sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Em defesa da farofa e do Doggy Bag

Chegou a farinha amazonense que encomendei. Amarela. Ouro comestível. Sabor incomparável. Farinha de Maués, cidade que, para quem não soubesse, está a um dia de viagem de barco de Manaus. Maués é a cidade do guaraná, com suas frutas de olhos de índias. Cada região com a sua riqueza. A carne do sul é boa, mas a farinha do norte é muito melhor. Por lá vive, também, com seu sabor inigualável, Madame Tambaqui, lindas costelas coloridas de laranja pelas brasas.

Faço farofa apenas com óleo de oliva e sal fino. Não gosto daquelas farofas com ingredientes não identificados. A farofa feita com farinha do norte é tão boa que basta o seu sabor. É como a carne boa, que não pede temperos, apenas sal e fogo. Farofa amarela, crocante, saborosa, combina com tudo. Boa e bonita. Enfeita o prato, branco. Prato colorido confunde a vista. Prato tem que ser branco, tela do quadro, gastronomia é pintura comestível, fumegante, arte que alimenta os olhos, o corpo e a alma.

Sou farofeiro no duplo sentido da palavra. Amo farofa e amo aquele comportamento que alguns brasileiros que se consideram chiques abominam: levar comida de casa. Quando viajamos e conseguimos tempo para organizar o lanche, preparamos sempre uns pãezinhos recheados com presunto e queijo. Preferencialmente presunto cru e queijo em lascas grossas (não gosto de queijo fatiado, prefiro o sistema Jerry, do inoxidável cartoon). Certa vez, viajando de Santana do Livramento para Pelotas, paramos na praça central de Pinheiro Machado, abrimos nossa sacola do fiambre e saboreamos nosso lanche caseiro, entre copos de água e suco de vinho. Farofeiros inveterados! Recolhemos o lixo. Na praça, ficaram apenas os farelos, que foram logo varridos pelos pássaros.

Por onde viajamos costumamos praticar o farofismo. Já é uma tradição. Na Itália, em vez de pagar caro por um sanduíche pronto, costumamos comprar o necessário no supermercado e preparar os lanches antes de viajar. É mais saboroso, barato e divertido. Até o vinho em garrafinha costumo carregar para o lanche, exceto quando dirijo. “Apologia à farofa é crime!” – esbraveja o brasileiro chique.

Outro costume que atrai negativas com a cabeça é pedir para embrulhar a sobra do restaurante para levar para casa. Inicialmente, eu dizia que era para o cachorro (mas era para mim). Depois, botei a culpa na babá, que estaria em casa faminta. Agora, perdi de vez a vergonha: “Garçom, enrola a boia sobrada que vou comer depois”. Caso você fique com vergonha, use o idioma do Jerry para amenizar o impacto: “Garçom, a conta e o Doggy Bag”, que significa embrulhar a comida sobrada e levar para comer em casa. Uma pesquisa revelou que o Doggy Bag está em alta. É o farofismo que avança.

2 comentários:

nika disse...

Amo preparar o lanche do passeio da família,é bem mais saboroso!Tem gosto de:foi minha mãe que fez.

Juvercy disse...

Amigo Fábio, pois nessa viagem à Salvador Bahia, (feriadão último) pedimos ao garçom que “embrulhasse” a sobra (é assim que se fala naquela cidade) o prato era uma delícia: Carne Do Sol Completo c/ Frito: feijão fradinho, aipim frito, pirão de leite, farofa, arroz e vinagrete, simplesmente, de comer rezando. A carne do sol é muito saborosa!! E a quantidade nem se fala! E quando falei que era de Florianópolis, de lambuja ganhamos o cardápio de capa de couro cru. Estávamos em três e o que levamos no “embrulhado” foi nosso jantar no outro dia. Aqui nunca tive coragem de levar a sobra, mas agora perdi a vergonha...

Abraço da Amiga Juvercy