sexta-feira, 23 de julho de 2010

Governos e universidades – dar a César o que é de César...

A cena é conhecida no Brasil. Após as eleições municipais, alguns prefeitos, em vez de escolherem profissionais competentes, escolhem para as secretarias municipais secretários sem competência na área específica da secretaria, escolhidos porque foram cabos-eleitorais do partido ou coligação que, ao se eleger, usa secretarias do povo como prêmios de consolação para seus cabos-eleitorais.

Secretário municipal competente precisa ter duas características: amor pela cidade onde vive (amor pelo território) e conhecimento profundo do setor específico de sua secretaria. Não precisa nascer na cidade para amá-la, mas é preciso que seja adotada de coração.

Eleitores votam em vereadores e prefeitos, mas as secretarias municipais são muitas vezes entregues às traças da politicagem eleitoreira. Penso que isso deva ser mudado no Brasil. Ou votar também para secretários municipais ou exigir que os candidatos a prefeito apresentem seus possíveis futuros secretários, durante o período da campanha eleitoral. Assim, os eleitores poderão avaliar os dois itens citados: biografia, amor pela cidade; conhecimento específico referente à secretaria que assumirá caso tal prefeito seja eleito.

Caso contrário, as secretarias poderão ser ocupadas por cabos-eleitorais que passam 04 anos argumentando que não fazem nada ou muito pouco porque a prefeitura não tem dinheiro, exceto para pagar os seus salários, é claro.

Infelizmente, há quem se torne vereador, prefeito, secretário municipal sem saber fazer o que deveria saber fazer. Depois da conquista do voto é que buscam (quando buscam) cursos de formação técnica para executivo e legislativo pagos com dinheiro público. Somente em política são escolhidos candidatos que não sabem fazer o que deveriam fazer. Seria como escolher um médico para trabalhar num hospital antes de ele estudar medicina. Ou escolher um juiz de direito para um fórum antes de ele cursar direito.

Lembro de um amigo, professor universitário de química, já aposentado, que era frequentemente convidado a colaborar com a prefeitura de sua cidade. Colaborava em questões referentes ao meio ambiente. Para ele, tratava-se de ajudar sua cidade, a cidade onde estavam crescendo seus filhos. Porém, num certo momento, “caiu a ficha”: “Estou sendo usado por secretários incompetentes”, descobriu. Secretários incompetentes buscavam a “assistência técnica” de um cidadão dedicado, professor universitário, para compensarem a própria incapacidade técnica. Meu amigo parou de colaborar com o governo da prefeitura. Descobriu que existe uma diferença entre trabalhar pela cidade que se ama e trabalhar para governos.

Buscar assistência técnica na ciência e universidades não é coisa de políticos de hoje. Hitler contou com a ajuda científica de químicos para praticar genocídios. Buscar a separação entre ciência e política também não é coisa de hoje. O sociólogo Max Weber fez duas palestras (que se tornaram um livro) explicando as diferenças entre política e ciência. Nas universidades, a extensão é desafio central, junto com ensino e pesquisa. Mas extensão significa trabalho da universidade pela (e com a) comunidade, e não uso politiqueiro do conhecimento científico produzido pela universidade por oportunistas políticos profissionais.

Compensar incompetência técnica com uso da universidade não é extensão, mas instrumentalização política da ciência. A autonomia da universidade em relação ao poder político de governos é algo a ser preservado pelo bem das comunidades, universidades e governos. Com as cidades, sim. Com os governos, depende. São necessárias regras, acordos, convênios caracterizados pela prudência, com cláusulas de garantia de autonomia que não permitam que o conhecimento científico seja manipulado pela politicagem eleitoreira.

“Dar a César o que é de César”, regra de autonomia administrativa e ideológica que vale para igrejas, deveria valer também para ciência e universidades.

sábado, 3 de julho de 2010

Quem ama a ordem promove o progresso

Fiz uma faxina numas gavetas. Ficou tudo direitinho. Depois, fiz faxina nos arquivos do computador, ordenei todas as pastas e arquivos. Ordenar as coisas deixa uma sensação de bem-estar, de felicidade. “Que bom seria poder encontrar as cidades do jeito que ficaram, agora, minhas gavetas”, pensei. Os sociólogos fundadores da sociologia amavam a ordem social. É de Augusto Comte as palavras de nossa bandeira: Ordem e Progresso.

“O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”, escreveu Comte no seu Catecismo Positivista. De fato, a boa ordem é a motivada pelo amor. Marx também amava a ordem. Queria uma ordem comunista, que sempre ordem era. Durkheim, ao estudar a desintegração social, queria a ordem da integração. Max Weber, ao separar analiticamente a ciência política e a ação política, quis ordenar as relações entre a praça (onde se reivindica) e a biblioteca e sala de aula (onde se estuda e pesquisa). E são somente alguns exemplos de amor pela ordem. Até o anarquista Bakunin queria a ordem, uma nova ordem, centrada na soberania da comunidade, e não a desordem.

