sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Boas férias!


Desejo boas férias aos leitores do blog. Vou para o frio, descansar a cabeça. O blog vai ficar sem atualização no mês de janeiro.
Boas férias e Feliz 2011!
Obrigado pela sua companhia em 2010!
Fábio

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ibirapuitã – coração do pampa


Domingo, 21 de novembro de 2010. Com dois amigos, saímos do centro de Santana do Livramento em direção à APA (Área de Proteção Ambiental) do Ibirapuitã. Mais de 60 quilômetros de estrada de chão. Mergulhamos na brisa que pairava sobre o tapete verde do pampa.

Na metade do caminho, um cardeal de crista erguida cantava bravamente. O sol fazia o vermelho de sua crista ficar mais forte. Corpo azul e branco. As cores da Revolução Francesa anunciando uma manhã de liberdade, igualdade e fraternidade pelo canto valente de um cardeal gaudério, ave maragata do nosso pampa.

Lá na frente, uma lebre. Paramos novamente o carro, para admirá-la. Ela baixou as orelhas, ficou imóvel imitando uma pedra. Pensou que tinha nos enganado. Continuamos contemplando a beleza da preservação da natureza, APA, que não serve para a caça, mas para alimentar a alma pela contemplação de tal magnífico ambiente e suas belas criaturas.

Continuando, outra lebre, dois jacus, emas e mais emas, várias outras aves. Durante todo o percurso, cavalos crioulos. Cavalos possantes. Animais fortes e delicados, simpáticos, a beleza e a força sobre quatro patas, velozes, esvoaçando crinas longas, amantes da liberdade.

Estamos, agora, navegando nas coxilhas do mar verde do pampa, deserto verde, sem sombra, quente no verão e gelado no inverno. Sem sinal de celular. Sem nenhum outro carro além do nosso. É a região onde o homem se faz macho. Ao lado da estrada, uma vaca morta, em estado de decomposição, lembra que o mar verde do pampa, sem sombra, é um teste de coragem para homens e mulheres. Deixa-nos em estado de humildade. O mar verde do pampa assusta e encanta. Ondas do oceano pampeiro, coxilhas de veludo borbulhante.

“Será que pegamos a estrada certa? E essa fazenda que não chega...”. Medos, dúvidas misturadas à contemplação de magnífica beleza. Depois, lá embaixo, surge, finalmente, a fazenda centenária, cerca de pedra, árvores. Mais abaixo, próxima à fazenda, uma cinta de verde mais intenso, árvores e mais árvores dobrando-se pelo campo, protegendo um tesouro escondido, dominado pela timidez, receoso de revelar sua beleza.

Entramos no coração do pampa e encontramos o tesouro verde esmeralda, protegido por suas amadas árvores. Sua excelência reverendíssima o Rio Ibirapuitã! Beleza forte e frágil, protegido também pelo amor de uma legislação, APA do Ibirapuitã, templo da natureza, verde esmeralda, coração do pampa, alma da nossa alma de gaúchos, brasileiros, sul-americanos.

À noite, já em Santana do Livramento, banho tomado, show com Joca Martins, poeta das nossas coisas do sul, continuação falada, musicada, da riqueza pampeira do Ibirapuitã. “Qualquer lugar é querência, se houver cavalo crioulo”. Crinas livres, crioulas, soltas no vento, aquerenciando o coração de homens e mulheres amados pela vastidão verde do pampa, e pelo verde esmeralda de sua excelência, o Ibirapuitã.

Cardeal de crista vermelha; lebres; crioulos de crinas livres; coxilhas do mar verde do pampa; solidão e multidão; medo e felicidade; águas cristalinas, sussurrantes...
Beleza amada. Beleza contemplada. Beleza que precisa ser preservada.

Dos leitores, por e-mail:

Caro Fábio... mas que texto forte e bonito!
Sou Catarina : ) bom, na verdade virei apenas brasileira, porque de viver em Curitiba e no Rio, já me confundi. Mas sei que sou brasileira! : )
Agora... gosto muito desses termos da sua terra. Essa coisa de “coxilhas do mar verde do pampa” é coisa de Guimarães Rosa das paragens sulistas : )
Belíssimo!!! Abraços
Vívian

Divino!!! Eu conheci parte desta esmeralda, uma pedrinha, mas que traduz os teus versos (prosa poética)! Parabéns!
Marileia.

Brilhante, como sempre, e emocionante.
Cada vez tenho mais certeza de que apenas demora um pouco, mas a gente consegue estar num lugar, se encontrar com ele e consigo mesmo.
Abraço gaudério.
Nelson B.

Belo texto, Caro Poeta Gaucho!
Abraços aqui de Fortaleza, onde estamos discutindo interdisciplinaridade, inclusive aplicada aos estudos de compreensão e conservação do "ambiente" em sentido amplo.
Valdir

Fábio,
Obrigado pela descrição poética da natureza. Pela sua narrativa também fizemos o passeio junto contigo.
Um grande abraço.
Poncio

Bom dia Índio Velho!
Obrigado... gostei muito! Assim comecei bem o meu dia de labuta.
Grande abraço!
João Ary

Obrigado Fabio.
Um dia destes gostaria de conhecer estes lugares que nos fazem pensar ao paraíso.
Abraço
Fernando

Muito lindo. Escrito com alma de poeta.
Abraço.
Sirlene

Fábio
Que privilégio poder encontrar territórios onde o progresso, sem alma, ainda não chegou.
Assim, dizem, era o paraíso: lugar primoroso do qual fomos expulsos, do qual também temos saudades e para o qual parece que todos desejariam retornar.
Pois, amigo, parece que você consegui se lambuzar de beleza original.
Abraço
Mânfio

Obrigado Fábio por esta “visita a este ‘Paraíso terrestre’”. A tua descrição é tão fotográfica que tive a sensação de estar viajando com vocês.
Gilberto

