sexta-feira, 25 de abril de 2014

Gastronomia, identidade e relações internacionais

Se pensarmos no contraste entre o modelo fast food e o modelo slow food, citando apenas um exemplo, podemos afirmar que assim como em tantas profissões, gastronomia e gastrônomos também não são neutros, mas condicionados por ideologias. Gastronomia popular significa não entender a gastronomia como privilégio de elites que frequentam restaurantes caros pelo mundo, mas ciência e arte geradas pela necessidade, produção cultural de povos geograficamente situados. Além do idioma próprio, cada povo tem sua identidade gastronômica, constitutiva de sua identidade cultural, em um dado território.

Ao viajar, o turista retira-se temporariamente de seu universo gastronômico específico e ingressa em outro. Com a mudança de idioma ocorre também a mudança gastronômica. Determinados produtos, típicos de determinados territórios e povos, usados artesanalmente pelos povos desses territórios, formam a cultura gastronômica de um lugar, elemento constitutivo de sua identidade cultural específica. A cultura gastronômica, porém, refere-se não apenas ao que se come, mas, também, ao como se prepara os alimentos, como se come, onde e com quem se come.

Gastronomia é símbolo de identidade e pertencimento a uma dada comunidade e não apenas nutrição corporal. Ao viajar, o turista reencontra-se com sua cultura de pertencimento em um restaurante com gastronomia típica de sua comunidade de origem. Como é óbvio, aquilo que é definido como exótico em um lugar, não o é em outro.

A diversidade gastronômica é uma das manifestações do pluralismo cultural internacional, e o retorno às especificidades gastronômicas, em pátrias diferentes da própria, significa, também, afirmação de identidade. Aromas, sabores e cores de ingredientes de gastronomia são símbolos de pertencimento a comunidades diferentes dos cinco continentes.

Para o sociólogo Ulderico Bernardi, “pesquisas empíricas realizadas entre imigrantes confirmam que a identidade alimentar é um componente essencial do sentido de pertencimento. Diante das pressões assimiladoras, para que os grupos se uniformizem, segundo o estilo de vida e valores de referência do modelo cultural dominante, justamente a alimentação demonstra maior resistência. Se a língua cede, o costume nutricional e a relacionalidade a ele vinculada duram mais no tempo” (Del viaggiare. Milão: FrancoAngeli, 1997, p.116).

Bernardi cita uma pesquisa feita com imigrantes coreanos nos EUA, indicando que houve adaptação ao estilo estadunidense de alimentação, mas com a preservação da alimentação coreana nas festas e finais de semana, quando há mais tempo para dedicar à preparação dos alimentos, e possibilidade de convívio. Nestas situações, as refeições são interpretadas como “ocasiões de reconstrução da identidade, com o uso de pratos típicos, tradicionais” (p.116).

Em algumas situações, perde-se o idioma, mas não a tradição gastronômica de origem. A identidade cultural preservada à mesa, como ocorre entre aqueles netos de imigrantes italianos do sul do Brasil que já não falam mais o idioma de Dante, mas sentem-se italianos praticando a linguagem slow food da polenta e suas circunstâncias.

Nenhum comentário: