quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A casa de uma única porta

Fico imaginando a cena exterior e interior, a tragédia de sentimentos que antecedeu a morte dos jovens de Santa Maria. Correram para fora e não puderam sair... Empurrados pela fumaça e pela vontade de viver, correram, então, para o outro lado, imaginando que haveria uma janela ou uma porta por onde pudessem sair. Quem não faria isso? Estamos acostumados a ver várias portas e janelas em lugares térreos, mas na boate do terror havia uma única porta... Correram para o outro lado e morreram amontoados, envenenados, num banheiro sem saída, o banheiro da morte.

A tragédia de Santa Maria nos revelou que existem casas de uma única porta... Uma única porta para centenas de pessoas. Casas de uma única porta, sem janelas nem outras portas, são casas terríveis para uma pessoa, ou duas pessoas. Casas de uma única porta para centenas de pessoas não são casas noturnas, são casas de morte, casas potencialmente assassinas...

Casas são apenas amontoados de tijolos, construções humanas. Casas não têm culpa. Quem construiu essa casa estranha, de uma única porta? Quem deixou que essa casa estranha fosse construída? Quem deixou que ela fosse usada? Uma casa de uma única porta não serve para duas pessoas e muito menos para centenas de pessoas.

Conheci Porto Seguro, Bahia, em 1988. Dancei na praia, num tablado de madeira, animado pelos ritmos de então. Eram tantas as janelas e as portas, entre os coqueiros, na praia, que nem dava para chamar de casa. Mas era uma casa, aberta, cheia de jovens, dançando, ouvindo música... Uma casa noturna diferente, bem diferente dessas casas de porta única, casas da morte.

Os jovens morreram amontoados, envenenados, num banheiro, pensando que estariam em uma casa com mais de uma porta, ou ao menos haveria janelas. Mas não. Era uma casa de uma única porta, uma casa diferente da casa de nossos avós, tias, tios, amigos, que são cheias de portas e janelas, como todas as casas normais.

Certa vez, alguém conheceu uma casa muito legal, bonita, “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”. A casa da morte era uma casa diferente, não era engraçada, tinha uma única porta...

Infelizmente, seres humanos fazem casas de uma única porta, casas da morte, bem diferentes da casa de Deus, aberta, larga e bela como as nossas praias e o nosso amado pampa, com seus horizontes infindos.

Nenhum comentário: