quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Terrorismo eleitoral


Estávamos em 1969, eu tinha seis anos. Tomei banho, mudei de bermudas, coloquei uma camiseta listrada, dourado e azulão. Na casa de um amigo, a conversa era em tom assustador. Adultos preocupados com a possível passagem pela cidade de dois “terroristas tupamaros”, do Uruguai. Eu não sabia o que era um terrorista e muito menos um tupamaro. Na rua, sozinho, notei que havia um Jeep com dois desconhecidos. Fugi com medo de que fossem os tais tupamaros.

O medo dos tupamaros gerou, também, a curiosidade. Seriam eles como homens de ferro? Ou como o Thor? Minha compreensão das coisas estava associada aos meus brinquedos. “Os tupamaros são comunistas”, ouvi. Continuei sem entender. Terrorista, tupamaro, comunista, palavras diferentes, todas elas associadas ao medo e, também, ao mistério.

Dez anos depois, entrei numa favela, com um amigo, para deixar uma caixa de mantimentos para uma família pobre. Fiquei horrorizado. Em vez de ir embora, após entregar as doações permaneci lá, conversando. Um casal jovem, ele trabalhava 13 horas por dia numa olaria e ganhava muito pouco. “Pobre não é pobre porque não quer trabalhar”, concluí. Na minha escola, comecei a ler livros de história para tentar entender por quais motivos algumas pessoas, mesmo trabalhando 13 horas por dia, não tinham um salário digno.

Continuei frequentando as favelas. Continuei lendo. Continuei com aquele desejo novo de mudar o mundo, ou, ao menos, a cidade. “Como mudar?”, perguntei-me. Lendo, descobri: por meio de reformas ou de revolução. Na cidade de Pelotas, uma palestra sobre mudanças e revolução, para alguns convidados. “Sou comunista, mas não como criancinhas”, disse o palestrante, rindo, brincando. Lembrei-me logo de meus medos de infância, o medo dos comunistas tupamaros. Como já escrevi outras vezes, foi pelos caminhos da vontade de mudar o mundo que fiz amizade com alguns comunistas.

Descobri, depois, quem foi o lutador Tupac Amaru, de onde o nome tupamaros. Um revoltado, como eu, como você, contra as injustiças sociais. Ao ler o livro “Batismo de Sangue”, do frei Betto, percebi que terrorismo foi palavra usada pela oposição. Terroristas seriam bandidos de esquerda? Depende. Há casos e casos. Há os que deixaram o país logo depois do golpe de 1964. E há os que ficaram, para resistir, para tentar tirar da cadeia os amigos que estavam sendo torturados, presos sem direito à defesa.

Terrorismo, no Brasil, não foi coisa de bandido de esquerda, mas coisa de bandido de direita, torturadores, pais culturais dos que hoje entopem nossas caixas de e-mails com mensagens difamantes contra uma mulher, cidadã brasileira, mãe e avó. Dilma não é uma bandida de esquerda, e José Serra não foi concebido sem pecado original.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Eleições 2010 – pastores, ovelhas e cofrinhos


Deus e a vontade de Deus continuam sendo usados como cabos-eleitorais, para santificar candidatos ou demonizar outros. Com a editora Paulus, publiquei o livro Cristianismo, humanismo e democracia (São Paulo, 2005). Título do primeiro capítulo: “Da soberania dos pastores à soberania das ovelhas”. Tal artigo foi motivado pelo relato de um ex-aluno, vereador, segundo o qual quando um pastor evangélico prometia 500 votos numa comunidade (em troca do quê?), ele sabia que a promessa se realizava, com pouca margem de erro. “Os pastores mandam e as dóceis ovelhas obedecem, votam em quem eles mandam”, resumiu. Manipulação política da parábola do bom pastor.

Há comunidades evangélicas que usam a palavra ministro, e não pastor, para designar suas lideranças, justamente para evitar ambiguidades graves do ponto de vista político-religioso. Pela manipulação política da figura do bom pastor, os demais membros da comunidade cristã são reduzidos ao estado deplorável de “ovelhas” submissas, acríticas, passivas. Na verdade, pelo batismo, todos os cristãos são sacerdotes, profetas e pastores. E não somente alguns. Depois, por razões de serviço à comunidade, há tarefas diferentes, serviços diferentes.

Todos os batizados têm uma consciência, onde Deus fala. Todos são, ao mesmo tempo, docentes e discentes. Nos concílios, as diversas opiniões são debatidas por diversas consciências, representativas da comunidade dos cristãos.

Nas eleições de 2010, o oportunismo sorridente e melodramático, em forma de falso pastoralismo, manifestou-se com força total, sobretudo, na internet. Em voga, como matéria de manipulação eleitoral, os temas de bioética (disciplina acadêmica onde está situada a discussão sobre o aborto).

O principal desafio bioético, no Brasil, é o da superação da mistanásia, ou eutanásia social, a morte de milhares por razões de miséria. Sou contra o aborto. Sou a favor da pesquisa, também com células tronco, desde que não seja feita com embriões (sou contra o uso nazista da ciência). Mas também sou contra a mistanásia, cuja hipocrisia puritana nem sabe o que é. Nos EUA, um presidente foi processado por ter mantido relações sexuais com uma estagiária. Outro presidente promoveu a morte de milhares de seres humanos na invasão do Iraque, mas os puritanos hipócritas nem deram bola para isso.

No Brasil, cada um de nós, segundo a sua consciência, vai votar em quem julgar melhor, Dilma ou Serra, mas a partir de critérios racionais, levando em conta que quem decide sobre aborto é o legislativo. Sobre mistanásia, quem decide é, sobretudo, o executivo, por meio de políticas sociais.

Quem quiser votar no Serra ou na Dilma, que o faça, com responsabilidade, superando as armadilhas oportunistas dos pastores profissionais, melodramáticos, hábeis na conquista de ovelhas dóceis e bonitinhas como cofrinhos de escrivaninha.