sábado, 30 de janeiro de 2010

Amigos de velhice

“Quem são teus melhores amigos? Quem são teus amigos de infância?”. Tais perguntas me angustiaram na adolescência. Ora, a minha lista não era muito grande. Pouca gente e muitos cachorros (que morreram). Algumas amizades não resistiram ao teste do tempo. Fiquei meio triste ao pensar nisso. Lembrei, então, dos amigos de hoje. Não foram muitos os amigos de infância, mas são muitos os amigos e as amigas de “velhice”.

Desde o dia em que decidi assumir o rumo moral, intelectual, político e espiritual de minha vida, ou seja, desde o dia em que me responsabilizei por meu destino, entregando-o a Deus, passei, sem prever, a criar laços firmes, bons, de amizade com muitos amigos e amigas, de idades, nações, classes sociais diferentes. Parece que quando pensamos mais nas coisas do mundo, nas coisas da res-pública (coisa pública), fazemos mais amigos e amigas.

Com uma de minhas amigas, casei-me. Nossa bela amizade dá sabor ao nosso casamento. Os anos passam e não percebemos. A amizade quebra os relógios da rotina, transformando-a em novidade costumeira. Geramos novas amigas, nossas filhas. Difícil ser amigo delas quando só choravam e enchiam fraldas. Gosto mais agora, quando fazem perguntas, comentários.

Na “velhice”, tornei-me amigo também dos meus parentes, coisa mais difícil quando se é criança. Dentre meus amigos de velhice, está meu falecido pai, do qual me tornei irmão; está minha mãe, da qual sou amigo; está meu irmão, do qual sou muito mais amigo hoje do que antes, quando brigávamos em casa; estão minhas três irmãs, das quais sou amigo hoje. Sendo mais velhas, me mandavam fazer compras. Terrível a vida de irmão mandado. A bela amizade de agora, com minhas irmãs, prova que não existe verdadeira fraternidade sem o pressuposto da igualdade, ou seja, até a fraternidade de sangue precisa ser construída, a partir da liberdade e igualdade, para que se torne amor, amizade, fraternidade sólida.

Os amigos e amigas de “velhice” são excelentes! Não nos encontramos sempre, até porque estamos em países diferentes, ou em universos diferentes, mas nos amamos com santa gratuidade.

O que mais me leva a crer na eternidade da vida não é tanto a teologia, ou a fé (também ajudam), mas, sobretudo, as boas amizades. Eu não acredito na morte das amizades aprovadas no teste do tempo. Elas vão além do tempo. São eternas. Fraternidade eterna, universal.

Acredito na eternidade da unidade personalizante do amor recíproco, gratuito, simples, das gargalhadas sóbrias por dentro cuja origem dever ser espiritual.
Tenho amigos de vários credos, inclusive ateus. Um deles vive a solidariedade com criatividade de artesão. É um autêntico republicano do amor. Pergunta: conta mais acreditar no amor, e vivê-lo, mesmo sem ter fé religiosa, ou, tendo fé religiosa, se lixar para o amor, como fizeram os “crentes” do mensalão de Brasília que “oraram” pela propina recebida?

Se a vida eterna não existisse, o amor recíproco, no presente, já valeria a pena. O amor vale no presente, pelo que é, e, se for mesmo eterno, como penso, será, também, passaporte para a terra do amor, onde as boas e velhas amizades, de tão velhas, se tornaram eternas, ou seja, jovens para sempre.

4 comentários:

Daniela Rosa David disse...

Amei o artigo Fábio, você como sempre me fazendo repensar sobre tantas coisas!!!!Obrigada por dedicar o seu tempo em escrever coisas que tocam a alma.
abração

juvercy disse...

Amei:

“Se a vida eterna não existisse, o amor recíproco, no presente, já valeria a pena. O amor vale no presente, pelo que é, e, se for mesmo eterno, como penso, será, também, passaporte para a terra do amor, onde as boas e velhas amizades, de tão velhas, se tornaram eternas, ou seja, jovens para sempre.” Fabio Bento.

Simplesmente indo demais...

Abraço
Juvercy

estudante da UNISUL disse...

Fábio,
sou muito mais feliz depois que tornei-me sua amiga.Com você eu aprendo,desabafo,...sem você aqui na UNISUL nada bom, mas quem ganhou mesmo foi Santana do Livramento, seja feliz amigo.
Abraço
Eterna aluna

Colafina disse...

Fábio, apesar de termos crenças religiosas díspares, o que me faria questionar um ou outro ponto do seu texto, a essência da mensagem neste artigo é irretocável. E isso é o que realmente importa e me faz respeitá-lo como crítico e pensador. O resto... é só o resto.
Muito bom, mesmo!