Boa tarde professor!
Acabei de ler o artigo sobre o Ibirapuitã, muito linda a tua descrição... aquele lugar possui uma energia incomparável mesmo. Podemos sentir a história passeando por nossos sentidos, em forma de aromas, imagens e sons. A proteção desses ambientes é imprescindível para que as futuras gerações possam ter a noção de como era o habitat de seus ancestrais mais remotos, e as condições em que foram formados alguns alicerces de nossa cultura...
Abraço
Leonardo Borges

Pampa para sempre


Obrigado meu Deus, pelo pampa, por todas as suas criaturas, tuas criaturas, e livrai-nos da tentação do eucalipto e pinus, agora e sempre, na nossa APA e em todo o pampa.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Livramento - Dezembro de 2010


Santana do Livramento, 12 de dezembro de 2010. Domingo.
Pela manhã, calor de verão. Após o almoço, frio de rachar.
Na foto, de pala e, mesmo assim, com frio, a prova de que o clima anda mesmo meio estranho...
O único clima que continua estável é o da alegria gerada pela companhia de amigos, cavalos, cachorros...
Na moldura pampeira da fronteira...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Terrorismo eleitoral


Estávamos em 1969, eu tinha seis anos. Tomei banho, mudei de bermudas, coloquei uma camiseta listrada, dourado e azulão. Na casa de um amigo, a conversa era em tom assustador. Adultos preocupados com a possível passagem pela cidade de dois “terroristas tupamaros”, do Uruguai. Eu não sabia o que era um terrorista e muito menos um tupamaro. Na rua, sozinho, notei que havia um Jeep com dois desconhecidos. Fugi com medo de que fossem os tais tupamaros.

O medo dos tupamaros gerou, também, a curiosidade. Seriam eles como homens de ferro? Ou como o Thor? Minha compreensão das coisas estava associada aos meus brinquedos. “Os tupamaros são comunistas”, ouvi. Continuei sem entender. Terrorista, tupamaro, comunista, palavras diferentes, todas elas associadas ao medo e, também, ao mistério.

Dez anos depois, entrei numa favela, com um amigo, para deixar uma caixa de mantimentos para uma família pobre. Fiquei horrorizado. Em vez de ir embora, após entregar as doações permaneci lá, conversando. Um casal jovem, ele trabalhava 13 horas por dia numa olaria e ganhava muito pouco. “Pobre não é pobre porque não quer trabalhar”, concluí. Na minha escola, comecei a ler livros de história para tentar entender por quais motivos algumas pessoas, mesmo trabalhando 13 horas por dia, não tinham um salário digno.

Continuei frequentando as favelas. Continuei lendo. Continuei com aquele desejo novo de mudar o mundo, ou, ao menos, a cidade. “Como mudar?”, perguntei-me. Lendo, descobri: por meio de reformas ou de revolução. Na cidade de Pelotas, uma palestra sobre mudanças e revolução, para alguns convidados. “Sou comunista, mas não como criancinhas”, disse o palestrante, rindo, brincando. Lembrei-me logo de meus medos de infância, o medo dos comunistas tupamaros. Como já escrevi outras vezes, foi pelos caminhos da vontade de mudar o mundo que fiz amizade com alguns comunistas.

Descobri, depois, quem foi o lutador Tupac Amaru, de onde o nome tupamaros. Um revoltado, como eu, como você, contra as injustiças sociais. Ao ler o livro “Batismo de Sangue”, do frei Betto, percebi que terrorismo foi palavra usada pela oposição. Terroristas seriam bandidos de esquerda? Depende. Há casos e casos. Há os que deixaram o país logo depois do golpe de 1964. E há os que ficaram, para resistir, para tentar tirar da cadeia os amigos que estavam sendo torturados, presos sem direito à defesa.

Terrorismo, no Brasil, não foi coisa de bandido de esquerda, mas coisa de bandido de direita, torturadores, pais culturais dos que hoje entopem nossas caixas de e-mails com mensagens difamantes contra uma mulher, cidadã brasileira, mãe e avó. Dilma não é uma bandida de esquerda, e José Serra não foi concebido sem pecado original.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Eleições 2010 – pastores, ovelhas e cofrinhos


Deus e a vontade de Deus continuam sendo usados como cabos-eleitorais, para santificar candidatos ou demonizar outros. Com a editora Paulus, publiquei o livro Cristianismo, humanismo e democracia (São Paulo, 2005). Título do primeiro capítulo: “Da soberania dos pastores à soberania das ovelhas”. Tal artigo foi motivado pelo relato de um ex-aluno, vereador, segundo o qual quando um pastor evangélico prometia 500 votos numa comunidade (em troca do quê?), ele sabia que a promessa se realizava, com pouca margem de erro. “Os pastores mandam e as dóceis ovelhas obedecem, votam em quem eles mandam”, resumiu. Manipulação política da parábola do bom pastor.

Há comunidades evangélicas que usam a palavra ministro, e não pastor, para designar suas lideranças, justamente para evitar ambiguidades graves do ponto de vista político-religioso. Pela manipulação política da figura do bom pastor, os demais membros da comunidade cristã são reduzidos ao estado deplorável de “ovelhas” submissas, acríticas, passivas. Na verdade, pelo batismo, todos os cristãos são sacerdotes, profetas e pastores. E não somente alguns. Depois, por razões de serviço à comunidade, há tarefas diferentes, serviços diferentes.

Todos os batizados têm uma consciência, onde Deus fala. Todos são, ao mesmo tempo, docentes e discentes. Nos concílios, as diversas opiniões são debatidas por diversas consciências, representativas da comunidade dos cristãos.

Nas eleições de 2010, o oportunismo sorridente e melodramático, em forma de falso pastoralismo, manifestou-se com força total, sobretudo, na internet. Em voga, como matéria de manipulação eleitoral, os temas de bioética (disciplina acadêmica onde está situada a discussão sobre o aborto).

