quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Deus e eu, no consolo e na prova

Numa tarde de janeiro, de férias na serra gaúcha, caminhando movido por intenções mais físicas (gastar calorias) do que metafísicas, enquanto fazia minhas orações cotidianas, percebi, num dado momento, a grandiosidade da pessoa que designamos com a palavra Deus. Enorme, grande, simples. Senti vergonha por me comportar com Ele como uma criança mimada que exige doces no supermercado. Admirei-o na simplicidade de sua grandiosidade, e passei a apresentar meus pedidos com mais respeito, como quem pede, não como quem manda...

Na minha compreensão limitada, a experiência com Deus possui dois lados na mesma moeda: um lado exterior, político, e um mais interior, pessoal. No lado exterior, político, o Deus que eu comecei a conhecer em 1980 não é o Deus da prosperidade capitalista, do sucesso pelo sucesso, mas o Deus crítico das desigualdades sociais entre os seres humanos, para o qual todos os seres humanos, diferentes culturalmente, são de igual dignidade.

Do ponto de visto interior, mais pessoal, o Deus que eu comecei a conhecer em 1980 às vezes parece ser até meio cruel, pois coloca essa nossa relação à prova. Em vários momentos parece que a alma da gente navega nas ondas da descrença, do desencanto.

Em alguns momentos crer não é fácil, mas é aqui o lado dois da moeda: a construção de uma relação interior forte com Deus pelo caminho da purificação do coração que resolveu segui-lo nesses caminhos concretos, mesmo se invisíveis, da vida espiritual. Von Balthasar, teólogo suíço, dizia que a comunidade eclesial é uma espécie de andaime que ajuda a construir a relação esponsal entre a criatura e o Criador. E essa relação não é fácil. É por isso que tanta gente começa, com o encanto inicial da descoberta da vida espiritual e, depois, deixa tudo para lá...

Se a relação esponsal com Deus fosse fácil as comunidades religiosas estariam cheias de santos, mas não é isso que acontece. A santidade ainda é a exceção, não é a regra nas comunidades religiosas.

Deus corta, purifica, tira o consolo e pede para a gente seguir em frente, mesmo se agora já não sentimos mais o ardor consolador da juventude espiritual. O que antes era como o namoro com uma moça bonita, depois, na prova, fica com jeito de dançar com a tia.

A prova é bonita somente quando vista de longe, nos bons livros de espiritualidade. Quando se entra nela perde-se até a capacidade de se perceber que se está na prova. Quando se está nela não se vê mais ela como se fosse uma experiência espiritual, mas como ausência de vida espiritual. É vista como derrota da alma, como se algo tivesse irremediavelmente dado errado, e não como amadurecimento dela. Ao redor, todos parecem vitoriosos, alegres, somente você com cara de sapos na alma. Mas penso que seja assim mesmo a experiência (curta, longa) de purificação da relação entre criatura e Criador.

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