sábado, 15 de maio de 2010

Pizzaria Loppiano - Sabores do sul e do norte

Sopa combina com inverno. Família reunida na sala. Minha mãe está de visita. Minhas filhas e sua avó. Minha esposa. Quatro mulheres conversando e um homem na cozinha. Corto a abóbora em pedaços, descasco a cebola, sem cortá-la. Batatas sempre vão bem com tudo. Cozinho. Bato a cebola cozida no liquidificador. É um ato de amor. Minha filha menor come cebola, desde que não a veja.

Esmago a abóbora e a batata. Misturo tudo, água boa, do aquífero guarani. Corto o pão em cubinhos. Azeite de oliva, sal e cubinhos de pão. Juntos e sob o calor se transformam em pão crocante. Queijo ralado na hora, fresco, jovem, frisante. Parmesão que comprei no Uruguai, que fica na rua ao lado, aqui no Brasil, Santana do Livramento, onde em maio já uso a jaqueta de couro que usava somente em julho, em Tubarão, Santa Catarina.

Mesa posta. Minha filha aquecendo as mãos no vapor da sopa. Parmesão na sopa, ralado grosso. Pedaços de pão crocantes, quentes. A sopa vai para o estômago, mas passa antes pelo coração da família. Sopa, água e vinho tinto. Unidade, amor e sopa. Vista alegre. Cores, aromas, sabores. Sabores do frio. Antes da sopa, a oração. Uma amiga está doente. Rezamos todos juntos por ela. Todos de mãos juntas com o rosto envolto no vapor do amor, no vapor da sopa. Vapor, amor, unidade. Conversa sobre os temperos do Brasil e da Itália. A Sálvia parece de veludo.

Quem inventou o tempero? Deus cozinhou um dia? Jesus assou peixe para os seus amigos, que eram seus discípulos. Peixe, pão, água e vinho. Deus cozinhou por amor. Deus se deu em refeição, eucaristia. A Sálvia fica crocante quando frita no azeite de oliva. A minha única fritura. Azeite fortalece. Outro alimento divino. Milhares de sabores e aromas. Devem ter origem divina. Seriam eternos os sabores, as cores e os aromas? Eternos e, talvez, infinitos. Milhares de combinações. Quanta coisa se encontra no aroma de cada cálice de vinho.

No Brasil, a Amazônia: terra dos cheiros, dos gostos, das cores. De barco, no Rio Negro. De barco em direção a Maués. Lá, o cheiro do guaraná, a planta mais bela que existe. Olho mágico, olho lindo, olho divino. Cores e sabores. No barco, brisas com cheiros diferentes. Na terra, a farinha amarela. Combina com tudo, perfeita. Neste mundo, somente no mundo dos alimentos há perfeição. Somente o mundo dos alimentos não foi perturbado pelos efeitos do pecado original. Exceto os salgadinhos de pacotinhos. Bem, mas eles não são filhos da natureza.

Na Amazônia, o sabor do Tambaqui. Cor alaranjada, assada, no espeto, na grelha. Sabor incomparável. Costela de Tambaqui. Linda costela, que encanta, apaixona. Na Amazônia, o sabor do Cupuaçu. Aroma forte. Eu o amo. Desde que os vi, os amei, e amo-os para sempre. Tomara que no céu exista Cupuaçu. Será que um dia Jesus assará Tambaqui para mim? Não mereço, mas quero ser seu amigo. Jesus, eu, Tambaqui, com o menino Marcelino, mais o pão e o vinho.

Na Itália, Loppiano está na Toscana. Terra do Chianti, vinho bom, tranquilo. Loppiano, cidade da unidade, da relacionalidade. Nela vivi por um ano. Visitei os conventos e as colinas da Toscana. Os sabores, aromas e cores da Toscana. Em Manaus, um carioca casou com uma mineira. Fizeram filhas. Fizeram família. Fizeram uma pizzaria. Juntaram o que puderam num único lugar. Sabores de Nápoles. Água, Vesúvio e farinha!

Nápoles mais Loppiano mais Cupuaçu mais Tucumã mais Jambu (do Tacacá) mais fatias de Tambaqui mais Rio de Janeiro mais Minas Gerais mais o amor que fez três filhas e centenas de amigos é igual a Pizzaria Loppiano, em Manaus, de Manaus, laboratório de aromas, sabores, amores. Saudades de ti, Amazônia. Saudades de vocês.

2 comentários:

Elizabeth Melo disse...

.com.brProfessor gostei muito do que o Sr. escreveu ou melhor , a maneira que foi escrita fazendo que a medida que a gente vai lendo pequenas lembranças na mente vão surgindo,momentos simples , de familia, de felicidade,de coisas que parece que não existem mais, mas estão vivos dentro de nossos corações, trazendo a mim lembranças de entes queridos que não estão mais comigo em presença mas vão se eternizar em lembranças como essas. Elizabeth Melo.

Juvercy disse...

Viver bem é isso aí...é ter uma família linda...capacidade de sentir saudades...de preparar a sopa para as principais mulheres de tua vida. É ter uma história bacana para compartilhar.