amar o inimigo nem sempre o torna amigo. Disso ninguém pode fugir. Mas podemos fugir do ódio, tampa da caixa de Pandora que libera os sentimentos negativos que aviltam a alma, fazendo dela um pássaro ferido que já não consegue mais voar.

Como podemos nos livrar de tais sentimentos negativos? Em primeiro lugar, querer, como dissemos, mas não acredito que querer seja poder. Querer é o primeiro passo, mas não basta. Bons diálogos ajudam muito. Bons psicólogos, também. Mas é, sobretudo, no altar solene da confissão sincera que queimamos nossos sentimentos negativos mais profundos, permitindo que a alma, com as asas da alegria sóbria da Graça, volte a voar pelos ares infindos do amor, da liberdade, da unidade regeneradora.
(publicado em março 2010)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Entrevista na Rádio Vaticano (Fábio Régio Bento)


Em fevereiro, em Roma, antes de voltar para o Brasil, recebi o convite para dar uma entrevista na Rádio Vaticano, programa "Em romaria - caminhando no terceiro milênio". A entrevista foi ao ar dia 24 de fevereiro de 2011. Conversa franca e simples com o jornalista Silvonei José sobre ética social, focolare, laicato brasileiro. Dura meia hora. Para ouvir a entrevista, clique aqui.

A paixão de Chiara Lubich pela Unidade


Chiara Lubich com sua turma de jovens estudantes italianos

Chiara faleceu há três anos, na madrugada do dia 14 de março de 2008, nas proximidades de Roma, aos 88 anos. Na verdade, ela não morreu, mas voltou para casa, após ter vivido e ensinado a viver pela fraternidade universal, ideal de quem ama a unidade que aprecia a diversidade. Unidade para a qual a diversidade é um pressuposto obrigatório, permanente.

As bombas da Segunda Guerra Mundial a impediram de cursar a universidade. Uma de suas amigas perdeu o noivo na guerra. O sonho de Chiara, estudar, foi interrompido e o de sua amiga, casar, também. Elas, então, se perguntaram: “Será que não existe um ideal que as bombas sejam incapazes de destruir?”. Foi a partir de tal pergunta que começaram a receber o que podemos chamar de revelações na revelação: ideias muito simples, como são as do evangelho de Jesus Cristo, mas com a força de palavras recém saídas do forno da boca de Deus, com seu hálito suave e transformador.

Chiara reconheceu que tudo realmente passa, menos Deus e o seu amor. Consagrou-se a Deus. Mas não entrou num convento. Permaneceu leiga, no meio do mundo. Rapidamente aquela ragazza bela e inteligente de apenas 23 anos atraiu a atenção de muitas pessoas. Quem dela e suas primeiras companheiras se aproximava sentia a presença de um fogo, como se estivesse próximo a uma lareira. Em italiano, usa-se a palavra focolare para designar o aconchego familiar ao redor de uma lareira. Os trentinos usaram tal palavra para designar a nova comunidade cristã que nasceu em Trento, em 1943, ao redor de Chiara Lubich: meninas e rapazes que deixavam tudo para seguir Jesus no movimento que ficou conhecido como Movimento dos Focolares.

Durante as férias, esses jovens das primeiras comunidades de Trento organizavam períodos mais longos de convivência, as Mariápolis (cidade de Maria). Eram cidades governadas pela lei do amor e pela presença de Jesus entre eles, conforme a promessa do evangelho de Mateus: “Onde dois ou mais estiverem unidos no meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20).

A partir das Mariápolis nas montanhas de Trento, o Movimento dos Focolares se espalhou pela Itália, Europa, América... Hoje, há comunidades do focolare em quase todos os países do mundo, nos cinco continentes.

Para Chiara, como para todos os cristãos, Deus é amor, mas um amor que se faz comunhão, unidade, comunidade viva. O testamento de Jesus: “Que todos sejam um” (João 17, 21) tornou-se a grande paixão de Chiara. Unidade entre os cristãos (ecumenismo); unidade entre os católicos; unidade entre as religiões; unidade na política (fraternidade); unidade na economia (comunhão de bens); unidade na família; unidade na escola; unidade entre as gerações; unidade entre os povos e nações.