O principal desafio bioético, no Brasil, é o da superação da mistanásia, ou eutanásia social, a morte de milhares por razões de miséria. Sou contra o aborto. Sou a favor da pesquisa, também com células tronco, desde que não seja feita com embriões (sou contra o uso nazista da ciência). Mas também sou contra a mistanásia, cuja hipocrisia puritana nem sabe o que é. Nos EUA, um presidente foi processado por ter mantido relações sexuais com uma estagiária. Outro presidente promoveu a morte de milhares de seres humanos na invasão do Iraque, mas os puritanos hipócritas nem deram bola para isso.

No Brasil, cada um de nós, segundo a sua consciência, vai votar em quem julgar melhor, Dilma ou Serra, mas a partir de critérios racionais, levando em conta que quem decide sobre aborto é o legislativo. Sobre mistanásia, quem decide é, sobretudo, o executivo, por meio de políticas sociais.

Quem quiser votar no Serra ou na Dilma, que o faça, com responsabilidade, superando as armadilhas oportunistas dos pastores profissionais, melodramáticos, hábeis na conquista de ovelhas dóceis e bonitinhas como cofrinhos de escrivaninha.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O segredo da felicidade de Chiara Luce


Escrito em co-autoria com Anna Carletti

No sábado passado, dia 25 de setembro, mais de 20.000 pessoas, sobretudo jovens, vindos de todas as partes do mundo, se encontraram em Roma para festejar o reconhecimento da santidade de vida de uma jovem italiana, Chiara Luce (Clara Luz) Badano, falecida aos 18 anos por um tumor nos ossos. Uma vida, a de Chiara Luce, aparentemente simples, sem nada de extraordinário, comum aos jovens de sua idade: a escola, o esporte, as reuniões de final da tarde com os amigos na praça da pequena cidade onde ela vivia. Contudo, quando a grave doença é diagnosticada, algo de surpreendente acontece. Chiara Luce, após momentos de inevitável decepção, raiva diante da notícia que interrompe bruscamente seus projetos, seus sonhos e que a distanciaria sempre mais de uma vida ordinária, é capaz de reagir, de aceitar a doença e de transformá-la no segredo de uma felicidade profunda e douradora que espalhou ao seu redor até o final de sua vida.

Qual foi o segredo que tornou a experiência de Chiara Luce mundialmente conhecida? Aos nove anos de idade, junto com seus pais, Chiara Luce participou de um encontro mundial de famílias, o Family Fest, organizado pelo Movimento dos Focolares. Ali, ela aprendeu que o evangelho pode ser vivido, e que havia um Pai que a amava imensamente. Com outras meninas e meninos de sua idade, ela se lança em viver dessa maneira, fazendo do amor seu novo estilo de vida. Por exemplo, no dia do seu aniversário, tendo recebido uma boa quantia em dinheiro, decide doar tudo em prol de projetos de desenvolvimento na África. Com seus colegas de escola, nunca falava de Deus, pois ela queria transmiti-lo por meio de suas ações, do seu amor atento e delicado.

Amava praticar esporte, principalmente o tênis. E foi justamente jogando tênis que a doença se manifestou. Uma dor aguda lhe fez cair a raquete da mão. Era o início de uma longa e dolorosa doença que lhe tirou o uso das pernas e a obrigou a longos períodos no hospital. Após dois anos de tentativas, a medicina não tinha mais o que fazer, e Chiara Luce voltou para casa. O pai de Chiara, no dia da beatificação de sua filha revelou que foram dois anos especiais, a realidade era de dor, mas o amor de Deus os mantinha como que em um nível mais elevado onde o amor que eles experimentavam era mais forte. Chiara Luce, no início de sua doença, num diálogo silencioso de 25 minutos com aquele Pai do qual se sentia amada imensamente, conseguiu dizer seu sim e acreditou que a doença se tornaria um instrumento de santificação, um caminho especial por meio do qual poderia doar a todos a realidade de felicidade e Luz que experimentava dentro dela.

Os médicos ficaram impressionados pela sua coragem, pelo amor dado a quem ia visitá-la. Jovens e adultos saiam daquele quarto revigorados pela certeza da presença de Deus amor que eles viam nos olhos luminosos de Chiara Luce. Ela recusou a morfina, não obstante as fortes dores na coluna. O motivo por ela alegado é que lhe tirava a lucidez, e ela queria ficar lúcida para oferecer perfeitamente as dores que sentia.

Com sua melhor amiga, preparou o seu funeral, escolhendo as músicas, as flores, a roupa de noiva que ela vestiria naquele dia, que queria fosse tão belo quanto uma festa de núpcias. Mesmo sofrendo, continuava a menina alegre de sempre, brincava com seus pais, com os amigos, gravava mensagens para se fazer presente nos encontros do movimento, já que não podia mais participar fisicamente. No seu quarto, assim como no seu coração, cabia o mundo.

No último dia, quando percebeu que o momento de sua partida estava se aproximando, pediu para a mãe que deixasse entrar as pessoas que tinham vindo saudá-la. “Vou tirar o oxigênio para que não se assustem”. Saudou cada um, deixando especialmente para os jovens de sua idade a tarefa de levar para frente o Ideal de sua vida. Por fim, despediu-se de sua mãe. Acariciando-lhe os cabelos, disse: “Mãe, seja feliz, porque eu o sou”. A experiência de Chiara Luce chegou aos 04 cantos do mundo e, também, no mundo virtual, por meio do Twitter, Facebook, Youtube.

sábado, 25 de setembro de 2010

Chiara Luce Badano


Chiara Luce agora é Bem-aventurada!
Exemplo de vida para mim, para ti, para nós.
Chiara Luce Badano nasceu em Sassello, Itália, no dia 29 de outubro de 1971, depois que os pais a aguardaram por 11 anos. Aos 09 anos conheceu a espiritualidade do Movimento dos Focolares. Viveu-a e pouco a pouco envolveu os pais. Aos 17 anos, de repente uma dor aguda no ombro esquerdo revelou nos exames e nas operações um osteossarcoma (tumor maligno nos ossos), que deu início a um calvário de dois anos aproximadamente.

