sexta-feira, 2 de março de 2012

Selvagens foram os brancos


Sociologia se faz, antes de tudo, com os pés. É preciso botar os pés em um lugar para entendê-lo um pouco mais.

Antes de nossa viagem, o mapa do continente africano era para mim uma informação técnica. Agora, o mapa ficou vivo. Olho para ele e vejo rostos de crianças, mulheres, homens. Conheci apenas a África do Sul, mas em tal país dialoguei com pessoas de outras nações africanas, que me apresentaram seus países, criaturas vivas, vitais.

Nações são como pessoas: é preciso conhecê-las para amá-las melhor. Nações não são entes burocráticos, são criações humanas, formadas ao longo de décadas por comunidades humanas que as amam. Hinos, bandeiras, equipes esportivas, gastronomia típica, danças, músicas, poesia, literatura, cinema valem pelo que são e pelo sentimento de pertença coletiva que geram ou representam. Estados nem sempre são assim, mas nações, sim.

Entrar em outra nação exige que antes limpemos os pés no tapetinho de ingresso, exige respeito, reverência, exige que sejamos na pátria do outro como gostaríamos que o outro fosse caso visitasse a minha.

A África do Sul foi uma grata surpresa, sobretudo, Cape Town, cidade onde está um Cabo cujo nome é um programa de vida: Boa Esperança! Não basta uma esperança qualquer, é preciso que seja boa esperança, e a integração internacional, a partir do Sul, é uma boa esperança.

As diferenças nacionais não são obstáculos à integração, mas possibilidade de troca de riquezas, superando traumas, como foi o apartheid.

O que aconteceu na África do Sul por décadas foi selvageria dos brancos, que criaram campos de concentração para os negros. Não penso que seja correto traduzir Township por favela. Township é pior que favela, é campo de concentração para negros. Durante o apartheid, os negros foram confinados lá dentro.

A imagem do canibal como modelo de selvagem, que povoou a nossa imaginação por anos, está errada. A selva não é selvagem. Nenhuma guerra tribal se compara às duas guerras mundiais criadas pelos brancos. Selvagens foram os brancos europeus que na África e na América mataram, escravizaram. E o racismo talvez seja demonstração de certa inferioridade moral dos brancos em relação aos negros.

Selvagens foram os brancos como os da Ku Klux Klan e tantos outros grupos de ontem e de hoje. Selvagem foi a ideologia do racismo científico, estupidez pseudocientífica segundo a qual os brancos seriam superiores e, por isso, os negros deveriam ser por eles tutelados.

Mandela, no poder, eleito, optou pela reconciliação, e não pela vingança. Deve ter ficado enjoado de tanto ódio, ou sentido pena dos brancos, escravos de uma mentira que se grudou na máscara da hipocrisia. O caminho da reconciliação é longo, difícil, mas, certamente, necessário.

Esperança? Sim, a universidade de Cape Town com estudantes negros. Antes não era assim...

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