segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cheiro de alecrim

A casa estava com cheiro de alecrim. Batatas ao forno com alecrim e óleo de oliva. Lembrei-me dos anos vividos na Itália, lembrei de Loppiano, Toscana, onde procuramos trocar o isolamento pela comunidade. Alecrim tem cheiro de família alargada, comunidade, diferente da família filosoficamente burguesa, fechada, sufocada no solipsismo.

Ultimamente, temos aberto mais as portas de nossa casa para os amigos e amigas. Comunidade família. Inventamos de cantar, fazer um coral. Cantamos, ensaiamos em casa, cantamos juntos. Abrir a casa para quem está longe de sua casa... Bom para quem chega e mais ainda para quem recebe.
Em julho passamos uma semana na casa de um casal de amigos em Santa Catarina. Na cidade de Tubarão, Miguel e Erly, gente de casa aberta e mesa posta para os amigos e amigas. Café passado todas as tardes. Café de uma família alargada que muito mais do que de sangue é de coração.

Café passado, alecrim com batatas no forno. Água, vinho, óleo de oliva, pão fresco assado para os amigos e amigas. Família alargada, liberada das barreiras de sangue, sem as barreiras entre as gerações.
No início do mês, tive minha primeira conversa de igual para igual com minha filha mais nova. Diferença de 36 anos entre nós, mas somos todos iguais, de igual valor. “Puxa, ela cresceu e eu nem me dei conta”, pensei feliz da vida enquanto ela apontava, com amor e sinceridade, alguns entre os meus defeitos a serem corrigidos na relação com ela. As possibilidades de mudança nos são dadas pelos outros, e ai de nós se desperdiçamos essas preciosas ocasiões. Na maioria das vezes, fui eu quem disse como ela deveria fazer. Agora, pela primeira vez, ela me tratou como se fosse meu pai e eu me comportei como se fosse seu filho. Acolhi suas boas observações, sugestões, decidi me emendar, como faz um filho quando escuta seu pai.
O bom de viver uma relação de igualdade, pelo diálogo sincero, também com os filhos menores, é que a autoridade, em vez de enfraquecida sai fortalecida... A autoridade do amor, a única que merece ser obedecida.


Tenho perdido algumas certezas, não pelo mero passar dos anos. Calendário não é livro de sabedoria e idade não é virtude. Não troquei, porém, certezas por dúvidas. Ando meio assim, sem certezas e sem dúvidas. Troquei certezas pela confiança em quem consegue nos ver melhor, os amigos e amigas. Continuo sendo como sou, desconfiado. Mas um desconfiando confiante. Apesar dos tantos e evidentes males que vejo, que me fazem ser um sociólogo desencantado, confio sempre mais no que podemos chamar de força cósmica do bem. Para participar dessa confiança, basta, para isso, jogar-se nessa corrente do bem que perpassa nossas vidas. Fazer como fez Marlin, o peixinho pai do Nemo que encontrou o seu filhinho jogando-se e deixando-se levar pela corrente cósmica intrafísica do bem, da unidade (na diversidade) que já somos e à qual somos destinados a ser.

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