Não perdeu o seu sorriso luminoso. Repetia: “Não tenho mais nada, contudo, tenho o meu coração e com ele posso sempre amar”. O seu quarto, no hospital, em Turim, ou em casa, era um lugar de encontro. Os médicos ficavam desconcertados com a paz que se sentia ao seu redor. Os amigos que a visitavam para consolá-la voltavam para casa consolados. Chiara preparou-se para o encontro com Deus: “É o esposo que vem me encontrar”. E escolheu vestido de noiva, canções e as orações para a sua missa, que deveria ser uma festa, onde ninguém deveria chorar. Encontrou-se com o “esposo” no amanhecer do dia 7 de outubro de 1990, depois de uma noite muito dolorosa. Estas foram suas últimas palavras: “Mãezinha, seja feliz porque eu o sou. Adeus”. Ela também fez a doação das suas córneas.

Chiara Luce Badano foi beatificada hoje, em Roma, dia 25 de setembro de 2010.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Em defesa da farofa e do Doggy Bag

Chegou a farinha amazonense que encomendei. Amarela. Ouro comestível. Sabor incomparável. Farinha de Maués, cidade que, para quem não soubesse, está a um dia de viagem de barco de Manaus. Maués é a cidade do guaraná, com suas frutas de olhos de índias. Cada região com a sua riqueza. A carne do sul é boa, mas a farinha do norte é muito melhor. Por lá vive, também, com seu sabor inigualável, Madame Tambaqui, lindas costelas coloridas de laranja pelas brasas.

Faço farofa apenas com óleo de oliva e sal fino. Não gosto daquelas farofas com ingredientes não identificados. A farofa feita com farinha do norte é tão boa que basta o seu sabor. É como a carne boa, que não pede temperos, apenas sal e fogo. Farofa amarela, crocante, saborosa, combina com tudo. Boa e bonita. Enfeita o prato, branco. Prato colorido confunde a vista. Prato tem que ser branco, tela do quadro, gastronomia é pintura comestível, fumegante, arte que alimenta os olhos, o corpo e a alma.

Sou farofeiro no duplo sentido da palavra. Amo farofa e amo aquele comportamento que alguns brasileiros que se consideram chiques abominam: levar comida de casa. Quando viajamos e conseguimos tempo para organizar o lanche, preparamos sempre uns pãezinhos recheados com presunto e queijo. Preferencialmente presunto cru e queijo em lascas grossas (não gosto de queijo fatiado, prefiro o sistema Jerry, do inoxidável cartoon). Certa vez, viajando de Santana do Livramento para Pelotas, paramos na praça central de Pinheiro Machado, abrimos nossa sacola do fiambre e saboreamos nosso lanche caseiro, entre copos de água e suco de vinho. Farofeiros inveterados! Recolhemos o lixo. Na praça, ficaram apenas os farelos, que foram logo varridos pelos pássaros.

Por onde viajamos costumamos praticar o farofismo. Já é uma tradição. Na Itália, em vez de pagar caro por um sanduíche pronto, costumamos comprar o necessário no supermercado e preparar os lanches antes de viajar. É mais saboroso, barato e divertido. Até o vinho em garrafinha costumo carregar para o lanche, exceto quando dirijo. “Apologia à farofa é crime!” – esbraveja o brasileiro chique.

Outro costume que atrai negativas com a cabeça é pedir para embrulhar a sobra do restaurante para levar para casa. Inicialmente, eu dizia que era para o cachorro (mas era para mim). Depois, botei a culpa na babá, que estaria em casa faminta. Agora, perdi de vez a vergonha: “Garçom, enrola a boia sobrada que vou comer depois”. Caso você fique com vergonha, use o idioma do Jerry para amenizar o impacto: “Garçom, a conta e o Doggy Bag”, que significa embrulhar a comida sobrada e levar para comer em casa. Uma pesquisa revelou que o Doggy Bag está em alta. É o farofismo que avança.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Televisão, Família e Escola (UnisulTV)

Comentário sobre televisão, família e escola, divulgado no telejornal Câmera Aberta, da UnisulTV (SC), em 04/06/2007.

domingo, 8 de agosto de 2010

Uma garçonete do Uruguai

Entramos no restaurante, vazio. Uma cidade histórica do Uruguai, muito bonita, Colônia do Sacramento. O garçom, parado, continuou imóvel. Vários minutos depois, aproximou-se, trazendo um cardápio. Pensei em pedir explicações sobre um prato. Mas o garçom sumiu. “O proprietário do restaurante deve morar longe, deve pagar mal, e o garçom está descontando nos clientes”, pensei, tentando entender o clima de desfalecimento que caracterizava tal restaurante, bonito na forma e feio no serviço. Fomos embora. Em um outro restaurante, mesma cidade, perguntei sobre o vinho da casa, aquele que a gente compra por cálice ou jarrinha. A garçonete só faltou rir de mim por eu optar por um cálice de vinho, e não por uma garrafa.

Em tal restaurante, as garrafas de vinho serviam de decoração, em pé, algumas perto da saída de ar quente do Split. Mesmo não entendendo sobre conservação de garrafas de vinho, a garçonete sentiu-se no direito de duvidar de minha escolha “popular” de um cálice de vinho da casa em vez de comprar uma garrafa de rolha seca. Além disso, ela e o outro garçom não falavam português. Ora, assim como garçons de cidades turísticas brasileiras deveriam saber espanhol, garçons de cidades turísticas do Uruguai também deveriam saber português. Senti saudades de Rivera, onde os restaurantes que conheço são muito bons e onde se fala espanhol, português e portunhol.

De volta a Livramento, em nossa rápida visita à fronteira do Uruguai com a Argentina, passamos por Fray Bentos, que nos deixou uma bela impressão, e dormimos em Paysandú, que foi nossa melhor surpresa. Dormimos no hotel El Jardín, na rua Montevidéu, uma casa transformada em hotel. Excelente quarto, quádruplo, atendimento excelente, ótimo café da manhã, perto da lareira, acesa. Um jardim magnífico no centro da casa (hotel). Melhor e mais barato que o hotel em que ficamos em Colônia. E o melhor estava por vir.

