segunda-feira, 20 de junho de 2011

Professor universitário – mais do que “dar aulas”.


“No mês que vem o senhor terá uma folguinha, com as férias de julho”, comentou-me uma senhora, vendedora de frutas, ao ver-me cansado. Para ela, a atividade do professor é “dar aulas”. Sua filha, estudante universitária, disse-lhe: “Mãe, os professores da Unipampa fazem um monte de coisas, em julho não param, estão sempre ‘fervendo’”.

O que faz um professor universitário? Bem, para começar, se ele usar a expressão “dar aulas” vai arrumar encrenca com seus colegas pedagogos. Educação, segundo o grande Paulo Freire, “é relação de aprendizagem entre quem sabe que não sabe tudo (professor) e quem sabe de saber alguma coisa (estudantes)”. Nesta relação entre quem sabe de saber algo e quem sabe de não saber tudo é que está o ensino, atividade coletiva, multilateral. Mais do que “dar aulas”.

Mas ensino é somente uma parte da atividade do professor universitário. Há, também, a pesquisa e a extensão. Pesquisar, sozinho e em grupos de pesquisa, publicar o que se pesquisou e produziu (artigos, livros, capítulos de livros). Ler muito, estudar, escrever. Para pesquisar é preciso uma linha de pesquisa, e a uma linha de pesquisa se chega pela razão e pelo coração. As nossas relações afetivas e efetivas com linhas de pesquisa são quase como relações amorosas. As linhas de pesquisa são mais ou menos como mulheres lindas e inteligentes: elas são sempre complexas e variáveis. É preciso saber como chegar, como relacionar-se.

Além de pesquisar, o professor ajuda os estudantes a pesquisar. Para isso, é preciso tempo, muito tempo, já que pesquisar não é como fast food, é slow food, pizza a mão, esticando a massa, cozinhando-a em forno a lenha, lentamente...

Ensino, pesquisa, extensão. Extensão significa estender-se, esticar-se. É a universidade que se estica (se estende) até a comunidade. Ou a comunidade que se estica, se estende até a universidade. Extensão significa utilidade pública do saber universitário, estudar para mudar a sociedade, a universidade como meio de mudança social, e a comunidade como desafiadora da universidade, não permitindo que ela se feche.

Abrimos nossa caixa de correio eletrônico e encontramos pedidos de colaboração, de vários sujeitos, solicitando isso e aquilo. Eventos sobre isso e aquilo, todos vitais, na cidade, no Brasil ou fora do país. A comunidade ferve, e faz ferver a universidade. A universidade ferve, e faz ferver a comunidade. E nessa fervura toda, nós, professores, fervemos também.

Depois, tem o fato de a nossa universidade – Unipampa – ser uma universidade nova, situada numa fronteira sedenta de iniciativas, o que nos faz ferver bastante, felizes, mesmo se cansados. Para descansar a cabeça, escrevo artigos de opinião, terapêuticos para mim, pois faço, assim, meus balanços sentimentais e racionais semanais.

Penso que a melhor definição de professor universitário seja a figura do intelectual orgânico, expressão do pequeno-grande italiano Antonio Gramsci. Em suma, intelectual orgânico é o pesquisador dedicado, sério, metódico, que articula as relações entre teoria e prática, análise e estratégia, em função das mudanças sociais.

Ensino, pesquisa e extensão. Faltou a gestão. Ao menos nas universidades federais, que são de gestão democrática, além de ensino, pesquisa e extensão, o professor é chamado, também, a gerir o espaço onde trabalha, com seus colegas técnicos e os estudantes.

Por isso, quando os estudantes estão de férias, nós não “damos aula”, mas aproveitamos para trabalhar mais...

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