O mundo, para ela, que via realisticamente os conflitos, tende à Unidade. O realismo maior de Chiara (cidade de Deus) não permitia que ela deixasse de viver pela unidade não obstante os tantos conflitos típicos da cidade terrestre.

Conversei pessoalmente com Chiara pela primeira vez em julho de 1987, no sul da Suíça. Olhar para os seus olhos foi como olhar para a eternidade, pois eles refletiam os horizontes infinitos do amor de Deus e sua cidade definitiva.

Chiara Lubich, mulher do diálogo com todos, de todas as culturas, de todos os continentes, mulher apaixonada pela unidade, mulher que soube sempre apreciar a diversidade cultural como riqueza que alimenta o coração da comunidade una e distinta como é a vida da Santíssima Trindade.
*Fotos de Chiara aos longos dos anos, em Loppiano - Clique aqui.

domingo, 13 de março de 2011

Depois das férias...


Sinto-me melhor no frio. Leio mais. Penso com mais tranquilidade. Desejo com mais moderação. Sofro, também, com mais moderação.

Na França, de férias, o lago do pátio do local onde ficamos congelou. Brincamos de jogar pedaços de madeira, vê-los deslizar... Brincar de jogar tocos, com as crianças, no lago congelado... Adultos voltam a ser o que sempre são...

Fiz 48 anos. Daqui a dois anos vou me tornar adulto... Ainda disponho de dois anos de juventude... Vou caprichar para entrar bem na fase adulta da vida.

Dizem que os franceses são antipáticos. Mas se você falar em francês, mesmo entre erros, eles premiam tua boa vontade. Pegamos um trem errado, perto de Paris. Em francês, pedi explicação a um jovem, e pedi o seu celular emprestado. Ele nos emprestou. Tentei pagar pela ligação feita. Ele não aceitou. Não foi antipático. Foi gentil. Nas três (ou quatro?) vezes em que visitei a França, fui sempre tratado com educação.

A Europa sofre. Não de frio. Sofre de tristeza. De melancolia. Perda de poder de consumo. Meio sem rumo. A Europa trabalha. Franceses pegam o trem todas as manhãs para trabalharem em Paris. Voltam de trem no final da tarde. Todos os dias. Trens às vezes lotados. Leituras de bordo. Sonhando com a Europa, com a América, com a África, com a Ásia... A Oceania é mais distante, mas também cabe nos sonhos.

Fronteiras entre a França, o Brasil e a Itália. Fronteiras culturais, limites físicos... Somos diferentes, e menos mal. Somos, também, a mesma coisa. Sonhamos, sofremos, nos arrependemos, desanimamos, reencontramos a esperança. Na França, comemos crepes. Na Itália, pizzas ao corte. No Brasil, voltei a comer carne. Comidas diferentes, todos sentimos fome. “Somos todos iguais, braços dados ou não...”. Somos todos diferentes. Fronteiras físicas, fronteiras culturais. Farinhas em sacos diferentes... Todos farinha...

O mundo mudando no norte da África, e eu de férias. Interessado, mas de férias. Iguais e diferentes.

Passear, ver de novo Paris, agora com as filhas. Passear, ver de novo Roma, com as filhas... Filhas que valem mais que o Coliseu, que a Torre Eiffel... Precisa educar, motivar ao estudo, valores práticos, nos fazem sofrer, mas, mas são as filhas, eternos monumentos...

De volta para casa, alegria e, depois, tristeza. Depressão pós-férias. Um ano pela frente. Desafios que pesam na alma, na mente, no corpo. Propósitos. Emagrecer, estudar, publicar, organizar. Desejar mudar o mundo cansa. Navegar é preciso, uma onda de cada vez... A mesma velha certeza de sempre: a esperança que não decepciona. A noite revela as estrelas. Joelhos dobrados. Coração em oração, revolução, conexão. Cidade de Deus, o farol funciona de noite.

Enquanto isso, franceses e italianos vão e voltam de trem para o trabalho. Sofrem, choram, sonham, riem como eu, como você... Bocas beiçudas, ou alegres, que beijam e mordem, como a minha e a tua...