Jantamos no Restaurante La 16, rua 18 de Julio. Comida boa. Mas o que mais nos impressionou foi o profissionalismo da garçonete. Eu já comi em muitos restaurantes, no Brasil, Itália, Portugal, Áustria, República Tcheca, Hungria, Israel, Malta, etc. Algumas vezes, por convite de amigos ricos (que pagavam a conta!), comi em lugares bem sofisticados. Bem, no Restaurante La 16, encontrei o melhor serviço de garçonete que já experimentei em minha vida.

Alejandra Toffolon sabia como chegar, como sair, como se comunicar, como entregar, como recolher, que expressões usar. Nada a menos nem a mais. Modéstia, sobriedade, determinação. Serviço perfeito! Nem lembro mais o que comemos. Lembro apenas que bons restaurantes não são feitos apenas de boa comida, vinho, mesas, cadeiras, mas, sobretudo, de bons profissionais. O ser humano continua a ser nossa pior decepção ou nossa melhor surpresa.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Governos e universidades – dar a César o que é de César...

A cena é conhecida no Brasil. Após as eleições municipais, alguns prefeitos, em vez de escolherem profissionais competentes, escolhem para as secretarias municipais secretários sem competência na área específica da secretaria, escolhidos porque foram cabos-eleitorais do partido ou coligação que, ao se eleger, usa secretarias do povo como prêmios de consolação para seus cabos-eleitorais.

Secretário municipal competente precisa ter duas características: amor pela cidade onde vive (amor pelo território) e conhecimento profundo do setor específico de sua secretaria. Não precisa nascer na cidade para amá-la, mas é preciso que seja adotada de coração.

Eleitores votam em vereadores e prefeitos, mas as secretarias municipais são muitas vezes entregues às traças da politicagem eleitoreira. Penso que isso deva ser mudado no Brasil. Ou votar também para secretários municipais ou exigir que os candidatos a prefeito apresentem seus possíveis futuros secretários, durante o período da campanha eleitoral. Assim, os eleitores poderão avaliar os dois itens citados: biografia, amor pela cidade; conhecimento específico referente à secretaria que assumirá caso tal prefeito seja eleito.

Caso contrário, as secretarias poderão ser ocupadas por cabos-eleitorais que passam 04 anos argumentando que não fazem nada ou muito pouco porque a prefeitura não tem dinheiro, exceto para pagar os seus salários, é claro.

Infelizmente, há quem se torne vereador, prefeito, secretário municipal sem saber fazer o que deveria saber fazer. Depois da conquista do voto é que buscam (quando buscam) cursos de formação técnica para executivo e legislativo pagos com dinheiro público. Somente em política são escolhidos candidatos que não sabem fazer o que deveriam fazer. Seria como escolher um médico para trabalhar num hospital antes de ele estudar medicina. Ou escolher um juiz de direito para um fórum antes de ele cursar direito.

Lembro de um amigo, professor universitário de química, já aposentado, que era frequentemente convidado a colaborar com a prefeitura de sua cidade. Colaborava em questões referentes ao meio ambiente. Para ele, tratava-se de ajudar sua cidade, a cidade onde estavam crescendo seus filhos. Porém, num certo momento, “caiu a ficha”: “Estou sendo usado por secretários incompetentes”, descobriu. Secretários incompetentes buscavam a “assistência técnica” de um cidadão dedicado, professor universitário, para compensarem a própria incapacidade técnica. Meu amigo parou de colaborar com o governo da prefeitura. Descobriu que existe uma diferença entre trabalhar pela cidade que se ama e trabalhar para governos.

Buscar assistência técnica na ciência e universidades não é coisa de políticos de hoje. Hitler contou com a ajuda científica de químicos para praticar genocídios. Buscar a separação entre ciência e política também não é coisa de hoje. O sociólogo Max Weber fez duas palestras (que se tornaram um livro) explicando as diferenças entre política e ciência. Nas universidades, a extensão é desafio central, junto com ensino e pesquisa. Mas extensão significa trabalho da universidade pela (e com a) comunidade, e não uso politiqueiro do conhecimento científico produzido pela universidade por oportunistas políticos profissionais.

Compensar incompetência técnica com uso da universidade não é extensão, mas instrumentalização política da ciência. A autonomia da universidade em relação ao poder político de governos é algo a ser preservado pelo bem das comunidades, universidades e governos. Com as cidades, sim. Com os governos, depende. São necessárias regras, acordos, convênios caracterizados pela prudência, com cláusulas de garantia de autonomia que não permitam que o conhecimento científico seja manipulado pela politicagem eleitoreira.

“Dar a César o que é de César”, regra de autonomia administrativa e ideológica que vale para igrejas, deveria valer também para ciência e universidades.

sábado, 3 de julho de 2010

Quem ama a ordem promove o progresso

Fiz uma faxina numas gavetas. Ficou tudo direitinho. Depois, fiz faxina nos arquivos do computador, ordenei todas as pastas e arquivos. Ordenar as coisas deixa uma sensação de bem-estar, de felicidade. “Que bom seria poder encontrar as cidades do jeito que ficaram, agora, minhas gavetas”, pensei. Os sociólogos fundadores da sociologia amavam a ordem social. É de Augusto Comte as palavras de nossa bandeira: Ordem e Progresso.

“O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”, escreveu Comte no seu Catecismo Positivista. De fato, a boa ordem é a motivada pelo amor. Marx também amava a ordem. Queria uma ordem comunista, que sempre ordem era. Durkheim, ao estudar a desintegração social, queria a ordem da integração. Max Weber, ao separar analiticamente a ciência política e a ação política, quis ordenar as relações entre a praça (onde se reivindica) e a biblioteca e sala de aula (onde se estuda e pesquisa). E são somente alguns exemplos de amor pela ordem. Até o anarquista Bakunin queria a ordem, uma nova ordem, centrada na soberania da comunidade, e não a desordem.

