sábado, 9 de julho de 2011

Friófilos


Quando vou a Manaus, sei que vou encontrar, por lá, tempo quente, mesmo se já me surpreendi algumas vezes, em meio ao Rio Amazonas, de barco, à noite, com certo vento frio. Redes e pessoas cobertas com lençol e até uma mantinha. Mas sabemos que em Manaus faz calor, assim como aqui, no Sul do Brasil, em julho, faz frio.

Frio, em julho, no Sul do Brasil, é normal. Não é preciso abrir o Google para saber disso. Anormal é ouvir tanta reclamação, em julho, no Sul do Brasil, sobre o frio.

Que um carioca reclame do frio, é normal. Cariocas que estudam ou vivem no Sul do Brasil às vezes reclamam, e isso é normal. Meio estranho ouvir gaúchos, catarinenses e paranaenses de nascimento reclamando do frio. Reclamar é um direito humano, mas reclamar de quem reclama demais também é um direito da oposição aos reclamantes.

Quando morávamos em Tubarão (SC), em fevereiro subíamos a Serra do Rio do Rastro, um dos lugares do mundo que eu mais amo. Em Bom Jardim da Serra o ar é tão bom que se fosse engarrafado venderia muito. No litoral catarinense, mais de 30 graus. Duas horas depois, no alto da Serra, à noite, a temperatura ia para menos de 10 graus. Uma vez, em fevereiro, dormimos com a calefação ligada num hotel na cidade de São Joaquim. A serra catarinense, em julho, não é um lugar apropriado para gente sensível demais ao frio.

Bom Jardim, Urupema, São Joaquim são cidades amadas pelos friófilos. Aqui em Santana do Livramento, fronteira com o Uruguai, o frio mostra toda a sua beleza em julho. Beleza! Sim, beleza! O frio não é “castigo” da natureza nem de Deus, como lemos, infelizmente, em alguns jornais e ouvimos em telejornais. Aliás, telejornais deveriam ser um pouco mais isentos. Eles mais julgam o tempo do que o descrevem.

Se há pessoas que morrem de frio, no inverno, por morarem nas ruas, a culpa não é do frio, mas do sistema social. Não há calefação nas casas, e isso é outro problema nosso, e não do frio. Quantos morrem de calor na França, na Itália, EUA durante o verão de lá?

O frio é amado por gaúchos, catarinenses, paranaenses, exceto pelos sensíveis demais às variações térmicas, que passam o inverno aporrinhando com suas constantes lamentações. Em Curitiba, faz frio, às vezes, até no verão. A cultura do Sul não existiria se não houvesse o frio, o inverno.

A cidade de Gramado, por exemplo, vive do frio. Santa cidade! Até no verão Gramado usufrui do frio, com um Natal Luz que, mesmo sendo no verão, fica meio com cara de inverno. Frio combina com roupas de lã, lareira, sopas, chocolate quente, chimarrão (mas o mate é bom sempre), botas, chapéus (no verão, mudo para o chapéu Panamá que, aliás, é do Equador). O frio é lindo, torna o céu mais azul, aproxima as pessoas, gera mais abraços, até casais brigados fazem as pazes no inverno para dormirem entrelaçados, estufa humana de almas reaproximadas pelo inverno.

O frio gela o corpo, mas aquece os corações. O frio instiga a mente, lemos e estudamos melhor no inverno. E, depois, o frio do Sul do Brasil, por comparação com outras partes do mundo, nem é tão frio assim, exceto as serras gaúcha e catarinense. Frio é artigo de luxo dos homens e das mulheres do Sul do Brasil.

Amigo frio, seja bem-vindo, nós, friófilos, como já diz a palavra, te amamos. E fique firme ao menos até setembro, pois a Semana Farroupilha fica mais charmosa com você, na moldura do nosso velho, sempre novo, vento Minuano, o sopro-bênção que sai da boca de Deus refrescando a nossa alma, iluminando a nossa mente e aproximando os nossos corações.

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