sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Pampa, deserto e cidade


Não conheço desertos, somente vi de longe, do avião. Conheci dunas, longas. Deserto é o lugar do vazio, mas nem tanto. Há criaturas que vivem no deserto. Seres humanos acostumados em cidades não sabem viver no deserto. Caravanas de beduínos vivem atravessando desertos, como a nossa alma, beduína, que anda pelo deserto, sobrevivendo graças aos oásis. Deserto é lugar de aridez, solidão, vazio, dor e morte, para quem é estrangeiro no deserto.

No pampa profundo, na fronteira entre Brasil e Uruguai, experimentei certo pavor: “E se eu ficasse aqui, sozinho, sem casa nem comunicação (o celular não pegava), bem no meio do pampa?”. Enquanto percorria aquele belo ambiente, a contemplação de tal beleza misturava-se ao medo de ficar ali sozinho. Depois, em casa, abracei minhas filhas e telefonei para minha esposa, que viajara a trabalho. Matei saudades!

Cidades e famílias, por mais violentas que às vezes sejam, continuam sendo sistemas de proteção do indivíduo: padaria, supermercado, açougue, fruteira, farmácia, hospital, escola... No deserto não há nada disso, nas cidades, sim. Mas há, também, ameaças. Triste ser miserável nas cidades: tudo ali, mas sem poder usar. Pobres contemplam as janelas dos açougues, mas não compram. Sonham com filé mignon, comem pão e arroz. Mesmo assim, é melhor ser pobre, com outros pobres, numa cidade do que ser rico perdido sozinho num deserto.

Deserto e cidade; deserto e comunidade. Deus, que é Deus, não vive sozinho, mas numa comunidade, Trindade, Cidade de Deus. Quis os seres humanos para aumentar sua comunicação. Ainda bem para nós! Caso contrário, não existiríamos. Como escreveu Chardin, “não somos átomos perdidos no universo”.

Deserto é lugar inóspito para nós. Deserto é bom professor, lições sobre a interdependência entre os seres humanos. Sapateiros precisam de leiteiros, que precisam de sapateiros, que precisam de médicos, que precisam de professores, que precisam de alunos, que precisam de pais, que precisam de filhos, que precisam de amigos, que precisam de casas, água, energia.

No deserto descobre-se a angústia da solidão, o medo da morte e a necessidade da comunidade, das relações humanas, para alimentar corpo e alma.

Alma beduína no deserto. Aridez, medo, sensação de nulidade, impotência profunda como o medo. Vazio, nada... Alma que se abre para os outros, sente falta deles, encontra-os. Vínculos de amizade. Aquilo que está no meio de nós e que acaba por entrar em nós, o amor, fazendo com que sintamos saudades uns dos outros.

O deserto e a cidade, a comunidade. No deserto descobrimos que precisamos da comunidade, centro da vida humana, amor-comunidade que personaliza, fortalece, alimenta.

Sozinho no pampa, mas, depois, encontro minhas filhas e esposa, meus amigos, numa casa de campanha. Comunhão na roda de chimarrão, e no churrasco de fogo de chão.

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