sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Dona Zilda morreu como viveu


Érico Veríssimo, gaúcho cosmopolita, inventou a figura simpática de Rodrigo Cambará, célebre personagem de O Tempo e o Vento que dizia que não morreria deitado, mas lutando, peleando. E assim foi... A catarinense cosmopolita Zilda Arns, da pequena cidade de Forquilhinha, sul de Santa Catarina, também morreu como Rodrigo Cambará, em pé, peleando.

Conheci pessoalmente dona Zilda Arns em 2008. Fui seu colega na Cátedra Participação e Solidariedade, da Universidade do Sul de Santa Catarina. Conversamos novamente em junho de 2009, em Tubarão, numa reunião da Cátedra, minha última, pois, depois, mudei de cidade e universidade. Foi, também, sua última reunião na Cátedra, pois, como sabemos, dona Zilda também mudou de cidade.

Soube de sua morte enquanto viajava no interior de Santa Catarina, perto de Tubarão, por uma estrada de chão. A moça da rádio fazia propagandas de cremes e, da mesma forma como anunciava cosméticos, anunciou a morte de dona Zilda. Foi como se eu levasse um soco na boca do estômago. Ela deveria ter avisado que faria o anúncio de uma tragédia, mas não. Anunciou uma morte como quem vende sabão e, depois, continuou anunciando outras coisas, acho que era ração, revelando a miséria em que caiu certo tipo mercantilista de “jornalismo”, sem sentimentos, talvez até sem alma, ou com a alma perdida num canto da luta pela sobrevivência.

Recuperado do susto, imaginei que fosse notícia falsa. Como sabemos, não era. Fiquei muito triste ao pensar que aquela simpática senhora morreu com uma pedrada na cabeça. Para uma mulher tão sublime como dona Zilda talvez se esperasse uma morte mais doce, calma, embalada no canto das crianças que ela ajudou a salvar da morte. Ela poderia ter morrido com um último sorriso, seguido de um último suspiro, rodeada de crianças entre cantos e orações, poesias como a que outro nosso colega de Cátedra, Francisco Menna Barreto, fez e leu para ela durante um almoço num restaurante de Tubarão. Mas não. Ela morreu como Rodrigo Cambará, peleando. Sua peleia foi diferente, com armas diferentes, mas foi peleia.

Morreu na boa companhia dos soldados brasileiros, forças fardadas que são muito mais morais do que armadas, dedicadas aos direitos humanos, dos pobres, orgulho do Brasil Democrático.

Dona Zilda viveu heroicamente o amor, pelo amor, com o amor. Escolha pessoal de viver pelo amor social. Na Igreja Católica, quem vive heroicamente o amor é chamado de santo. Zilda Arns é uma santa moderna, casada, mãe, leiga católica, médica, cidadã brasileira inserida de forma inteligente em seu tempo.

Zildinha, mulher simples, tão simples e profunda como a poesia de Caymmi. Mulher corajosa, valente. Mulher realista na análise e idealista na ação. Mulher do céu, na terra, que voltou para sua pátria definitiva. Modelo de mulher, de católica. Alemãzinha de Forquilhinha, ela não desperdiçou sua vida. Ajudou a melhorar o mundo com sua sorridente determinação.

Dona Zilda enfrentou problemas sérios, feios, com oração e ação, movida pelo entusiasmo da esperança, o mesmo entusiasmo que move o coração dos nossos soldados brasileiros que partem em missão de paz.

A tragédia no Haiti não foi “castigo de Deus”, nem “vingança da natureza”. Foi, simplesmente, um fenômeno natural de trágicas consequências.
Temos Zilda! E a esperança continua viva, firme como o crucifixo que, surpreendentemente, permaneceu intacto em meio aos escombros da tragédia.
(publicado em 23/01/2010)

4 comentários:

Salésio disse...

Valeu Fábio. Parabéns pelo artigo/testemunho. "Dona Zilda" é memória viva pelos seus atos e atitudes. E vc, meu caro Fábio, continue com sua simplicidade verdadeira a levantar a peteca.
Um abraço Salésio

Daniela Rosa David disse...

Querido Fábio,vc como sempre escrevendo e surpreendendo!!!!
Dona Zilda é um exemplo á todos nós, pois ela fez exatamente o que todos devemos fazer, FAZER O BEM SEM VER A QUEM!!!! E assim ela conquistou seu passe livre ao céu. Que Descanse em paz.

abração à você meu amigo.


Dani

juvercy disse...

Eterno e querido Mestre!

Realmente, Dona Zilda “foi’ o maior exemplo de solidariedade humana que o Brasil já teve. Se a vida tivesse replay, eu pediria a Jesus para apertar o botão para essa grande mulher.
Fábio, você é uma pessoa admirável.
Forte abraço manezinho.

Juvercy

juvercy disse...

Eterno e querido Mestre!

Realmente, Dona Zilda “foi’ o maior exemplo de solidariedade humana que o Brasil já teve. Se a vida tivesse replay, eu pediria a Jesus para apertar o botão para essa grande mulher.
Fábio, você é uma pessoa admirável.
Forte abraço manezinho.

Juvercy