quinta-feira, 24 de março de 2011

Pássaros feridos não conseguem voar


Conversei com uma pessoa que me revelou suas mágoas profundas, antigas. Mágoas com seu pai, que faleceu há mais de vinte anos! Mágoas com seus irmãos. Mágoas, mágoas, mágoas conservadas no fundo da alma como se fossem pedras preciosas. “O que você pensa sobre o perdão?”, perguntei. “Não merecem o meu perdão”, respondeu.

Aqui está o problema: pensar que o perdão seja bom para os outros. O perdão é muito melhor para quem perdoa do que para quem é perdoado. Quem acumula rancores é como um pássaro ferido que não consegue voar. Nossa alma deseja voar pelos caminhos da contemplação. Ferida, não consegue. O que fazer? Para voar é preciso querer, em vez de permanecer arrastando-se pelos pântanos sombrios da amargura. Querer voar é o primeiro passo. Querer sanar as feridas da alma para poder percorrer os caminhos da liberdade.

“O passado se supera com o perdão” (Doriana Zamboni). Combater os sentimentos negativos que machucam a alma é o combate mais importante a ser feito na vida. Quais são os principais sentimentos negativos? Rancor, ódio, desânimo, tristeza excessiva, exaltação, pessimismo excessivo, otimismo excessivo, alegria excessiva. O excesso de alegria nos faz perder a sobriedade e a objetividade. Ou seja, mais cedo ou mais tarde atrai o seu oposto.

Triste o estado de quem vive com a alma permanentemente grudada no rancor, cultivando sentimentos de ódio. E basta odiar uma única pessoa para que o ódio condicione toda a nossa vida. Ou estamos unidos a todos ou não estamos unidos a ninguém. Não significa que não teremos inimigos, mas não seremos dominados pelos sentimentos típicos da inimizade. A inimizade será técnica, mas não afetiva. Há pessoas com as quais não podemos manter conversações profundas porque não temos aquele mínimo necessário de confiança. Com nossas filhas, combinamos assim: amar a todos, mas ser amigo de alguns.

Num mundo que não é um vale de felicidade, não podemos, como pais, negligenciar os ensinamentos da bela e sábia prudência. Portanto, amar a todos, abertura universal, sempre prudente, jamais guardar rancor, lutar contra os sentimentos negativos, mas ser amigo somente de alguns, com os quais compartilhamos valores profundos, e nos quais podemos confiar, relativamente. Como disse o grande profeta Jeremias, “maldito o homem que confia no outro homem”. Somente em Deus podemos confiar de forma absoluta.

Com ou sem culpa, algumas pessoas nunca gostarão de mim ou de você. Amar o inimigo nem sempre o torna amigo. Disso ninguém pode fugir. Mas podemos fugir do ódio, tampa da caixa de Pandora que libera os sentimentos negativos que aviltam a alma, fazendo dela um pássaro ferido que já não consegue mais voar.

Como podemos nos livrar de tais sentimentos negativos? Em primeiro lugar, querer, como dissemos, mas não acredito que querer seja poder. Querer é o primeiro passo, mas não basta. Bons diálogos ajudam muito. Bons psicólogos, também. Mas é, sobretudo, no altar solene da confissão sincera que queimamos nossos sentimentos negativos mais profundos, permitindo que a alma, com as asas da alegria sóbria da Graça, volte a voar pelos ares infindos do amor, da liberdade, da unidade regeneradora.
(publicado em março 2010)

4 comentários:

Juvercy disse...

A reflexão sobre o tema levaram-me a fazer um questionamento:Como amar a todos? O próximo? Quem é o próximo? O marginal que mata nossos amigos, familiares? Peço perdão a Deus, por não perdoar a todos.
Fábio está ficando difícil caminhar, melhor mesmo é “voar”
Forte abraço
Juvercy

Daniela Rosa David disse...

Nossa Fábio, que lindo este artigo!!! Fiquei emocionada.
abração

Juvercy disse...

Ouvi uma canção linda e que as crianças gostam inclusive João Pedro (neto). O cantor é evangélico, parte da letra diz."...amar somente a Deus..."

Glauber LIma disse...

Excelente texto. O que me chamou a atenção para lê-lo, foi o título. É bastante instigante e faz o leitor mergulhar nas águas serenas de ums escrita que produz reflexão sobre a vida e as relações humanas. Vou distribuí-lo aos meus contatos.

Glauber Lima

Seu aluno de Economia - Unipampa.