A ordem social, amada por sociólogos e cidadãos, não é de esquerda nem de direita. A ordem é necessária nas nossas gavetas e nas nossas cidades. O trabalho pela ordem não é assunto de militares, mas de todos, civis e militares. A democracia não é desordem, mas ordem democrática, com direitos e deveres. Quem fere a ordem democrática não deve ser tolerado, mas punido. Quem se serve da liberdade (democrática) para fugir das responsabilidades (também democráticas) deve ser punido pelo sistema normativo de proteção da ordem democrática.

A ordem social é uma necessidade humana, coletiva. Sem ordem não há progresso social. A ordem exige, sobretudo, amor. E o amor verdadeiro ama a disciplina, a responsabilidade, o que excluiu a desordem profissional que vigora na administração pública de cidades e estados.

Ordem municipal, nacional e internacional. Quem é o principal sujeito responsável pela ordem? O estado, as forças armadas, o mercado, o indivíduo? Não acredito que seja o estado, nem o mercado, nem os militares, nem o individualismo, praga típica de nossos tempos. Acredito na soberania da comunidade. Não sou comunista nem individualista. Sou comunitarista.

Acredito que o eu se realiza, sobretudo, quando mergulha no nós, na comunidade, mas numa comunidade sadia, livre, socialmente responsável. O comunismo é só uma lembrança. O individualismo é uma dura realidade. Acredito no comunitarismo, na soberania da comunidade sadia, onde a pessoa se realiza em relação, personalismo comunitário de todos nós e dos franceses Emmanuel Mounier (1905-1950) e Jacques Maritain (1882-1973).

A ordem não é coisa do passado. Não é nazista, fascista ou comunista. A ordem é necessária. A ordem é humana. É de todos e para todos. É cristã, budista, muçulmana. Deus é ordem, não é caos. Deus é cosmos: ordem, organização, beleza, harmonia. Gaveta desarrumada e cidades desordenadas são o contrário da ordem, da beleza, da harmonia. Assim como Marx, Comte, Durkheim, Weber, Bakunin, Mounier, Maritain, eu e você também amamos e queremos a ordem pública e privada, local e internacional, econômica, política, cultural. A ordem da diversidade, do pluralismo, engrenagem que funciona somente com o óleo da tolerância, do amor, da responsabilidade pública e privada.

“Amor, ordem e progresso”. Comte tinha razão. E Bakunin também. Soberania da comunidade, comunitarismo, personalismo comunitário. Comunidade-sujeito da ordem que gera progresso social. Ordem civil, com a colaboração profissional indispensável dos militares dos estados democráticos. Ordem democrático-constitucional. Ordem, ordem, ordem nas gavetas, nas cidades e no mundo.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

E-mails dos leitores sobre artigo Brasil-Roma-Brasil

Oi Fábio, super bom, como sempre... A minha sogra já dizia, viagem é uma riqueza que ninguém te tira! (...) Um grande abraço para todos vocês com muito carinho.
Jane

Achei o artigo “podre” de maravilhoso! Acreditas que fiquei com lágrimas nos olhos? Meio coisa de quem vive fora de seu país e tenta amar o país do outro como se fosse o seu. Hoje, depois do jogo do Brasil, coloquei uma bandeira do Uruguay no vidro lateral direito do meu carro e outra do Brasil no vidro esquerdo. E que vença quem chegar mais longe! Vou encaminhar para (...). Ela ficou muito impressionada com a fronteira entre Rivera e Livramento. Beijos saudosos.
Cláudia

Oi Fábio. Que maravilha... Bom saber que estivesse na Itália! É bom revigorar o ânimo através das tuas palavras, afinal é incrível como consegues transmitir a bondade, o amor e a capacidade humana de despertar bons sentimentos e bons fluidos! Elas chegam sempre na nossa alma... Por isso, são tão valiosas! Obrigada por compartilhar comigo! Sinto-me privilegiada! Grande abraço para você, esposa e meninas! Saudades!
Patrícia.

Bom dia Índio Velho! Me deixastes de coração queimando ao ler sua experiência de mundo unido... Sem fronteira! Bom final de semana junto das meninas muito queridas!
Um grande abraço! Mundo unido!
João Ary

Caro Amigo. Adorei ler teu artigo sobre a viagem a Roma! Imagino o que escreverias sobre o “nosso” paraíso aqui em Pescaria Brava. Não esqueçaa de incluí-lo em próxima rota internacional! Um abração saudoso!
Leda.

Tchê Fábio Tenho te lido sempre e fiquei contente com este último artigo sobre a tua viagem a Roma. Não sei bem, mas acho que o segredo das fronteiras passa pelo espelho: como é possível que nos olhemos e que possamos de alguma maneira nos enxergarmos melhor do que outros ou mais merecedores do que os outros? Somos mais e menos que os outros, em igual proporção e qualidade, em santidade e pecado, em vida e morte. Beijão em ti, na prenda e nas gurias!
Juadir

Bento. Que lindo texto. Gostei: que o fogo eterno da unidade, que aprecia a diversidade, permeie nossos corações e ações.
Lima

Valeu Fábio! O único problema é que fiquei com água na boca, querendo provar cordeiro, novilho, vinho chileno e, é claro, a goiabada mineira. Um grande abraço.
Márcio Vale (BH)

Fábio. Excelente artigo. Dei umas boas risadas sobre o avião.
Um abraço
Rogério

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Brasil-Roma-Brasil

Fazia dois anos que eu não atravessava o Atlântico. Entrei no voo da Alitalia, dia 11 de junho passado, com as mãos molhadas. “Meu Deus, peço-te para segurar este troço no ar até o aeroporto de Roma”, rezei. “O avião é um milagre da ciência. Um prédio que viaja na horizontal”, disse-me um amigo. Como não acredito na infalibilidade da ciência, faço minhas orações ao criador da lei da gravidade.

