sábado, 22 de dezembro de 2012

A idade da banalidade

Estou em Roma, para passar o Natal com a família daqui. Durante a viagem, li quase todo um livro sobre o antes e o durante da guerrilha de Ernesto Guevara na Bolívia, que fazia parte de seu projeto de internacionalização da revolução cubana. Não quero entrar no mérito do trabalho do Che, apenas afirmar que, certo ou errado, ele vivia por um projeto coletivo. E hoje, quem tem um projeto coletivo bem intencionado para parte da humanidade?

Não estamos mais na idade dos projetos. Passamos da era das revoluções à idade da banalidade. A burguesia fez suas revoluções, conquistou o poder em grande parte do mundo. Depois, revolucionários vermelhos conquistaram o poder na China, em Cuba, onde continuam até nossos dias. Em outras partes do mundo, em vez de revoluções, reformas foram feitas, socialdemocratas. Operários se transformaram em consumidores pequeno-burgueses. Venceu a sociedade de consumo, com suas marcas, sua hierarquia de consumo: carros populares ou de luxo; roupas populares ou de luxo.

Aqui na Europa, quem antes comprava produtos de marca, agora ou compra produtos sem marca ou mesmo não compra nada. Quem antes era consumidor pequeno-burguês, agora, empobrecido, chora a perda do poder de compra. Quem antes estava em pleno na sociedade de consumo ficou sem dinheiro para isso. Querem voltar aos tempos áureos da sociedade de consumo, com reformas, ajustes aqui e acolá. Isso será possível?

Enquanto digito essas palavras, a televisão italiana mostra um menino comendo panetones. Agora, mostra uma mulher borrifando perfume de marca. Ora, comer panetones não é ruim. Usar perfumes, também não. A publicidade continua vendendo sonhos, difundindo a ideologia da sociedade de consumo. “Panetones para todos!”, ou “Perfumes para todos!”. Não existe hoje outra ideologia de massa fora da sociedade de consumo, onde o consumo tornou-se projeto de vida. E aqui está a banalidade: uma coisa necessária, como o consumo, adquiriu status de cosmovisão do ser humano pós-moderno.

É um mundo meio pobrezinho o nosso, também do ponto de vista dos projetos coletivos. Ainda bem que é possível viver em bolhas de vida alternativa, simples, que se deslocam pelo mundo, bolhas de resistência à ideologia da banalidade nossa cotidiana.

E a quem dizer que ao menos a sociedade de consumo não mata ninguém, basta recomendar a leitura de dados sobre o número de mortos pelo consumo e venda de drogas, mais os zumbis-consumidores, produtos típicos da ideologia da banalidade.

Um comentário:

crsantos disse...

Oi Primo: mto bom teu artigo, como sempre. Tens toda razão. Hoje vejo mtoas pessoas buscando mudanças político/econômicas não para progresso e melhores condições de vida etc de quem menos tem, nas quais se incluem. Assim, desejam alternar o poder, tão somente, para galgar o poder e, via de consequência, obterem para si as benesses desfrutadas pelos sucedidos. Não há verdadeiro do bem comum, em sua legítima e os teus. Cristina Régio