sábado, 17 de março de 2012

O ateísmo não é a religião oficial da ciência


“Ele disse que religião é bobagem”, reclamou, chateada, a estudante de medicina, evangélica, de uma universidade brasileira. “Ora, assim como eu não faço pregação evangélica em sala de aula, ele também não deveria fazer cruzada ateísta em sala de aula. E quem tem uma religião não é burro”, concluiu. Concordo. Um professor não deveria tratar um fenômeno complexo (religião) de forma superficial, e não deveria desrespeitar o pluralismo de crenças que caracteriza o Brasil, pluralismo que é protegido constitucionalmente.

Sala de aula não é lugar de pregação, mas de análise, já explicou Max Weber faz tempo. Expor convicções é diferente de desqualificar opiniões alheias, o que tem cheiro até de crime contra a liberdade constitucional de expressão.

Pregação ateísta não cabe em uma universidade pluralista, assim como não cabe pregação confessionalista. Geralmente os ateus são mais perseguidos do que perseguidores. Porém, em algumas situações, a fogueira da intolerância parece que muda de lado.

Há quem confunda laicidade, de Estado laico, com laicismo. Laicidade é uma virtude da democracia, e laicismo é um vício contra a democracia. Estado Laico (laicidade) é aquele que não escolhe uma religião para ser a religião oficial do Estado.

O pressuposto do Estado Laico é a liberdade religiosa. A laicidade do Estado serve como pano de fundo para o exercício pluralista da escolha desta ou daquela religião. Ou seja, o Estado Laico não é contra as religiões, mas a favor da liberdade religiosa. A laicidade é a favor da liberdade religiosa. O laicismo é que é contra as religiões, contra a liberdade religiosa, contra a democracia.

O contrário do Estado Laico é o Estado Confessional, quando o Estado escolhe um credo religioso como credo oficial do Estado. Ora, se o Estado escolhesse o ateísmo como seu credo oficial, ele não seria mais laico, mas confessional. O mesmo vale para universidades e ciência, espaços, experiências de análise, não de intolerância crente ou ateísta.

O ateísmo não é a religião oficial da ciência. A ciência é um método, leigo, agnóstico de investigação empírica, e pode ser usada por crentes ou ateus, que se desapegam profissionalmente de seus valores, sem abrir mão deles.

Há bons pesquisadores ateus, e bons pesquisadores cristãos, espíritas, budistas, muçulmanos, deístas (como os maçons). A arrogância não é monopólio dos crentes. Cruzadas de ateus em nome de uma ciência que não é ciência são tão enfadonhas quanto cruzadas de crentes.

Em uma universidade leiga, religião não é para ser exaltada nem combatida, mas estudada, analisada como fenômeno social caracterizado pela complexidade. Para as ciências sociais, por exemplo, religião é fenômeno cultural complexo. Pode ser analisada do ponto de vista antropológico, político, sociológico, econômico.

“Religião e luta de classes”, título de um livro do sociólogo Otto Maduro. Religião para a conservação ou para a revolução. Nas relações internacionais, as religiões também são fenômenos complexos, na Índia ou no Irã, no Brasil ou na Tailândia, nas relações entre os Estados.

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