Em Roma, um congresso maravilhoso. Os 05 continentes representados em 75 pessoas. Tradução para 08 idiomas. Todos participavam, sobretudo, com breves comunicações. Organização impecável. Horário religiosamente respeitado. Das 09h00 às 13h00 e das 16h00 às 19h30. Quando terminava o tempo, o mediador interrompia: “Stop! É hora do intervalo!”. Foi muito bom, sem palestras esticadas. Respeitar o horário é um ato precioso de amor.

Nos intervalos, conversas com pessoas da Croácia, de Madagascar, França, República dos Camarões, Itália, Alemanha, EUA, México, Argentina, Espanha, Portugal, Malta, etc. Conversei muito sobre o tema “fronteira”: fronteiras “sedentárias” (físicas) e fronteiras “nômades”, no miolo dos estados. Alguns não acreditavam quando lhes dizia que vivo numa fronteira aberta, numa cidade binacional, onde uma praça une dois povos em vez de muros que separam. “Mas onde é feito o controle de passaportes?”, perguntavam. “Não há controle de passaportes entre Rivera e Livramento”, explicava. O amigo da Croácia ficou maravilhado, contente. Aliás, noto sempre mais um grande carinho geral pelo Brasil. “Como posso fazer para trabalhar no Brasil?”, perguntou-me um italiano, profissionalmente bem inserido em seu país, que revelou seu desejo de vir morar na nossa terra pátria.

“Amar a pátria do outro como se fosse a minha” é uma regra que aprendi com a italiana Chiara Lubich, regra que tento praticar sempre, e que me traz ótimos resultados. Quando você ama o país do outro como se fosse o seu, você é mais amado e, ao retornar à sua terra pátria, você a reencontra mais bonita. Ao amar o país do outro como se fosse o próprio, você ama mais o próprio país e o mundo.

De fato, ao retornar ao Brasil, neste dia 20 de junho, voltei com o coração e a mente cheios de outros lugares. Voltei mais africano, mais croata, mais italiano, mais francês. Rivalidade entre países deveria ser apenas tema para piadas, caricaturas, brincadeiras. As situações de graves separações entre países são uma espécie de câncer do corpo internacional. Como seria bom que a regra de Chiara Lubich fosse colocada em prática em todas as fronteiras...

Bem, voltei de Roma como um Boitatá, queimando de alegria por dentro e por fora. Feliz da vida porque vivo para que todos sejam um (João 17), a utopia de Jesus, sonho internacionalista atual, urgente, necessário, vital! Feliz da vida porque, durante a semana internacional que vivi em Roma, procurei amar a pátria do outro como se fosse a minha. De brinde, Deus deu-me um grande presente: voltar para Santana do Livramento, cidade onde vivo e trabalho, onde estou criando minhas filhas no espírito prático de integração efetiva que existe entre Brasil e Uruguai. Não é uma integração perfeita, mas muito satisfatória.

Para celebrar minha alegria de voltar para a fronteira da paz, com o coração repleto de afeto por outros povos e países, comprei um belo pedaço de costela de novilho do Uruguai, um pedaço de cordeiro santanense, vinho tinto chileno e goiabada de Minas Gerais. Celebrei, com minha família, a alegria do retorno, meio Boitatá mesmo, queimando de alegria no fogo eterno da unidade que aprecia a diversidade.

sábado, 15 de maio de 2010

Pizzaria Loppiano - Sabores do sul e do norte

Sopa combina com inverno. Família reunida na sala. Minha mãe está de visita. Minhas filhas e sua avó. Minha esposa. Quatro mulheres conversando e um homem na cozinha. Corto a abóbora em pedaços, descasco a cebola, sem cortá-la. Batatas sempre vão bem com tudo. Cozinho. Bato a cebola cozida no liquidificador. É um ato de amor. Minha filha menor come cebola, desde que não a veja.

Esmago a abóbora e a batata. Misturo tudo, água boa, do aquífero guarani. Corto o pão em cubinhos. Azeite de oliva, sal e cubinhos de pão. Juntos e sob o calor se transformam em pão crocante. Queijo ralado na hora, fresco, jovem, frisante. Parmesão que comprei no Uruguai, que fica na rua ao lado, aqui no Brasil, Santana do Livramento, onde em maio já uso a jaqueta de couro que usava somente em julho, em Tubarão, Santa Catarina.

Mesa posta. Minha filha aquecendo as mãos no vapor da sopa. Parmesão na sopa, ralado grosso. Pedaços de pão crocantes, quentes. A sopa vai para o estômago, mas passa antes pelo coração da família. Sopa, água e vinho tinto. Unidade, amor e sopa. Vista alegre. Cores, aromas, sabores. Sabores do frio. Antes da sopa, a oração. Uma amiga está doente. Rezamos todos juntos por ela. Todos de mãos juntas com o rosto envolto no vapor do amor, no vapor da sopa. Vapor, amor, unidade. Conversa sobre os temperos do Brasil e da Itália. A Sálvia parece de veludo.

Quem inventou o tempero? Deus cozinhou um dia? Jesus assou peixe para os seus amigos, que eram seus discípulos. Peixe, pão, água e vinho. Deus cozinhou por amor. Deus se deu em refeição, eucaristia. A Sálvia fica crocante quando frita no azeite de oliva. A minha única fritura. Azeite fortalece. Outro alimento divino. Milhares de sabores e aromas. Devem ter origem divina. Seriam eternos os sabores, as cores e os aromas? Eternos e, talvez, infinitos. Milhares de combinações. Quanta coisa se encontra no aroma de cada cálice de vinho.

No Brasil, a Amazônia: terra dos cheiros, dos gostos, das cores. De barco, no Rio Negro. De barco em direção a Maués. Lá, o cheiro do guaraná, a planta mais bela que existe. Olho mágico, olho lindo, olho divino. Cores e sabores. No barco, brisas com cheiros diferentes. Na terra, a farinha amarela. Combina com tudo, perfeita. Neste mundo, somente no mundo dos alimentos há perfeição. Somente o mundo dos alimentos não foi perturbado pelos efeitos do pecado original. Exceto os salgadinhos de pacotinhos. Bem, mas eles não são filhos da natureza.

