sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sobre folhas e vento


Voltando de minha aula de ginástica com dança, notei, em uma rua de Rivera, que o vento havia derrubado a última folha seca de uma árvore. O espelho da aula de dança era agora aquela árvore, que refletia a minha alma, sem folhas. Sentir-se como uma árvore de folhas secas, ou sem folhas, é algo que acontece de vez em quando. Dá vontade de reclamar. Para onde foram as folhas? A nudez da alma, a nudez da árvore. Vazio, meio envergonhado, sem nada, despido, galhos entrelaçados sem folhas, frutos, flores.

Lembrei-me de Igino Giordani (1894-1980). Para ele, a perda das folhas faz parte do belo (mesmo se duro) caminho em direção à liberdade. Libertar-se da ingratidão e da adulação. Libertar-se de si mesmo, das próprias folhas, das coisas que julgamos importantes somente porque próximas ao nosso eu. O eu, sempre o eu. As coisas que eu faço, que considero vitais, mesmo se, em geral, não o são. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, sobretudo o nosso eu, e “é o nosso eu que deve morrer mesmo se gostaria sempre de prevalecer” (Giordani). O eu museu de folhas secas.

“Vaidade das vaidades” pensar que somos “relevantes”, necessários. O destino das estátuas de praça é virar depósito de excrementos. A lição das pombas! Amigos budistas empregam a palavra impermanência. Tudo é impermanente, exceto o amor, razão de nossa vida nesta vida e passaporte de ingresso na cidadania futura. Por isso, bem-vindo seja o vento da purificação, que liberta das folhas secas as árvores do jardim da nossa alma...

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