terça-feira, 8 de maio de 2012

Fronteiras - significado e valor


As palavras não são neutras, mas carregadas de valor. E não me refiro somente aos adjetivos, mas, também, a alguns substantivos. Há substantivos que se tornam adjetivos.
Burguês, por exemplo, não é somente o profissional do burgo, o comerciante, mas, segundo determinados juízos de valor, o explorador da classe operária, ou o esnobe. Preguiça, outro exemplo, pode ser o bicho, ou o vício, pecado capital. Aliás, há mudanças de valor na palavra preguiça. Hoje, ao recomendar a seus pacientes que trabalhem menos, um cardiologista recomenda como remédio (valor) certa dose de preguiça curativa. As palavras mudam de significado e valor ao longo dos anos (tempo), e em determinados lugares (espaço). A partir de certas interpretações axiológicas sobre o pensamento de Maquiavel, sobrenome de Nicolau, pensador italiano, passa-se a usar maquiavelismo como sinônimo de malvadez. Depois, ao ser estudado pelo que foi, um “pensador do mal”, e não pelo que não foi, um “professor do mal”, passa-se a usar a expressão pensamento maquiaveliano, para diferenciar Maquiavel de maquiavélico.
O mesmo ocorre com a palavra fronteira.

Para o exilado político, passar a fronteira significa libertação. Para o contrabandista, fronteira significa aflição. A palavra fronteira não é uma palavra neutra. Ela suscita sentimentos e valores diferentes. Mas ela é, também, uma palavra descritiva, designa o lugar do início ou do fim: início de um Estado, ou fim de outro Estado. Numa linha visível ou imaginária de fronteira, um Estado termina e outro começa. Fronteira é o fim do mundo, para quem deixa o seu Estado de pertença; ou o início do mundo, para quem volta ao seu Estado de pertença. 

Fronteiras são constitutivas da vida social. Fronteiras entre tradição e modernidade; fronteiras entre grupos sociais de interesse variado. Fronteiras não significam necessariamente divisão, mas distinção. A última experiência humana será, certamente, uma experiência de fronteira, entre a vida e a morte.

A fronteira entre as cidades-gêmeas de Santana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguai) foi rota de fuga para a liberdade de cidadãos que fizeram oposição à ditadura militar instaurada na década de 1960, no Brasil. Para eles, tal fronteira foi o lugar da conquista da liberdade perdida no miolo do Estado.

Feias ou bonitas, com ou sem lanchonetes e lojinhas de artesanato, as fronteiras são instrumentos necessários de segurança. Somente num mundo sem pecado original (ou use a expressão que preferir para designar o mal moral, real, social) não haveria necessidade de fronteiras e de profissionais da segurança pública (civis e militares) em regiões de fronteira.

Do livro Fronteiras em Movimento - Livro Novo! (clique aqui)

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