terça-feira, 21 de junho de 2011

Fronteiriços, uni-vos!


Conversando com uma professora uruguaia, de uma cidade-gêmea da fronteira Brasil-Uruguai, num certo momento, ela, suspirando, disse-me: “Caro professor, nossa fronteira é uma terra esquecida pela mão de Deus”. Pelas viagens que já fiz por algumas cidades-gêmeas da fronteira Brasil-Uruguai, pude experimentar essa mesma sensação de abandono, cidades esquecidas por quem vive no miolo do Estado, em Montevidéu, em Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre.

A visão sobre fronteiras que emerge nos meios de comunicação geralmente é negativa, fronteira como terra de ninguém, como terra que seria melhor que não existisse. Terra de crimes, de sem-leis, como se os sem-leis de Brasília, ou do Rio de Janeiro fossem alimentados por sem-leis de fronteiras. O miolo do Estado parece que vive mesmo de costas para suas fronteiras, e quando pensa nelas pensa em criminosos ou em consumo.

Voltando à conversa com a professora, respondi-lhe: “Cara professora, quem esqueceu as fronteiras não foi a mão de Deus, mas a do Estado”. Talvez o Estado brasileiro e o uruguaio ultimamente estejam dando mais atenção às suas fronteiras. Talvez seja o momento no qual as próprias cidades-gêmeas da fronteira entre o sul do Brasil e o norte do Uruguai devam dar mais atenção às suas populações fronteiriças. Sair do estado de isolamento (abandono, esquecimento) no qual se encontram. Mas como fazer isso?

Um senhor, também do Uruguai, me dizia: “É melhor ser a cabeça do ratão do que o rabo do leão”. Concordo. A América do Sul, por exemplo, está fazendo isso com a construção da UNASUL: “É melhor ser a cabeça do ratão do que o rabo do leão”.

As doze cidades-gêmeas de fronteira, situadas na linha de fronteira entre Brasil e Uruguai, são cidades com identidades semelhantes, problemas em comum, desafios em comum, tanto que há legislações específicas voltadas exclusivamente para os cidadãos brasileiros e uruguaios que vivem em uma das 12 cidades-gêmeas fronteiriças da fronteira Brasil-Uruguai.

Problemas semelhantes, desafios semelhantes que poderiam ser resolvidos de forma conjunta, por uma espécie de G 12, conselho das 12 cidades-gêmeas Brasil-Uruguai, todas com igual poder de decisão, com uma sede própria, ou com sede rotativa entre as 12 cidades-gêmeas das 06 regiões de fronteira urbana, binacional, integrada entre Brasil e Uruguai: Chuy e Chuí; Rio Branco e Jaguarão; Aceguá e Aceguá; Rivera e Santana do Livramento; Artigas e Quarai; Bella Unión e Barra do Quarai.

São cidades pequenas, muitas delas muito pobres, mas são cidades Farol, cidades enormes do ponto de vista da integração binacional que elas vivem diariamente. São fronteiras diferentes, fronteiras da integração de fato entre duas nações diferentes, são fronteiras modelo de vida binacional, integrada, para todo o mundo e, também, para o Brasil.

Aquilo que o governo brasileiro quer fazer nas fronteiras amazônicas, vivificação como forma de vigilância permanente em regiões de fronteira (não é a única forma, mas uma forma privilegiada, vivificação com normas do Estado e não com as normas da criminalidade organizada), já ocorre, de forma bem-sucedida (em uma concepção não perfeitista de integração), nas 12 cidades-gêmeas de fronteira entre Brasil e Uruguai.

A integração que aqui se vive é integração satisfatória, que deveria ser mais estudada e exportada para o Brasil e para o mundo. Os brasileiros e uruguaios fronteiriços das 12 cidades-gêmeas de fronteira vivem experiências exemplares de integração, onde as diferenças entre Brasil e Uruguai são vividas como possibilidade concreta de enriquecimento recíproco.

Fronteiriços das 12 cidades-gêmeas, uni-vos! Criai o vosso G 12, sendo a cabeça do ratão, e não o rabo do leão.

Dos leitores, via e-mail:

Fala Tchê,
Aqui na região do DF, as cidades do "entorno" compõe o estado de Goiás e não são tratadas com respeito por seu estado, pois esse classifica que sejam um problema do DF pela proximidade, já o DF não dá jeito pois o problema é de Goiás, assim as cidades vão crescendo desordenadamente sem a presença e nem fiscalização de nenhum dos dois estados. É tipo "Sarará", que não entra em baile de branco pois é considerado negro e nem em baile de negro pois é considerado loiro.
A mim parece um forte jogo de empurra entre os dois lados, como deve ser o que ocorre entre Brasil e Uruguai no caso de vocês. A impressão que passa é que em breve as "Aduanas" serão transferidas para aproximadamente 20 km antes das fronteiras e essas terras serão de ninguém. Em parte isso já ocorre em Foz do Iguaçu, onde os maiores postos de fiscalização de fronteira ficam em pontos específicos da região e não em Foz.
Ernani

Amigo Fábio
Grande contribuição!!!
Fico feliz em ver que podemos somar forças e tentar mudar nossa realidade!
Conte com o amigo na luta!
abraço
Robinho

Fábio
De todos os textos que acompanho, este tocou em um ponto especialmente necessário: a tão falada integração internacional. Escrevo desde São Borja, cidade vizinha de Santo Tomé, da província argentina de Corrientes. Estamos separados pelo rio Uruguai e, não sei se como consequência ou não dessa característica geográfica, me parece que nos falta concretizar a integração - ou, mais claramente, ir além da faceta comercial e realmente nos aproximarmos para solucionar questões nossas.
Como morador recente da Fronteira Oeste, posso cometer a imprecisão por falta de vivência e convivência, mas penso que o que se observa na fronteira com o Uruguai é um cenário que mereceria ser replicado junto aos nossos vizinhos daqui do Oeste.
Parabéns pelos textos e contextos instigantes!
Heleno

Um comentário:

Geovana disse...

As regiões de fronteira, e destaco a minha querida 'Fronteira da Paz' vêem ao longo dos últimos anos recebendo a atenção de pesquisadores e das autoridades. Felizmente!!! Apesar do muito que ainda precisa ser feito, a conscientização das autoridades das necessidades especiais que as populações fronteiriças demandam é o primeiro passo. E as pesquisas realizadas tem ajudado muito, principalmente no que se refere a valorização da cultura local transfronteiriça.