domingo, 22 de dezembro de 2013

Turismo e ideologia

Turismo não é mera válvula de escape de elites entorpecidas pelo tédio. Turismo, de tour, giro, volta, refere-se ao movimento de deslocamento voluntário, por um período de tempo limitado (ida e volta) com o desenvolvimento de atividades no lugar ao qual se destina por meio de viagem. Tais atividades podem ser a participação em eventos (turismo de eventos), assinatura de um contrato (negócios), visita a museus, etc. Segundo Fiorenza Tarozzi, “a história do viajar é tão antiga quanto aquela do ser humano”, mas “o viajar, que nos séculos passados era uma experiência excepcional, é para nós, hoje, ao contrário, um fato de rotina, uma experiência ordinária” (Il tempo libero. Turim: Paravia, 1999, p.49).

Viajavam em caravanas mercadores, militares, missionários, exploradores, conquistadores, colonizadores, diplomatas, peregrinos. Hoje, eles continuam viajando, mas em maior quantidade pela qualificação dos meios de deslocamento pelo território e dos meios de acolhida dos viajantes. Das antigas caravanas, passando pela organização do Grand Tour aristocrático, chega-se à popularização do turismo. Tempo livre e popularização do turismo foram conquistas da classe trabalhadora. Lutou-se pela redução da jornada de trabalho, dia de descanso semanal, férias remuneradas. Lá onde houve transformação dos pobres em classe média, passou-se do Grand Tour aristocrático ao Grand Tour mais democrático.

No seu artigo Toward a Sociology of International Tourism, de 1972, Erik Cohen identificou o turismo como “viagem de prazer” (Social Research, n.1, p.164). Porém, a rígida distinção entre viagem de prazer, para passeio, e viagem de trabalho, para negócios, não parece caber na modalidade turismo de evento. A pergunta típica de aulas de inglês para principiantes: “Are you here on holiday or on business?” ficou com essa rígida diferenciação relativizada pelo turismo internacional de eventos profissionais: congressos de psicologia, medicina, relações internacionais, ciência política, etc. O que ocorre também nos “almoços de trabalho”, mistura de negócios e prazer; passeio e trabalho. O útil unido ao agradável no turismo internacional de eventos.

As próprias “missões de governo” a outros países, ou as “missões empresariais”, além dos congressos internacionais profissionais, são mistura de trabalho com passeio, prazer, turismo de evento, profissional, com a distinção para fins de prestação de contas do que foi pago pela fonte financiadora e o que deve ser pago pelo participante.

Além disso, assim como tantas outras palavras e experiências, o turismo também não é neutro. Ele é ideológico em suas metas, realizações, sujeitos envolvidos e relações entre sujeitos coletivos. A escolha de destinos, roteiros, eventos, em Cuba ou Miami, na Disney, ou em Robben Island (uma das prisões do Mandela), manifesta os pressupostos ideológicos do sujeito que viaja. 

Pode-se viajar para a Bolívia para conhecer os caminhos percorridos pelo Che, numa espécie de peregrinação socialista, ou viajar para Meca (peregrino muçulmano), para Roma, romaria (peregrino católico), ou para conhecer, em El Salvador, a igreja onde Dom Romero foi assassinado. Os diferentes eventos, roteiros, destinos de viagem manifestam os pressupostos axiológicos e ideológicos diferentes contidos na escolha dos sujeitos que viajam.

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