Na Amazônia, o sabor do Tambaqui. Cor alaranjada, assada, no espeto, na grelha. Sabor incomparável. Costela de Tambaqui. Linda costela, que encanta, apaixona. Na Amazônia, o sabor do Cupuaçu. Aroma forte. Eu o amo. Desde que os vi, os amei, e amo-os para sempre. Tomara que no céu exista Cupuaçu. Será que um dia Jesus assará Tambaqui para mim? Não mereço, mas quero ser seu amigo. Jesus, eu, Tambaqui, com o menino Marcelino, mais o pão e o vinho.

Na Itália, Loppiano está na Toscana. Terra do Chianti, vinho bom, tranquilo. Loppiano, cidade da unidade, da relacionalidade. Nela vivi por um ano. Visitei os conventos e as colinas da Toscana. Os sabores, aromas e cores da Toscana. Em Manaus, um carioca casou com uma mineira. Fizeram filhas. Fizeram família. Fizeram uma pizzaria. Juntaram o que puderam num único lugar. Sabores de Nápoles. Água, Vesúvio e farinha!

Nápoles mais Loppiano mais Cupuaçu mais Tucumã mais Jambu (do Tacacá) mais fatias de Tambaqui mais Rio de Janeiro mais Minas Gerais mais o amor que fez três filhas e centenas de amigos é igual a Pizzaria Loppiano, em Manaus, de Manaus, laboratório de aromas, sabores, amores. Saudades de ti, Amazônia. Saudades de vocês.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Big Bosta Brasil

“Qual sua opinião sobre o BBB?”, perguntou-me um jornalista ao telefone. “Não perco o meu tempo com tal porcaria televisiva”, respondi. “Mas o senhor, como sociólogo, deveria ver o BBB”, recomendou o jornalista, agora consultor. “Ora, não preciso comer bosta para saber que ela é ruim. Pelo cheiro já dar para saber do que se trata”, respondi. Tal diálogo ocorreu durante um dos BBBs, talvez fosse o de número 06 ou 07.

"Não gostou? Muda de canal!". Sim, mas além disso podemos também manifestar que não gostamos.

O tempo máximo que gastei com BBB não foi nem de dois minutos. Após um pouco mais de um minuto de visão já deu para ficar nauseado.

Big Bosta Brasil significa declaração de insanidade, sobretudo dos que se idiotizam matando o tempo (tempicídio) em frente a tal transformação do coliforme fecal em programação televisiva.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Amigos de velhice

“Quem são teus melhores amigos? Quem são teus amigos de infância?”. Tais perguntas me angustiaram na adolescência. Ora, a minha lista não era muito grande. Pouca gente e muitos cachorros (que morreram). Algumas amizades não resistiram ao teste do tempo. Fiquei meio triste ao pensar nisso. Lembrei, então, dos amigos de hoje. Não foram muitos os amigos de infância, mas são muitos os amigos e as amigas de “velhice”.

Desde o dia em que decidi assumir o rumo moral, intelectual, político e espiritual de minha vida, ou seja, desde o dia em que me responsabilizei por meu destino, entregando-o a Deus, passei, sem prever, a criar laços firmes, bons, de amizade com muitos amigos e amigas, de idades, nações, classes sociais diferentes. Parece que quando pensamos mais nas coisas do mundo, nas coisas da res-pública (coisa pública), fazemos mais amigos e amigas.

Com uma de minhas amigas, casei-me. Nossa bela amizade dá sabor ao nosso casamento. Os anos passam e não percebemos. A amizade quebra os relógios da rotina, transformando-a em novidade costumeira. Geramos novas amigas, nossas filhas. Difícil ser amigo delas quando só choravam e enchiam fraldas. Gosto mais agora, quando fazem perguntas, comentários.

Na “velhice”, tornei-me amigo também dos meus parentes, coisa mais difícil quando se é criança. Dentre meus amigos de velhice, está meu falecido pai, do qual me tornei irmão; está minha mãe, da qual sou amigo; está meu irmão, do qual sou muito mais amigo hoje do que antes, quando brigávamos em casa; estão minhas três irmãs, das quais sou amigo hoje. Sendo mais velhas, me mandavam fazer compras. Terrível a vida de irmão mandado. A bela amizade de agora, com minhas irmãs, prova que não existe verdadeira fraternidade sem o pressuposto da igualdade, ou seja, até a fraternidade de sangue precisa ser construída, a partir da liberdade e igualdade, para que se torne amor, amizade, fraternidade sólida.

Os amigos e amigas de “velhice” são excelentes! Não nos encontramos sempre, até porque estamos em países diferentes, ou em universos diferentes, mas nos amamos com santa gratuidade.

O que mais me leva a crer na eternidade da vida não é tanto a teologia, ou a fé (também ajudam), mas, sobretudo, as boas amizades. Eu não acredito na morte das amizades aprovadas no teste do tempo. Elas vão além do tempo. São eternas. Fraternidade eterna, universal.

Acredito na eternidade da unidade personalizante do amor recíproco, gratuito, simples, das gargalhadas sóbrias por dentro cuja origem dever ser espiritual.
Tenho amigos de vários credos, inclusive ateus. Um deles vive a solidariedade com criatividade de artesão. É um autêntico republicano do amor. Pergunta: conta mais acreditar no amor, e vivê-lo, mesmo sem ter fé religiosa, ou, tendo fé religiosa, se lixar para o amor, como fizeram os “crentes” do mensalão de Brasília que “oraram” pela propina recebida?

Se a vida eterna não existisse, o amor recíproco, no presente, já valeria a pena. O amor vale no presente, pelo que é, e, se for mesmo eterno, como penso, será, também, passaporte para a terra do amor, onde as boas e velhas amizades, de tão velhas, se tornaram eternas, ou seja, jovens para sempre.