sexta-feira, 7 de junho de 2013

Macho que é macho...

“Macho que é macho” faz isso ou não faz aquilo Cresci ouvindo isso. Coisa de gaúcho? No nordeste, meus amigos de lá usam a expressão “cabra macho”.

“Macho que é macho protege a fêmea, a prole e o território”. Isso deve ter entrado em mim, ou sempre esteve lá dentro, pois toda vez que alguma ameaça real ou imaginária rondava minha esposa, eu rosnava, mostrava os dentes. Com as filhas, o mesmo. Com o território, também. “Macho que é macho” e lá estava eu rosnando e, algumas vezes, mordendo mesmo, sem o consentimento de esposa e filhas. Esse dever de garantir a segurança da fêmea, prole e território está no pacote do “macho que é macho”.

Ano passado, quando estava estudando inglês na costa índica da África do Sul, perto de Durban, sem minhas filhas e a esposa, enquanto fazia minha caminhada diária acompanhada da oração do Rosário, experimentei um convite interior a mudar de vida: “Livra-te desse sentimento de proteção. Você não é capaz nem de se proteger, quanto mais de proteger esposa e filhas. Deixa que elas se protejam, e me deixa proteger vocês”.

Foi um momento forte para mim de oração, com marcadas consequências em minha vida psicológica, familiar, política, social. Pequena nota sobre a oração. Santa Teresa afirmou que Deus vive em nós. Ou seja, Deus está no céu, mas está em nós. Eu penso no vulcão: sua irrupção prova que há fogo no centro da terra. Da mesma forma, alguns momentos particulares de oração são como a irrupção do Deus que vive dentro de nós em forma de comunicação forte de amor.

Bueno, naquela tarde, a irrupção deu um chute no pau da barraca do “macho que é macho”. Chega de asfixiar com esse desejo de proteção, primo-irmão do maldito sentimento de posse, inimigo mortal do amor, inimigo mortal da liberdade. Confiar, então, na proteção de Deus.

Quase um ano depois, lá estava eu caminhando de novo, agora no mar verde do pampa, perto de Livramento, quando outra pequena irrupção aconteceu. Em resumo, entendi que a ideia do “macho que é macho”, na expressão dessas três proteções: fêmea (desculpem a linguagem primitiva, mas o macho que é macho é primitivo mesmo), prole e território, esconde uma virtude.

Homem que é homem deve assumir suas responsabilidades com a família, esposa e filhas, com o trabalho, território. Isso é coisa boa e justa. Homem que não assume suas responsabilidades não é homem. É menos que verme quem não paga nem os alimentos aos filhos. Assumir suas responsabilidades é coisa de homem. Dessa vez, o que a “irrupção” (pequena revelação desde baixo) me disse foi outra coisa, completando a anterior: “Não basta ser homem, é preciso aprender a ser cristão”. Assumir responsabilidades, e desapegar-se delas. Desapegar-se da esposa, filhas, território. Desapegar-se para seguir com exclusividade o Deus da irrupção, confiando em sua proteção. Deixar de ser marido e pai para ser amigo e companheiro de viagem nessa relação que agora é muito mais de igualdade, liberdade e fraternidade do que de posse. Desapegar-se dos próprios territórios para viajar pelos territórios de Deus.

Um comentário:

Alo disse...

É com o coração em plena irrupção que agradeço essa inspiradora comunhão. Me comovi até as lágrimas (macho que é macho não chora? Ou sou "frouxo" mesmo, como dizem os nordestinos?). Obrigado, meu irmão!
Um grande abraço,
Aloizio