terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reforma do quarto poder

Claro que, para viver, um jornal precisa de dinheiro. O problema é quando busca-se dinheiro a qualquer custo. Ora, o certo é usar a criatividade do bem, da boa concorrência para buscar dinheiro para a sobrevivência de um jornal, inventando, inovando. A liberdade, criatividade deve navegar nesse mar de águas turbulentas e não no esgoto subterrâneo da indecência.

Para que um pai digno não fique triste ao ver seu filho, ou filha, jornalista, trabalhar em um jornal, duas regras são certamente importantes: uma política e outra econômica. Política. Praticar a regra da par conditio, ou seja, tratamento igualitário, condições pares, o que significa permitir o mesmo espaço no veículo de comunicação para os grupos envolvidos em disputas eleitorais. O contrário disso é a morte do quarto poder, quando um veículo de comunicação trabalha de forma golpista, oportunista, apoiando candidatos, direta ou indiretamente, de acordo com as possibilidades econômicas que a vitória ou derrota de x ou y possa assegurar ao jornal. Ora, há meios de comunicação e telecomunicação com sérios problemas, sobretudo no âmbito nacional, nesse quesito. 

Uma universidade inventou até o “manchetômetro”, um medidor de manchetes negativas ou positivas sobre política e verificou que em um dado telejornal não há par conditio. Regra econômica. A regra econômica é simples, mesmo se de difícil aplicação: o departamento editorial não deve ser condicionado pelo departamento comercial, ou seja, não se pode proibir um jornalista de apresentar uma denúncia fundada sobre uma empresa porque tal empresa paga tantos por cento da publicidade do jornal. Sem a regra da isenção econômica e política a alma de um jornal vira pano de chão.

Uma amiga, jovem, disse amar o jornalismo, mas não querer seguir na profissão porque, segundo ela, “os meios de comunicação viraram um bordel onde os proprietários trabalham como gigolôs, selecionando o trabalho de repórteres, redatores conforme o interesse em beneficiar ou prejudicar esse ou aquele grupo político e econômico, e quem desgarra, vai para o olho da rua. Temos liberdade somente para fazer matérias sobre frio, calor e outras amenidades do tipo”. Triste, muito triste.

O maior desafio do jornalismo, e telejornalismo, hoje, não é técnico, mas ético. Para que as novas gerações recuperem a confiança perdida no jornalismo crítico, independente, isento, imparcial, o quarto poder também precisa ser profundamente reformado.