sábado, 6 de abril de 2013

Fiz 50

Fiz 50 e não fiz nada, ou pouco
Trabalhei numa favela, por anos
Voltei à favela, que continua favela
Li muito,
Escrevi muito, mas não escrevi nada
Nada de relevante.
Não fiz uma revolução, como queria
Nem armada nem a do amor

Fiz 50, e não fiz nada, ou pouco
Duas filhas, lindas
Cresceram bem, estão crescendo bem
Com minha esposa vai bem
Desde o ano passado, melhor ainda
A felicidade não está no alto
Está aqui, no baixo
A felicidade não está no alto
Está embaixo, aqui no baixo
Nos meus pés, lava-pés
A felicidade está na casca da laranja
Na casca da banana
Não sou famoso não tenho sucesso
Nunca saí em rede nacional, nem estadual
No ônibus, ninguém sabia quem sou.
Não fiz nada nem acho que vou fazer
Vou ser assim, como sou, nada
Bonito, porém, como a casca da laranja
Que meus amigos comeram.

Em comum com os grandes homens
Terei a morte
Getúlio Vargas, morreu
Prestes, morreu
Gumercindo Saraiva, morreu
Che, morreu
Gramsci, morreu
Garibaldi, morreu
Neruda, morreu
Gardel, morreu
Em comum com os grandes homens
Terei a morte, a última viagem
Sem conhecer o avião
Nem a aeromoça
Sem conhecer a comida da viagem
Sem saber aonde chegarei
Se chegarei
O céu não é para mim
Na melhor sorte, ficarei para sempre esquecido
Como já vivo agora
Esquecido de mim mesmo, melhor
Descobrindo a vida, no baixo
Vou ser assim, como sou, nada
Bonito, porém, como a casca da laranja
Que meus amigos comeram.

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