A ordem social, amada por sociólogos e cidadãos, não é de esquerda nem de direita. A ordem é necessária nas nossas gavetas e nas nossas cidades. O trabalho pela ordem não é assunto de militares, mas de todos, civis e militares. A democracia não é desordem, mas ordem democrática, com direitos e deveres. Quem fere a ordem democrática não deve ser tolerado, mas punido. Quem se serve da liberdade (democrática) para fugir das responsabilidades (também democráticas) deve ser punido pelo sistema normativo de proteção da ordem democrática.

A ordem social é uma necessidade humana, coletiva. Sem ordem não há progresso social. A ordem exige, sobretudo, amor. E o amor verdadeiro ama a disciplina, a responsabilidade, o que excluiu a desordem profissional que vigora na administração pública de cidades e estados.

Ordem municipal, nacional e internacional. Quem é o principal sujeito responsável pela ordem? O estado, as forças armadas, o mercado, o indivíduo? Não acredito que seja o estado, nem o mercado, nem os militares, nem o individualismo, praga típica de nossos tempos. Acredito na soberania da comunidade. Não sou comunista nem individualista. Sou comunitarista.

Acredito que o eu se realiza, sobretudo, quando mergulha no nós, na comunidade, mas numa comunidade sadia, livre, socialmente responsável. O comunismo é só uma lembrança. O individualismo é uma dura realidade. Acredito no comunitarismo, na soberania da comunidade sadia, onde a pessoa se realiza em relação, personalismo comunitário de todos nós e dos franceses Emmanuel Mounier (1905-1950) e Jacques Maritain (1882-1973).

A ordem não é coisa do passado. Não é nazista, fascista ou comunista. A ordem é necessária. A ordem é humana. É de todos e para todos. É cristã, budista, muçulmana. Deus é ordem, não é caos. Deus é cosmos: ordem, organização, beleza, harmonia. Gaveta desarrumada e cidades desordenadas são o contrário da ordem, da beleza, da harmonia. Assim como Marx, Comte, Durkheim, Weber, Bakunin, Mounier, Maritain, eu e você também amamos e queremos a ordem pública e privada, local e internacional, econômica, política, cultural. A ordem da diversidade, do pluralismo, engrenagem que funciona somente com o óleo da tolerância, do amor, da responsabilidade pública e privada.

“Amor, ordem e progresso”. Comte tinha razão. E Bakunin também. Soberania da comunidade, comunitarismo, personalismo comunitário. Comunidade-sujeito da ordem que gera progresso social. Ordem civil, com a colaboração profissional indispensável dos militares dos estados democráticos. Ordem democrático-constitucional. Ordem, ordem, ordem nas gavetas, nas cidades e no mundo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

E-mails dos leitores sobre artigo Brasil-Roma-Brasil

Oi Fábio, super bom, como sempre... A minha sogra já dizia, viagem é uma riqueza que ninguém te tira! (...) Um grande abraço para todos vocês com muito carinho.
Jane

Achei o artigo “podre” de maravilhoso! Acreditas que fiquei com lágrimas nos olhos? Meio coisa de quem vive fora de seu país e tenta amar o país do outro como se fosse o seu. Hoje, depois do jogo do Brasil, coloquei uma bandeira do Uruguay no vidro lateral direito do meu carro e outra do Brasil no vidro esquerdo. E que vença quem chegar mais longe! Vou encaminhar para (...). Ela ficou muito impressionada com a fronteira entre Rivera e Livramento. Beijos saudosos.
Cláudia

Oi Fábio. Que maravilha... Bom saber que estivesse na Itália! É bom revigorar o ânimo através das tuas palavras, afinal é incrível como consegues transmitir a bondade, o amor e a capacidade humana de despertar bons sentimentos e bons fluidos! Elas chegam sempre na nossa alma... Por isso, são tão valiosas! Obrigada por compartilhar comigo! Sinto-me privilegiada! Grande abraço para você, esposa e meninas! Saudades!
Patrícia.

Bom dia Índio Velho! Me deixastes de coração queimando ao ler sua experiência de mundo unido... Sem fronteira! Bom final de semana junto das meninas muito queridas!
Um grande abraço! Mundo unido!
João Ary

Caro Amigo. Adorei ler teu artigo sobre a viagem a Roma! Imagino o que escreverias sobre o “nosso” paraíso aqui em Pescaria Brava. Não esqueçaa de incluí-lo em próxima rota internacional! Um abração saudoso!
Leda.

Tchê Fábio Tenho te lido sempre e fiquei contente com este último artigo sobre a tua viagem a Roma. Não sei bem, mas acho que o segredo das fronteiras passa pelo espelho: como é possível que nos olhemos e que possamos de alguma maneira nos enxergarmos melhor do que outros ou mais merecedores do que os outros? Somos mais e menos que os outros, em igual proporção e qualidade, em santidade e pecado, em vida e morte. Beijão em ti, na prenda e nas gurias!
Juadir

Bento. Que lindo texto. Gostei: que o fogo eterno da unidade, que aprecia a diversidade, permeie nossos corações e ações.
Lima

Valeu Fábio! O único problema é que fiquei com água na boca, querendo provar cordeiro, novilho, vinho chileno e, é claro, a goiabada mineira. Um grande abraço.
Márcio Vale (BH)

Fábio. Excelente artigo. Dei umas boas risadas sobre o avião.
Um abraço
Rogério